Como não escrever.
Liberdades na prosa e no verso para que sejamos livres no dia-a-dia.
Olá,
Antes de mais, queria fazer um anúncio: a partir de hoje podem encontrar no final do texto algumas maneiras de contribuir e apoiar esta crónica semanal e Poemário. Enchi-me de coragem e enfrentei o síndrome do impostor. Se gostam do que aqui escrevo e gostariam de contribuir para o crescimento desde projeto, agora já podem.
Façam-me o obséquio e permitam-me ventilar. Há um segmento - culto? - de pessoas que escrevem artigos de caça ao clique e que apelam à sede (necessidade?) humana de subsistência. “Como escrever para maiores audiências no Substack!” ou “Como escrever para o seu nicho?” ou “Como capitalizar com os seus artigos em três passos”. Vou deixar de lado os inúmeros apelos de índole religiosa para o algoritmo do Substack proporcionar experiências únicas e específicas de acordo com os gostos de cada um. E os hábitos e práticas dos criadores (escritores?) mais bem sucedidos. Irra.
A importação do conceito de conteúdo para esta plataforma afasta-a, na minha opinião, da sua verdadeira essência: um espaço para o formato longo e reflexão. Podemos fazer o malabarismo intelectual que quisermos mas já estão criados os espaços onde o conteúdo curto e de estimulação dopamínica podem florescer . Tenho para mim que a migração a que assistimos para estas bandas se prende, precisamente, com uma vontade de nos afastarmos dessas plataformas, desse imediatismo, dessa procura de gratificação instantânea cujo preço ainda não temos verdadeiramente noção. Não sinto que esteja a criar conteúdo; não vejo o Substack como um copo que precisa de ser enchido pelas minhas palavras. Permitam-me a poesia de afirmar que o verdadeiro trunfo desta plataforma jaz na possibilidade de escrevermos e sermos lidos com intenção. Com autenticidade. Com a imperfeição que nos caracteriza, com a particularidade única que cada um de nós encerra. Aqui descobrimos a voz de outros; o olhar deles sobre o mundo. Para isso não podemos seguir receitas: estes textos não são bolos onde por vezes temos a liberdade (ou preguiça) criativa de mudar ingredientes. Cada publicação é um pedaço de humanidade, um testemunho existencial que, quero muito acreditar, nos vai distinguir durante muitos anos da inteligência artificial. Não vamos descobrir as diferenças nos textos avulsos. Será no conjunto da obra, das publicações, que vamos descobrir essa vulnerabilidade que um algoritmo, por mais bem treinado, não conseguirá mimetizar. Certos textos têm alma: o fantasma dentro da máquina. Se eu estiver redondamente enganado - e posso estar, assumo - que o supremo líder digital do futuro me perdoe.
Agora vou cavalgar, de forma antitética, essa tendência digital de sistematizar fluxos de trabalhos que prometem resultados. Vou elencar o complexo processo de como não escrever no Substack, nem em lado nenhum. É uma das lições que faço questão de partilhar com os meus filhos: a regra de não haver regras no que à criatividade diz respeito.
Só há uma maneira de começar a escrever: é escrever. Não importa o sítio (eu estou a escrever num banco húmido de uma estação de comboio depois de uma noite de chuva torrencial). Não importa a hora (estou a caminho do trabalho a usufruir dos tempos de espera que a CP proporciona). Não importa a experiência prévia. Só ficamos bons a escrever depois de escrever muito, não há volta a dar. É como tudo na vida: a prática faz a perfeição. Quando achamos que já escrevemos bem, é quando temos de ter o maior dos cuidados: estamos a ficar convencidos e arrogantes. O melhor é continuar a escrever para melhorar. Depois, ler ajuda e muito. O Tim Armstrong, dos Rancid, tem uma máxima que me faz todo o sentido: no input, no output. Temos que encher a cabeça com leitura para, de tempos a tempos, irmos tendo micro epifanias. Depois essas revelações quase divinas podem acabar em textos vossos. Também é preciso ler para se saber como escrever. Ficamos a conhecer imensas vozes literárias, guardamos no nosso subconsciente as que gostamos mais, dá-se uma reação físico-química no nosso cérebro e acabamos por escrever com uma voz nossa. É uma alquimia maravilhosa sentir que o que absorvemos do mundo acaba destilado em algo nosso.
Dos nossos maiores desequilíbrios o mais exasperante é entre o pouco que lemos e o muito que escrevemos. Em tantas outras áreas, puxa-nos mais para a área dos espectadores do que para a dos protagonistas. Miguel Esteves Cardoso em “Como é linda a puta da vida”
Esqueçam lá isso de escrever para o vosso nicho ou público-alvo (a não ser que trabalhem em publicidade e/ou marketing, aí é mesmo preciso, lamento). Escreve-se um texto com aquilo que nós achamos que deve ser escrito, com as ideias - de porcaria ou não - que defendemos no preciso momento da escrita. Temos liberdade para editar o texto e até, imagine-se, mudar de ideias enquanto escrevemos. Ou depois: há sempre margem para mudar de opinião quando confrontados com novas informações e perspetivas. Escrevemos o que nos vai na real gana e tomamos a corajosa decisão de mostrar ao mundo. Pode ser a um grupo restrito de pessoas, pode ser numa publicação online de qualquer tipo. Depois, o nicho e o público-alvo aparece, ou não. Porque só nos lê quem gosta do que escrevemos e das nossas ideias, precisamente porque é uma escrita que é agraciada com a nossa originalidade. Há que ver isto como uma relação amorosa: se fazemos algo diferente daquilo que somos, as pessoas apaixonam-se por algo que não somos nós. Ninguém consegue manter essa farsa por muito tempo e a história acaba em desilusão e sofrimento. Mais vale sermos quem somos: quem gosta, gosta, quem não gosta põe na borda do prato.
