Puerpério mais que perfeito: o lugar do pai não é na primeira fila.
Esta semana marca o arranque de uma série de crónicas escritas por pessoas que admiro e partilham comigo o gosto pela escrita. Vêm escrever, como eu, sobre paternidade, a vida e afins. Desta forma, permitem-me não ter que escrever crónicas para publicação ao longo de Agosto e entrarei de férias mais descansado. Estou muito grato a todos e todas que participaram e aceitaram, sem hesitação alguma, o meu convite. Espero que gostem de os ler tanto como eu.
Já conheço a Catarina há alguns anos. Fiquei sempre impressionado com o ímpeto criativo e garra que incute nos seus projetos artísticos e literários. É blogger desde os tempos em que ter um blog era a cena, companheira do Substack, criativa por natureza, autora das cartas para journaling Blume, empreendedora, copywriter e um canivete suíço artístico-literário, no melhor sentido possível deste conceito acabadinho de inventar. É uma imensa honra tê-la aqui no meu cantinho para vos escrever e, confesso, fiquei muito orgulhoso em ter visto o meu convite aceite por alguém que admiro tanto criativamente.
Começo já este texto com um spoiler: o puerpério (mais que) perfeito não existe. No que diz respeito ao período pós-parto, uma das fases mais frágeis e marcantes da vida de uma mulher, vão sempre haver coisas que preferíamos ter feito ou vivido de forma diferente, mas seja como for duas coisas são inegáveis: que todas fazemos aquilo que nos parece ser a coisa certa no momento e que o papel do pai tem uma importância gigante à qual nem sempre se dá o palco que merece.
No meu caso, esperei muito tempo (aos olhos da sociedade e das ideias estereotipadas daquilo que deve ser a timeline da vida de uma mulher) para decidir ser mãe. Sim, porque mais do que decidir ter um filho, decidi ser mãe; de verbo mesmo, não só de substantivo, por mais bonito que ele seja. Nesta minha decisão pesou muito a escolha do parceiro. Ter filhos nunca foi propriamente um sonho meu e desejei muito estar com alguém que me quisesse independentemente de um dia querer vir a ser mãe ou não, ou seja, alguém que me quisesse para a vida, tivéssemos ou não filhos.
Não sou um útero andante, não sou um potencial materno, uma fábrica de bebés. Sou uma mulher com inúmeros sonhos, ambições e complexidades. Faço muita coisa por impulso, por entusiasmo, mas sempre soube que não iria tomar a decisão mais importante da minha vida desta forma. Tinha que me sentir preparada, mental, sentimental e financeiramente e isso só aconteceu no início de 2023 quando me apercebi que já tinha todas essas condições reunidas sem que tivesse feito de propósito. Um dia, o meu então noivo iniciou comigo a conversa dos filhos, de uma forma mais profunda do que aquelas que tivéramos antes. Sem pressões nem prazos. Decidi parar de tomar a pílula no final desse mês e engravidei quatro meses depois, sem tentar, sem olhar a calendários de fertilidade, sem intenção. Ambos tínhamos feito um acordo: deixaríamos que o Universo decidisse por nós; se acontecesse, maravilhoso, se não…. continuaríamos a viver felizes!
Ter filhos não era o nosso sonho e, agora que temos um, parece que estamos a viver um, daqueles deliciosos dos quais nunca queremos acordar. Se é perfeito? Não. Se é fácil? Também não, mas não é assim tão difícil como imaginava. Em parte, porque afinal tenho instinto materno e já me sinto muito mãe, em parte porque tenho um parceiro que, além de pai presente e participativo (como, aliás, todos devem ser, ao invés de meros ajudantes), é meu namorado. Somos legalmente casados, sim, mas é na versão namorado em que me quero focar. Não posso falar por todas as mulheres, mas aquilo de que precisava - e preciso - no meu puerpério é de ajuda para me sentir mulher, menina, eu. Precisava de me sentir eu e precisava da pessoa que se calhar melhor me conhece para me relembrar de quem eu sou quando, perdida nos baby blues e na tormenta daquela montanha-russa de hormonas e emoções, me desejasse, me falasse e olhasse como se nada tivesse mudado quando eu me sentia virada do avesso.
A pior coisa que fiz no meu pós-parto foi ler sobre a experiência de pós-parto de alguém que não conheço e que escreveu um livro sobre isso. Parecia-me escrito com humor e sarcasmo, ambas coisas que aprecio, especialmente num livro de não-ficção. Porém, deparei-me com relatos assombrosos como:
“Ainda que a decisão de eu ter engravidado tenha sido sempre muito consciente e tenha sido feita a dois, eu estava sozinha neste barco de borracha remendado [...]”
