Tempos de Ecrã
“Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo.”, Paulo Freire
Olá!
Na semana passada foi transmitida pela SIC a Grande Reportagem Agarrados ao Ecrã. Um trabalho importante de serviço público que informa as pessoas dos perigos que podem advir da sobre-exposição a ecrãs e respetivos conteúdos. Aborda as implicações no desenvolvimento das crianças e da importância da supervisão dos conteúdos por parte dos encarregados de educação.
É um tema com uma complexidade que faz uma intersecção com várias áreas: pedagogia, economia, marketing, psicologia, neurologia, motricidade, alimentação, circuitos dopaminérgicos. Haverão seguramente mais áreas. Não sou especialista em nenhuma destas temáticas, não pretendo parecer um entendido na matéria, mas sou um utilizador destes dispositivos e sou um Pai: será nesta perspetiva que vou partilhar convosco o que sinto sobre o assunto. Não pretendo julgar nem criticar mas acho importante fazer questões e reflexões, como sempre.
Acabei de ver a reportagem e fiquei uns momentos em silêncio com uma sensação de desconforto. Julguei alguma da parentalidade que ali foi evidenciada: utilização abusiva dos vários dispositivos, substituição da atenção prestada pelos pais/cuidadores pelo consumo de conteúdos em ecrãs (televisão, consolas, tablets, telemóveis) e a interação desregulada e não supervisionada desde idades precoces. Também tenho em conta que a infoexclusão é bem real e que temos super computadores nas palmas das mãos que nem todos sabem operar em segurança, quanto mais supervisionar a sua utilização por crianças. Não é desculpa, nem justificação: é um contexto importante de ser pesado quando pensamos nestas temáticas.
Não podemos ignorar que os adultos são as primeiras vítimas do sequestro dopaminérgico que os dispositivos e respetivos conteúdos enfatizam - principalmente as redes sociais. Na ótica do desenvolvimento informático, há uma preocupação em conseguir o máximo da atenção possível. A atenção é o ouro digital nas redes sociais. Elas minam o nosso foco e tempo para nos extraírem dados, padrões, rotinas e hábitos que transformam em pacotes de informação vendáveis às indústrias de marketing e publicidade. Utilizamos o serviço das várias redes sociais e, como num pacto Faustiano, somos transmutados em produto. Gostemos ou não, é uma nova mercantilização da humanidade. É do superior interesse de cada uma das plataformas das redes sociais cativar a nossa atenção, o maior tempo possível. E, por defeito, isto é conseguido no desenvolvimento dos botões e interface gráfica, nas escolhas cromáticas, nos vídeos que começam automaticamente, nas dinâmicas dos “gostos”. Tudo é pensado para nos cativar e prender. Numa primeira fase, durante a utilização: o scroll infinito é o perfeito exemplo, entre muitos outros. Depois, quando não estamos a utilizar, recebemos as notificações: sons, vibrações e gráficos no ecrã de um dispositivo que estimula um pico de dopamina para ficarmos expectantes e curiosos com o que poderá ter acontecido. Medo de perder algo, de não acompanhar. E lá vamos nós ver o que originou a notificação. Isto funciona na perfeição com adultos, com seus córtices pré-frontais desenvolvidos. Nas crianças, só poderá ter uma influência muito mais avassaladora, marcante e, arrisco dizer, disruptiva. São cérebros ainda em desenvolvimento e não sabemos as consequências a longo prazo. Não é coincidência que a esmagadora maioria dos programadores que desenvolvem estas tecnologias e as suas especificidades são muito restritivos quanto ao uso delas pelos seus filhos. Em casa de ferreiro, não há espeto, que os miúdos ainda se magoam.
Não quero parecer o velho do Restelo no que às tecnologias diz respeito. Sei que elas fazem parte da construção social atual e farão ainda mais no futuro. O uso das plataformas digitais é cada vez mais uma forma de literacia social e creio que - eventualmente - quem não souber utilizar dispositivos computorizados será excluído de franjas da sociedade. Há uma enorme utilidade em termos sistemas informatizados que tornam a vida das pessoas menos burocrática. Há, também, uma democratização no acesso à informação (pese a importância de sabermos discernir fontes criveis e filtrar o que poderá ser conteúdo inverosímil). Mas este acesso fácil a uma rede global de informação precisa de regulamentação (segurança, proteção de privacidade) e, no que às crianças diz respeito, supervisão.
