Velhotes
Olá,
Ultimamente, tenho-me cruzado com fotografias antigas. Vou desfazendo a casa dos meus pais com mais de 40 anos de existência e encontrando pequenos tesouros. Muitos apertam-me o coração, depois a garganta e quase sempre acabo a chorar, num misto de saudosismo com uma profunda sensação de vazio. Nas fotografias, vejo-me em bebé, rodeado de pessoas mais velhas do que eu hoje em dia. A minha mãe e o meu pai tiveram-me com 43 e 42 anos, respetivamente. Cheguei tarde e, prova disso, é que nas múltiplas imagens estou rodeado dos meus velhotes, pessoas que sempre foram consideravelmente mais velhas que eu.
Cresci, portanto, mais como neto de muitos avôs e avós do que outra coisa. Acresce a diferença de idades que tenho com as minhas irmãs: vinte anos. Não era só o mano caçula; fui educado como filho único, na prática. Lembro-me da sensação de que a minha energia em criança estava a léguas de distância das pessoas que me viam crescer. E eu sentia-me estruturalmente diferente, sem perceber bem o porquê. Não associei a provecta idade dos meus pais e do núcleo de familiares e amigos a esse fosso geracional. Habituei-me a pequenos desconfortos: nos eventos da família, não tinha ninguém da minha idade para brincar. O meu entusiasmo infantil esbarrava com a impaciência dos velhotes que me rodeavam. Na prática, fui educado por pessoas cuja educação veio dos anos 40 e 50, que viveram a mudança do regime, que fizeram a guerra colonial, que foram ativos na militância política, que foram retornados das antigas colónias e viveram a inundação de liberdade que veio com a queda da ditadura. Estava rodeado de conversas políticas, de utopias e formas de pensar que estimularam, de tantas maneiras, a criança que fui e me tornaram no homem que sou hoje.
Há um privilégio particular quando se cresce desta maneira. Não se trata só de colher os frutos do trabalho das minhas irmãs nas conquistas de saídas com amigos, se bem que deram imenso jeito. Mas fui exposto àquilo que na altura era uma evidência, um dado adquirido: a cultura, nas suas múltiplas formas, como fundação da personalidade. As conversas eram densas e impercetíveis. Sentia-me incapaz de acompanhar aqueles adultos; à medida que fui crescendo, ia percebendo um pouco mais. Claro que me irritavam os chavões de a conversa não ser para a minha idade, ou que quando fosse mais velho iria perceber. Mas, de facto, muitas das conversas não eram para a minha idade: não que o conteúdo fosse de alguma forma traumático para mim, mas porque era precisa uma certa bagagem intelectual para acompanhar o pelotão dos velhotes. E, confirmo, à medida que fui crescendo fui percebendo. A maturidade – e a minha tardou – foi consolidando as ferramentas que precisava para compreender o que ali se tratava. Tenho um vocabulário rico em expressões pouco usuais que adquiri com a minha família. É inegável que crescer numa casa de livros me tornou no leitor e aspirante a escritor que sou. Também sofri com a arrogância geracional e a constante desvalorização do meu pensamento: sempre aquém, sempre longe. Mas, traumas à parte, só posso estar grato pelo que tive e, se pudesse escolher, quereria tudo da mesma maneira.
Tinha, então, muitos velhotes de quem gostava e que gostavam muito de mim. Sem a Cláudia não existiriam estas crónicas – nem as receitas do Balchão e do Patol Bhaji. A Dulce que sempre me aturou mais do que era preciso, com uma paciência de santa. A Tia Gógó que parecia nunca ter saído de África e continuava a levar a vida leve-leve, mesmo enquanto perdia gradualmente a visão. A Tia Graziela, a sua liberdade e vivência de mulher livre e desempoeirada, cujo uso do vernáculo e naturalidade com a sexualidade chocavam os outros velhotes e me faziam rir, tanto quando ficar desconfortável. Aprendi com ela que as mulheres são livres quando decidem usar essa liberdade, não obstante as correntes do patriarcado e as consequências. Aprendi a inconveniência disfarçada de humor com o meu Tio Zé, os preceitos da boa educação com a Tia Lela. A Né, a minha Tia Predileta, que sempre me ensinou que a vida é suposto ser divertida e que devemos, pelo menos, tentar sugar-lhe o tutano com um sorriso nos lábios e uma gargalhada fácil. Podia continuar a largar aqui nomes destes velhadas, no sentido mais carinhoso possível, que se atravessaram na minha vida. Cresci com uma perspectiva tão diferente dos meus colegas, com mães mais novas e outras mundividências. Vivi, penso, ainda com uma perspectiva analógica do mundo. Menos apressada. Da relevância – e reverência – do papel impresso, do cultivo intelectual, da conversa com fundura e fundamento e da pausa para pensar antes de falar. Sinto que sei o que estas coisas são pelos exemplos que testemunhei e que, de outra forma, não teria acesso não fossem estas condicionantes. Fui moldado por eles. Não seria quem sou se não fosse a súmula de experiências que vivi com eles. Devo-lhes, portanto, muito.
Infelizmente – é o problema de uma diferença de idades acentuada – fui perdendo estas pessoas demasiado cedo na minha vida. Releio o parágrafo anterior e apercebo-me de que já só tenho na vida uma dessas velhotas. Eles sobrevivem numa outra dimensão: na forma como escrevo, nas expressões que utilizo, nos meus hábitos e trejeitos. Na memória, acima de tudo, que não raras vezes me aperta o coração com saudade. Na inveja de, possivelmente, não ter a fé suficiente que me faça crer que os vou voltar a ver outra vez. Gostava tanto que isso acontecesse. Voltar a conversar, cheirar e abraçar essas pessoas. Faz-me muito sentido a definição do Andrew Garfield sobre luto: é amor que ficou por expressar. É precisamente isto que sinto que são as minhas saudades, os vazios, as ausências. Amor que ficou por expressar. Talvez seja essa a angústia que nasce do que ficou por dizer, por fazer, por tocar.
Abraço-vos,
João
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Sumarento este texto. As vivências que se entranharam e alimentam. Tanta falta que fazem esses grandes que nos guiaram. Parabéns