Obrigado, Cláudia.
"I know not what tomorrow will bring" - Fernando Pessoa
Poucos sabem, ou se lembram, que houve uma altura na minha vida em que eu e a língua portuguesa não éramos propriamente amigos. Detestava escrever, ler, e qualquer forma de estudo da gramática era, para mim, um autêntico suplício. Talvez por ser filho de uma professora de Português e sentir a pressão em casa, talvez por sentir uma exigência no dia a dia, talvez porque sempre fui um pouco imaturo. Graças ao privilégio da lotaria social e genética, tive a oportunidade de ter explicações de Português com várias pessoas, em vários momentos da minha vida académica. Tive ajuda de pessoas que me eram completamente desconhecidas mas também de amigas e colegas da minha mãe. Nada ajudou; é uma tarefa impossível ensinar quem não quer aprender. Mas a minha mãe não desistiu.
Mas tudo mudou quando comecei a ter explicações com a minha prima Cláudia. Claro que, nos primeiros tempos, compareci às sessões completamente contrariado. Tanto que, certa vez, abandonei a minha mochila com cadernos no metro da Alameda para poder ter uma desculpa de não ter feito uns exercícios. Mas, lentamente, ela foi-me conquistando. Primeiro, a atenção. Pela forma apaixonada como falava dos autores portugueses, da gramática, de como construir uma frase, as suas orações. Aos poucos, comecei a sentir interesse. Pela poesia que ela me mostrava, pela forma como analisava e dissecava os textos. Há pessoas que nascem com um dom para ensinar. A Cláudia é uma dessas pessoas.
Comecei a escrever melhor. Também comecei a ler mais. E, algures no secundário, senti um clique: de repente, escrever fazia sentido. Sabia moldar as leis e estruturas da língua portuguesa e produzia textos que achava bem conseguidos. E, para minha sorte, os meus professores concordavam.
As explicações tiveram um interregno pois, dada as minhas melhorias e novos gostos, deixaram de fazer sentido. Mas, no final do secundário, vindo de um curso profissional e ambicionando fazer o exame nacional de Português para ingressar no ensino superior, tive meses com a minha prima a preparar-me. Muita da matéria dada no ensino profissional é manifestamente insuficiente para se fazer um exame nacional. Por isso, revimos a matéria toda. Cesário, Pessoa, Camões, Virgílio, Saramago. Foram dos melhores meses de aprendizagem da minha vida onde pude consolidar os meus conhecimento e ficar, para sempre, com uma paixão assolapada pela nossa literatura.
Existem pessoas que nos marcam. A Cláudia e os seus filhos tiveram uma importância enorme na minha formação. Foram muitas as férias compartilhadas, jogos e brincadeiras, ensinamentos e, acima de tudo, muito amor e carinho. Porque sempre me senti em casa, na sua casa. Sempre me senti em família com os meus primos, mesmo que só sejamos primos por nome e que pouco, ou nenhum, perfil genético seja partilhado. É o tipo de família que mais prezo: aquele que se constrói e não se sustenta em laços de sangue. Há um conforto que nos soa natural quando estamos juntos. Mesmo que tenha passado demasiado tempo.
Se hoje em dia escrevo, é graças à minha prima. Este texto é o testemunho vivo da sua influência em mim. Fez-me escrever melhor, pensar no que se escreve e perceber que a escrita é - para mim - a melhor forma de organizar os pensamentos. Escrever ajuda a compreender-me melhor, todos os dias. E, neste caminho, talvez um dia publique um livro. E quando segurar a sua lombada e respirar o doce aroma de um livro que saiu recentemente da tipografia, me descubra escritor. Vou dando pequenos passos, a ver se lá chego entretanto.
Obrigado por me permitires sonhar, Cláudia.

