Tornar-me Escritor
Somos todos escritores, só que alguns escrevem e outros não. - José Saramago, Globo 1997
No princípio era o sonho
Estava na primária quando pedi aos meus pais para imprimir um poema que tinha escrito. Infelizmente, não ficou para a posteridade. Tenho vaga ideia de ser uma estrofe, talvez duas. Não me recordo ao certo de quantos versos mas não seria longa, seguramente. A minha hiperactividade e défice de atenção não me permitiriam escrever nada muito demorado e sempre fui propenso à procura da gratificação imediata. Recordo o som da impressora, antiga, do início dos anos 90, com aquele papel composto por espaços verdes e brancos com argolas nas laterais. Escrever era a minha forma de contar histórias e, ao ver a minha criação aparecer no papel, linha a linha, percebi que queria ser escritor. Era um sonho cumulativo com ser polícia, ou bombeiro, ou presidente da República. Mas eu preferia o facilitismo de ver a histórias no ecrã da televisão e gastar fita das VHS a ver os meus filmes preferidos, vezes sem conta; sempre tive alma de reformado. Na altura, pouco lia e não percebia que estava a hipotecar a minha futura escrita. Faltava-me a paciência, a concentração e, pior, a matéria-prima da imaginação que são os livros.
Mais tarde, algures entre o quinto e o sexto ano, não me lembro como nem porquê, combinei escrever uma história com a minha amiga, colega e vizinha Diana. Tenho a memória do entusiasmo, do debate de ideias. De me sentar no escritório de casa dela – seria mesmo o escritório ou o computador estava na sala? – e começarmos a escrever. Ao final do primeiro parágrafo, estava farto e só me apetecia fazer outra coisa qualquer. A Diana, mais metódica e concentrada, levou avante o projecto e terminou a nossa história. Só me lembro que era sobre uma aldeia chamada botão, ao pé de Coimbra ou Conímbriga. Se calhar imaginei tudo isto, uma memória do escritor-que-não-fui que guardo com carinho. Talvez ela não tenha terminado. Mas escreveu bem mais que eu, é certo. A ela nunca lhe faltou leitura. Atrevo-me a dizer que nos anos seguintes foi através dela que descobri a colecção profissão adolescente que me começou a levar a leituras que não fossem bandas-desenhadas que me acompanhavam nas idas à casa de banho. Lembro-me da pilha de revistas e BD’s que estavam à porta dessa divisão com carinho. Outros tempos, sem computadores de bolso com ecrã táctil. Mas divago na maionese. Retenha-se que lia pouco mais que BD’s até dada altura.
Montes do conhecimento
Queria, então, ser escritor, mas não escrevia. Pior, não lia. Sonhava, claro, mas vivia preso num mundo de ilusão. Nem a propósito, li há pouco tempo um artigo de longo formato que falava, em parte, sobre estas particularidades. Começa na forma como as ideias, sendo ou não nutridas, morrem ou se multiplicam; avança sem pudor por uma espécie de game of life de um matemático inglês, e embarca numa odisseia metafórica sobre a importância da aceitação e do cultivo de ideias e conhecimento e como uma rotina pode ser a base para tudo isto. Utsav Mamoria era um mero desconhecido até o algoritmo do Substack me ter feito chegar ao seu artigo que, confesso, inspirou muito como quero cuidar do meu jardim de ideias de ora em diante. Bom, avante. Eventualmente, comecei a ler mais. A consequência foi quase imediata: comecei a escrever mais e melhor. Também tive ajuda. E a lotaria genética e social ditou que tivesse acesso a milhares de livros em casa, quase todos portentos literários, dos mais variados autores das mais variadas geografias e épocas. Foi, quiçá, o momento em que deixei de ser um pirralho privilegiado ignorante para me tornar num pirralho privilegiado menos ignorante. Nesta transição comecei a não só querer ser escritor, como também a escrever. Nos primórdios da blogosfera, imitei as vozes que lia e admirava e aprendia sobre quem era à medida que escrevia. Pouco mudou nesse aspecto: continuo a escrever para me conhecer melhor. Comecei a coleccionar cadernos e escrevia poemas, ideias de histórias, pequenos contos. Escrevia entradas de diário avulso. Punha no papel as mágoas, as dúvidas, as ânsias. Passei grande parte da vida sem perceber o que sentia e escrever clarificava as coisas. À medida que lia mais avidamente, sentia-me com arcaboiço para me achar escritor. Mas ainda vivia num mundo de ilusão: ultrapassada a barreira da leitura, deparei-me com a barreira da prática. Num mundo imediato, também eu queria beber do elixir que me tornaria o próximo Nobel. Queria o reconhecimento e o portento intelectual, mas sem a prática, sem o investimento de horas a escrever e reescrever. Continuava preso na caverna de Platão a achar que as imagens foscas da minha ambição sonhadora eram feitas de realidade. Queria o comprimido rápido do imediatismo sem esforço. Só se pode aprender a escrever escrevendo. Não há volta a dar.
