2044
Esta semana marca o arranque de uma série de crónicas escritas por pessoas que admiro e partilham comigo o gosto pela escrita. Vêm escrever, como eu, sobre paternidade, a vida e afins. Desta forma, permitem-me não ter que escrever crónicas para publicação ao longo de Agosto e entrarei de férias mais descansado. Estou muito grato a todos e todas que participaram e aceitaram, sem hesitação alguma, o meu convite. Espero que gostem de os ler tanto como eu.
Conheci o Ivan Clife no grupo de paternidade que ambos frequentamos. Já partilhamos conversas, desabafos, emoções, dificuldades. Já rimos, partimos pão, estivemos com as nossas crias em jardins a brincar. Ele é rapper - conhecido por C57- e gosto bastante das suas rimas que me voltaram a lembrar o que era poesia com uma batida com alma lusitana. Temos em comum a preocupação com uma paternidade melhor e queremos fugir a padrões pouco saudáveis. Fico-lhe muito grato pelo seu texto, escrito com o coração.
De repente é 2044 e eu tenho 55 anos.
Isto porque são três da manhã de Quarta para Quinta, porque eu passei as últimas duas horas a saltitar na bola de Pilates com a minha filha mais velha e porque fechei os olhos por um momento. Agora o momento tornou-se um somatório de dias que formaram meses, que por sua vez se organizaram em duas dezenas de anos sem qualquer tipo de aviso. Não sei como nem porquê, mas assim é o tempo. De repente é 2044 e eu não sei se amanhã trabalho. Não me olho ao espelho para ver como me trataram estes últimos vinte anos, nem sequer olho pela janela para confirmar se finalmente temos carros voadores. Não vou à sala, não sei se os sofás resistiram nem sei se o meu computador é quântico agora, na verdade, nem quero saber. Tão pouco me importa como estou na minha carreira, se fui promovido e quantas vezes, não quero saber da inflação nem se, entretanto, fiz um hit de milhões e elevei a minha carreira musical a star level. Talvez seja do cansaço, mas não me interessa.
Para mim a razão da minha indiferença perante esses pormenores é clara, estou numa divisão com as minhas filhas, a mais velha tem 21 anos e a mais nova tem 20. Estão crescidas e tarefadas. Tão atarefadas que não me dirigem a palavra, parece que ali estive 20 anos, sinto-me parte da mobília. Observo-as enquanto recordo o nosso passado, que para mim é tão vívido, por razões óbvias. A minha curiosidade passa a uma estranha tristeza quando, de repente, penso em tudo o que eu dava para voltar atrás. Sinto que gastaria todo o dinheiro da minha conta para pegar novamente nelas ao colo num embalo, para parar cinco minutos com elas e vê-las dar os primeiros passos novamente. Para regressar àqueles pequenos momentos que foram isso mesmo, pequenos momentos. Humildes fatias no dia de um pai atarefado com o trabalho e as tarefas domésticas, ocupações menores quando comparadas à imensidão que é estar presente para, e com, elas. Aqueles minutos de um pai frustrado com as noites mal dormidas, munido de olheiras e café a enfrentar a manhã como se cada 24 horas fossem um remake pessoal da batalha de Aljubarrota, esse limbo de paternidade que não dá descanso. Com o desejo daqueles checkpoints de começarem a gatinhar, a andar, a falar, a dormirem melhor e sozinhas. Uma pressa que eu tentava justificar com um “vai ser tão fixe quando...” e um “mal posso esperar para...” quando, o mais provável, era uma pressa egoísta para eu voltar ao meu estado normal, quando não precisassem de mim. Mas, de repente é 2044 e falta-me o vocabulário para expressar o quanto gostaria que precisassem de mim novamente. Quero só 5 minutos, tão mais do que queria só 5 minutos para me levantar. Quero que precisem urgentemente dessa criatura que eu era, com dores nas costas por causa daquela maldita bola de Pilates e dores no pescoço por dormir no chão ao lado delas. Lembro-me desse precisar constante, esse prazer que usava, com uma particular destreza, uma feia máscara de sacrifício que, para grande vergonha minha, me enganou durante demasiado tempo. Revisito tudo isso naquele momento, de nó na garganta e aquelas lágrimas que aparecem com calma quando o corpo não sabe se deve chorar ou sorrir.
Que bênção essas noites de merda em que podia acolher esses suspiros noturnos como uma espécie de super-herói exausto. Que privilégio poder ser esse porto seguro num mundo estranho que nem eu entendia bem - como poderia eu esperar que elas o fizessem? Que honra ver essas horas de expediente em casa interrompidas por pequenas mãozinhas que me procuravam as pernas por entre as da cadeira de estirador, às vezes empunhando um qualquer objeto aleatório para me oferecer, outras apenas para me pedir boleia até ao teclado e dele fazer um instrumento musical de percussão onde se tocavam várias odes ao caos. Esse belo caos constante que eu tentava organizar com moderado sucesso. Esse caos que se dizia ser o furto da serenidade e da liberdade. Mas, em retrospetiva, sei que as minhas filhas nunca me roubaram nada, nem hobbies, nem vida de casal, nem serenidade ou liberdade. O que aconteceu é que elas fizeram de mim mais sereno e livre, mais humano e feliz. Gostava de saber isso há 20 anos atrás, hoje, porque o tempo voa. De repente será 2044 e eu terei 55 anos.
Ivan Clife