“Tentava, mas nunca conseguiu cuidar dela de noite, nunca o vi levantar-se prontamente assim que ela chorasse, nunca se levantou por mim num ato de empatia. Eu, com o tempo, acabei por desistir de tentar mudar as coisas. Aprendi a resolver e a fazer eu, em tudo.”
[...] Quando desabafei essa falta de apoio com uma amiga muito próxima, ela disse-me: “Olha que isso é mesmo assim, habitua-te.”
Medo.
Obcequei secretamente com essa possibilidade durante algum tempo, mas nunca se concretizou desta forma dramática. Por mais que faça parte da minha personalidade resistir em delegar, foi - curiosamente - no puerpério que mais o fiz. Aceitei toda a ajuda que pude e pedi quando precisei. E ele esteve sempre lá. Nem sempre sabia o que fazer, afinal, eu li muito mesmo antes do nosso bebé chegar, mas nunca senti que não tivesse vontade de aprender. Nunca me senti sozinha neste barco. Nunca estive sozinha nisto. O nosso amor pelo nosso filho e um pelo outro sempre falou mais alto e, no fundo, é o que tem que persistir ao invés de toda a teoria que os “peritos” nos tentam impingir.
Aqui vai outra das minhas verdades mais recentes: o puerpério não é só sobre o bebé. Nem sequer é só sobre a mãe e sobre o bebé. É sobre uma mãe, um pai, um bebé, uma mulher e um homem. É sobre conjugar quem fomos, quem somos e quem nos estamos a tornar e aprender a encaixar as peças num novo e elaborado puzzle.
Além de desempenhar o papel de pai que, aqui entre nós, é tão obrigatório como nós, mulheres, desempenharmos o nosso papel de mãe e cuidadores de um novo ser, ele abraçou também e plenamente o de marido. Foi ele que me fez sentir muito eu quando facilmente me poderia ter perdido e quando, na minha cabeça, me deixava para último plano. Foi ele que me incentivou a sair, me deu presentes sentidos, me fez rir e aprendeu que precisava de chorar de vez em quando. Soube que escolhi bem. Demorei, mas acertei.
O meu puerpério não foi perfeito, mas foi incrível e absolutamente inesquecível. Escrevo este texto precisamente no dia em que regresso oficialmente ao trabalho e me vejo forçada a fazer um furinho nesta bolha em que vivi durante quase cinco meses. Continuamos a trabalhar em casa, o nosso bebé, para já, também continuará por cá connosco e as dinâmicas vão mudar, mas o que mais importa continuará: a nossa compatibilidade, cumplicidade e identidade enquanto casal e enquanto nova família.
Não li nenhum livro que abordasse este assunto, mas se puder oferecer um conselho a futuros ou recentes pais é isto: não deixem que a Maternidade mude a forma como vêem as vossas mulheres enquanto mulheres. Elas não são - agora - apenas mães: continuam a ser seres sensuais, fascinantes e repletos de sonhos. Relembrem-lhes disso, não só por palavras, mas especialmente por ações. Um passeio aqui, um jantar a dois ali (se possível), um presente que seja só para ela (todos sabemos que quem recebe presentes no puerpério é o bebé). Pequenas coisas que arrancam sorrisos fáceis e que aquecem o coração.
Se namoraram muito durante a gravidez, porquê parar agora? E atenção, que namorar envolve também (e muito) conversas boas, troca de ideias, de risos cúmplices de planos futuros. E agora, ainda por cima, a três (ou a mais, se tiverem outros filhos). Permitam-se envolver na bolha de amor de um puerpério onde a vossa existência pode ser absolutamente fulcral. É certo que, por mais que queiram, não vão saber exatamente o que sente uma mãe e porque é que este novo papel e as hormonas que se seguem a um parto têm um efeito tão avassalador em nós, mas podem ouvir-nos, dar-nos a mão e, acima de tudo, colo. Não é irónico que a altura em que uma mulher mais precisa de colo é precisamente quando o seu corpo se torna o lugar cativo de outro ser? Talvez, mas é muito isso.
Por favor, não se deixem vencer por ideias pré-concebidas de paternidade, muito menos de masculinidade. Rejeitem o lugar na primeira fila que a sociedade insiste em reservar para vocês. O vosso lugar é no palco. O palco da parentalidade foi feito para ser partilhado. Este concerto não deveria ter solos, só duetos. Participem em tudo, experienciam ao máximo a coisa mais preciosa desta vida. A única coisa que não podem fazer pelas vossas mulheres e bebés é amamentar, de resto, serão muito necessários (e desejados) como pais e companheiros. Nunca duvidem disso.
Catarina Alves de Sousa