A Rotina
Rotina: para mim foi a chave de tudo – criar uma rotina de escrita. Todos os dias, a caminho do trabalho, comecei a escrever no portátil estas crónicas. Caminho para o terceiro ano. O processo é simples. Chego à estação, sento-me sempre no mesmo banco, escrevo até o comboio chegar. Rezo para conseguir um lugar sentado e, caso consiga, escrevo mais até chegar ao meu destino. Repito o mesmo processo no dia seguinte. Os textos vão crescendo, ganhando corpo. No processo, encontrei o meu tom, as minhas vozes, que oscilam com os meus humores. E em vez de ser ingénuo – ou preguiçoso –, à procura da inspiração ou da musa da criação, aconteceu o inverso: a criatividade encontrou-me sempre a trabalhar. Quantas vezes comecei textos sobre um assunto e acabei noutro, guiado pelo constante esforço de colher pensamentos e materializá-los em palavras, frases, parágrafos, crónicas. Escrevo porque preciso escrever: não sendo terapia, é terapêutico. Corro por gosto, claro. Há um prazer enorme em reler o que saiu da ponta dos meus dedos, traduções dessa interioridade que de outra maneira não existiria no mundo de forma tangível. Gostava de viver disto, sim. Sustentar a minha família com a escrita, com livros, com a vida de um escritor. É um sonho duro. O mercado literário é uma merda, viver da escrita é um privilégio de poucos e a inteligência artificial ameaça matar a humanidade na literatura. Mas continuo a sonhar: desta vez, com consciência que me falta comer muito pão com côdea até lá chegar. A ler mais para escrever melhor. A escrever mais para me conhecer melhor. Caminho para o terceiro ano de escrita quase diária e publicação semanal neste cantinho digital. Sinto que está na altura de abandonar a minha zona de conforto e aventurar-me em compromissos mais sérios. Gostava de publicar, mensalmente, um microconto, para além das habituais crónicas. Não sei se as viagens de comboio me chegam para tudo –provavelmente não. Precisarei escrever também noutras alturas. Talvez em cada momento possível e livre. Não será dessa prática, também, que se fazem os escritores de outras coisas?

O tempo e depósito da literatura
Tenho muito presente a imagem do Saramago no documentário José & Pilar. Sentado no seu escritório, rodeado de papéis, livros e os seus pensamentos enquanto, lentamente, digitava as palavras que compunham os seus textos. Invejo-lhe o privilégio conquistado: dias inteiros para escrever. Por momentos, esqueço-me do seu passado operário, dos anos que demorou até publicar os primeiros livros, do brio enorme com que entregava os seus manuscritos que pouca ou nenhuma edição precisavam, garante Zeferino Coelho, seu editor. Dos anos a escrevinhar longe de qualquer reconhecimento para chegar à sua própria voz. Talvez me falte reconhecer o essencial: preciso escrever mais para ser escritor. Enfrentar a síndrome do impostor e expôr as minhas histórias ao escrutínio público. Mas a escrita é tão mais que tudo isto e os caminhos que vamos escolhendo também condicionam o que a nossa escrita se tornará.
“A verdadeira escrita é aquele gesto de vascular dentro do depósito da literatura, à procura das palavras necessárias.” – Elena Ferrante, As Margens e a Escrita, p. 30.
A rotina permitiu-me encontrar o espaço para eu próprio enfiar a mão nesse depósito e ir escrevendo o que vai saindo. Cada dia – em cada momento – saem coisas diferentes. Quem me lê talvez note, talvez não, mas há diferentes energias nos dias, nas frases, nas conclusões. Tenho aprendido muito com a leitura do livro da Ferrante para o clube de leitura da Raquel. Vou-me revendo nas reflexões sobre a arte da escrita que tanto pode ser escatológica como profundamente bela. E percebo que o acto da escrita é um processo que carrega os nossos medos, gostos, visões, opiniões e, como todas elas, muda com o tempo. Aliás, o tempo será um dos melhores condimentos da escrita. Ganhamos quando nos afastamos de um texto e voltamos com um cinzel para desbastar e encontrar nesse filão um outro texto, com outra voz. Ganhamos com a passagem do tempo e com as leituras e pensamentos e ócio que acabam por criar coisas que tínhamos dentro de nós e nem sabíamos. Aceito-me mais escritor nos dias que correm. E penso, muitas vezes, que foi preciso procrastinar e render-me à preguiça nas minhas primeiras décadas de vida para poder ter o entendimento que hoje tenho do que significa escrever. E perceber a tábua de salvação que vai sendo poder transformar em palavras o que vai cá dentro.
Ultimamente, tenho escrito longe dos carris. Vou sentindo picadas no peito, uma urgência, que impele a digitar palavras para crónicas ou ideias de histórias. Aprendi que sou mais profícuo e eficiente se mantiver tudo dentro do mesmo ecossistema digital: usar o telefone para transcrever uma citação, abrir um documento na drive e escrevinhar uma ideia nova ou a continuação de um texto em progresso. Quero ultrapassar os medos de ser julgado e publicar aqui os meus primeiros contos. Tenho a ideia, ingénua, de publicar um conto por mês. Ou a cada dois meses. Permitir-me mais do que a crónica e lançar-me na imaginação. Afinal, vou continuando a ler e faço-me escritor em cima dessas línguas que se foram cimentando, camada após camada, dentro de mim. Foi esta revelação que encontrei no terceiro capítulo do livro da Ferrante: sabendo que só escrevendo me torno escritor, preciso escrever em cima das minhas experiências e leituras e tudo aquilo que vou absorvendo da vida. Só assim poderei começar a escrever qualquer coisa que, talvez, deixe de ser meramente interessante ou inteligente e passe a ser única. Almejo a arte e o engenho de conseguir descrever as impressões do mundo em mim e traduzi-las em narrativas que só poderiam ser escritas por mim. Vou tentar, então, palavra a palavra.
Abraço-vos,
João
Este texto foi gentilmente revisto pela Raquel Dias da Silva e, por causa disso, foi escrito com o antigo acordo ortográfico.
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Fantástico texto João! Revi-me muito no que disseste no início. Também lia muito pouco e sinto que isso afectou bastante a minha capacidade de encontrar palavras. E agora que adoro ler:
“ultrapassada a barreira da leitura, deparei-me com a barreira da prática. (…) Só se pode aprender a escrever escrevendo. Não há volta a dar.”
🎯
que texto incrível, João. e venham esses contos, por favor! o mundo precisa deles :)