Não há regras de formatos, nem linhas orientadoras. A não ser que estejam a participar num concurso literário com regras específicas, claro está. Se vos pedem um texto com cinco mil palavras, lamento, mas cinco mil e uma podem desqualificar-vos. Se pedirem sonetos e entregarem décimas o princípio é o mesmo. Se ainda estiverem na escola, ignorem tudo o que leram até aqui e façam o que os vossos professores pedem caso não queiram reprovar. A liberdade criativa não é um valor relevante no ensino em Portugal, salvo raras exceções. O pretexto: é preciso saber as regras para as quebrar. Acho limitativo. Não há regras apenas quando escrevemos porque queremos. Os pedidos tendem a conter coisas específicas. Mas quando se escreve em liberdade é outra coisa. Queremos escrever ou temos algo para dizer por escrito, ou queremos refletir com um processador de texto num ecrã, ou uma caneta num papel. À nossa maneira.
As cinco melhores dicas para se escrever um texto, ou as fórmulas que devemos seguir para atingir o maior número de seguidos criam todas a mesma coisa. Outras vez arroz. Os mesmos textos, com os mesmos artifícios para cativar a atenção, os mesmos temas. Passado um bocado, são todos os textos iguais. Como fazer X em Y passos, como melhorar Z aspetos da nossa vida. As melhores dietas, receitas, exercícios, livros, podcasters. Ufa. Lemos estes artigos em blogs, jornais e revistas e sentimos que andamos em ciclos de consumo uníssonos. Não há espaço para respirar nem refrescar os olhos com uma peça original, que desafie a bolha do pensamento. Desafio todos os que escrevem (deixem-se estar, criadores de conteúdos, isto definitivamente não é para vocês) a simplesmente escrever o que vos apetece. Como querem, com o estilo que querem e com a liberdade de o poder mudar de texto para texto, parágrafo a parágrafo, frase a frase. É assim que se deve escrever, por exemplo, uma crónica. Ou um artigo de opinião. Ou um poema, conto, romance ou epopeia. A escrita ainda nos permite ser, de facto, os animais políticos que somos. Permite-nos a sensibilidade de sermos artistas, permite cristalizar a nossa forma de ver o mundo, de pensar. É dos maiores dons da humanidade: usemo-lo, livres.
Abraço-vos,
João
Escrever sobre uma obra de Primo Levi é sempre assumir uma responsabilidade. Já sabia quem era o autor, sei que escreveu o “Se Isto É Um Homem” e é responsável por relatos fidedignos que alimentaram o imaginário coletivo, e cinematográfico, do que se passou nos campos de extermínios nazis. Este último livro de Levi foi o primeiro que li dele. É um soco no estômago, escrito bem depois dos acontecimentos, e reflete sobre várias questões complicadas da altura. Desde a suposta cobardia de uns, o instinto de sobrevivência, os vários graus de maldade, a obediência cega e acrítica. Relembrou-me do quão importante é questionar e colocar em causa. Também me veio confrontar com uma realidade que detesto olhar de frente: o instinto de sobrevivência humano é egoísta por defeito. Salvo raras exceções, nós e os nossos seremos sempre a primeira prioridade, em detrimento de outros. É aqui que nos vemos ao espelho e percebemos que somos animais e que há um imperativo para sobreviver. Acho que é um livro que devia ser de leitura obrigatória em todas as escolas: faz refletir na fragilidade que é a segurança em que vivemos e o quão rapidamente ela se pode tornar num reinado de terror.
A propósito do que se anda a passar no mundo, li este maravilhoso artigo do Bernardo Mendonça, de quem gosto muito de ouvir no podcast “A Beleza das Pequenas Coisas”. Uma reflexão sobre o mundo cada vez mais misógino em que vivemos.
O João Lameira tem aglomerado numa publicação os Substacks nacionais. Deixo-vos aqui o link.
Estas crónicas serão sempre gratuitas. Se gostas de acompanhar o que escrevo e gostavas de me apoiar, podes:
Mandar-me uns trocos para o PayPal
Ajudar-me a vender livros e coisas cá de casa
Fazer uma contribuição única ou recorrente para um café



Olá João! Ainda bem que gostaste do texto, fico muito grato por isso. Mas há também criatividade na forma como entregamos informação. Às vezes estarmos simplesmente relaxados e apaixonados por antioxidantes e fibra é quanto basta para acender a chama da criação.
João, o teu texto tocou-me num nervo profundo. Nos últimos anos, sinto que temos vindo a confundir o escrever com o fazer marketing e o fazer marketing com escrever, muito também impulsionado pelos autores que usam as plataformas de redes sociais para levar mais longe as suas obras. Nada contra, é parte do seu trabalho, mas nem tudo tem de ser para vender. Gostei muito de ler este texto (espero que o comboio tenha demorado o tempo certo para o escreveres sem chegares atrasado ao destino). Um beijinho