Olá,
Chegou aquela altura do ano em que, de alguma forma, estas crónicas semanais são interrompidas. No primeiro verão desta newsletter cravei a alguns amigos que me viessem substituir. Foram impecáveis e, na minha ausência, deixaram aqui as suas palavras, de forma altruísta, para que não ficasse só a carregar o fardo. No ano passado assumi que, simplesmente, ia ausentar-me um mês. Tinha acabado de criar a minha casa digital, fiz o meu logótipo atabalhoado com a ajuda do Canva e senti-me no direito de pausar, sem substituições. Este ano vou parar, novamente, um mês. Não chamei ninguém para me substituir. Quis, de facto, que estas crónicas tivessem uma pausa. Porque preciso, porque está a ser um ano duro, porque sinto que preciso de espaço e de ócio para regressar com uma escrita mais fresca e descansada. Vou de férias e, depois, permitir-me-ei ficar fora da rede o resto do mês.
Mas tive vontade de cravar umas quantas alminhas que viessem para aqui escrever. Porque gosto da sensação da publicação ininterrupta, de olhar para trás de ver mais de cento e cinquenta crónicas escritas e publicadas com a cadência semanal do costume. Tenho um enorme orgulho do que conquistei neste espaço: é um sonho realizado. Ter o hábito de escrever, quase diariamente, e publicar. E ver o retorno dos camaradas da plataforma que me vão dando os bitaites e incentivos que me fazem sentir parte de algo maior. Que transforma a escrita e a leitura em algo com sentido. Escrevo para ser lido, principalmente por quem gosto e admiro. Por tudo isto, ser-me-ia fácil encontrar três ou quatro pessoas que tenho vindo a conhecer nesta plataforma, com quem já bebi cafés ou fui almoçar, e pedir-lhes que ocupassem o vazio que se avizinha nesta balbúrdia. Não teria vergonha em cravar esse favor: há um à vontade genuíno nesta comunidade de escritores e aficionados do mundo literário. E são generosos, na entrega do seu tempo e atenção. A grande culpada é a Raquel Dias da Silva, que nos juntou no Marginália, um clube de leitura, numa comunidade dentro da comunidade. Apesar de não andar por lá com o mesmo afinco do arranque do ano, sinto-me sempre em casa quando lá escrevo qualquer coisa ou tento acompanhar os murais de texto de centenas de mensagens por ler.
Na verdade, não preciso convidar ninguém a escrever n’A Balbúrdia. Esta amálgama de pensamentos que culminam em escritos já é, por definição, uma escrita contaminada pelos putativos convidados. Não faz sentido convidar a Raquel para ocupar a ausência que criarei. Ela ocupa o seu próprio espaço – e que espaço interessante é. Podem ler sobre os livros que se estão a ler no Marginália ou o seu Fecho de Edição que é uma das minhas fontes preferidas de recomendações culturais e, pasmem-se, gastronómicas. Também pensei em pedinchar ao Pagomes que trouxesse um bocado da sua mente interessante e polivalente. Mas, lá está, não faz sentido. Porque podem ler sobre os seus processos de escrita ou os cinco cêntimos que decidiu partilhar sobre a Serena Joy da Arrentela. Infelizmente, ele não é um crítico de restaurantes, mas devia ser: para além de um escritor interessante, apresentou-me às melhores amêijoas e bacalhau assado que já comi em Lisboa. Mais há mais, caros leitores. Na ressaca da minha ausência em Agosto podem ler a maravilhosa carolina novo, com a sua escrita incisiva e gutural, não fosse a autora uma das vencedoras da bolsa literária da penguin. Ou a Rita Dantas, que publica menos do que devia porque é sempre um deleite lê-la, seja nas suas Boas Intenções, ou no Público. Este parágrafo é injusto, porque há um manancial de pessoas interessantes que eu sigo e leio e que tornariam este texto demasiado longo. O Davide Pinheiro com a sua Mesa de Mistura, por exemplo, que me deram a conhecer músicas ou o ambiente à volta delas. Ou o João Lameira que - diga-se de passagem, pun intended - é sempre uma visão única sobre a sétima arte. As ruminações, sempre interessantes, da marta gouveia no Maybe Not. O humor, cáustico, da Sónia. A arte da Marta Nunes que tenho numa parede na sala de jantar e a transversalidade criativa da Carolayne Ramos, sempre acutilante na forma de ver e expor o mundo. A Maria Duran, que escreveu um dos melhores livros de poesia que li nos últimos tempos: ainda não lhe disse, mas hei-de dizer. Faltam aqui, seguramente, demasiadas pessoas. O parágrafo teria que ter um fim, eventualmente, com toda a injustiça que isso acarreta. Mas quem aqui não foi referido, não é uma questão de vos preterir em detrimento de outros. São referências para que, caso estejam perdidos e a morrer de saudades minhas, possam ir lendo e satisfazendo o vosso desejo de requinte. Eu vou descansar da escrita, muito provavelmente lendo na cama de rede. Espero encontrar um par de árvores com a proximidade ideal para me poder deixar ser balançado pelo acaso. Senão, também está tudo bem.
Até Setembro,
João
Estas crónicas serão sempre gratuitas. Se gostas de acompanhar o que escrevo e gostavas de me apoiar, podes:
Mandar-me uns trocos para o PayPal
Ajudar-me a vender livros e coisas cá de casa
Fazer uma contribuição única ou recorrente para um café


Good sir, thou hast bestowed upon me an honour most noble, naming this humble mind both curious and many-sided, and commending my newsletter unto thine own worthy readers. For such generous words, I remain deeply beholden. May thy kindness return to thee threefold, and may our quills continue to stir thought, laughter, and perhaps a little wholesome trouble in this strange theatre of the world.
Ruminações, sempre! Obrigada João, aproveita o descanso 🌞