Educamos através do exemplo sociofamiliar. Regras de segurança para viver em cidades e nas casas. O cuidado com o trânsito e respeito pelos sinais. Supervisionamos com quem os nossos filhos interagem fisicamente. Filtramos conteúdos televisivos - que já são regulados em horários ajustados a faixas etárias. Precisamos supervisionar o uso de dispositivos eletrónicos e plataformas digitais do mesmo modo e não podemos utilizar a nossa ignorância como desculpa para nos imiscuir desta tarefa. Se oferecemos tecnologia a menores temos também a responsabilidade de perceber o seu funcionamento, como operar em segurança e quais as regras e leis da sua utilização. Na reportagem, uma mãe fala do impacto numa menina de 12 anos da exposição através do Whatsapp a redes de pornografia infantil e como foi ludibriada a enviar fotografias íntimas suas. Quando expôs o caso às autoridades, para além de se iniciar uma investigação, foi prontamente responsabilizada: as crianças só podem criar conta nas redes sociais aos 13 anos e a utilização do Whatsapp só é permitida a partir dos 16. A mãe assumiu desde o início que não percebe as tecnologias, que não tinha a mínima noção que pudessem existir estes perigos. Isto evidencia tanto a infoexclusão (que também é limitadora no acesso à informação sobre o uso das redes sociais) como a desresponsabilização. É preciso educar para estes perigos atrozes. Onde estão as escolas? Onde estão as sessões de esclarecimento aos pais sobre o uso e regulamentação da utilização de plataformas e dispositivos digitais/sociais? Onde estão campanhas nacionais de grande alcance com formações nestas áreas?
Tenho muita empatia por estes pais que só percebem a gravidade da situação quando os seus filhos passam por situações angustiantes. Parto do princípio que todos querem o melhor para a sua prole e que foi, de facto, ignorância que colocou toda a família nesta situação. Nem todas as pessoas têm acesso a formação informática e digital. Continua a ser um privilégio para as famílias com a sorte na lotaria genética e social de terem tido contacto com tecnologias desde cedo e terem sido acompanhadas de forma responsável. É a pescadinha de rabo na boca que perpétua os ciclos de pobreza educacional - e não só. Existe, também, um fosso geracional: as pessoas mais velhas desresponsabilizam-se por total desconhecimento da tecnologia. A simples operação básica e manuseamento de um computador ou smartphone torna-os burros a olhar para um palácio. Não têm ferramentas para compreender e discernir a utilização em redes sociais, aplicações de mensagens, aplicações, etc. Nestas insuficiências, abre-se o espaço para as ilegalidades, as burlas e coerções.
Como sempre, o primeiro passo é educar. Mas é preciso também criar a necessidade de informação nas pessoas. Porque não se ensina ninguém que não quer aprender. Pior, não aprende quem não se apercebe que precisa. Não sei que prioridades, recursos e financiamentos são necessários para pôr algo do género em prática. Sei apenas que é algo necessário e resta-me aguardar que os responsáveis políticos intervenham. Pois.
Descrever como gerimos estas questões lá em casa parece-me pedante. Temos a nossa abordagem, opinião e limites no tempo de ecrã. Fazemos debates contínuos em casal para tomar o pulso às nossas perceções de como os filhos estão a lidar com a exposição ao ecrã. E com base naquilo que assimilamos ajustamos o que for preciso. É uma aprendizagem contínua e dinâmica. Mas envolve pesquisa, atenção, consciência, formação e informação. Temos o privilégio de ambos termos sido munidos de ferramentas que nos permitem ter sentido crítico e analítico para pensar nesta situação e agir em conformidade com o que sentimos ser o melhor. Falo por mim: evito utilizar o smartphone ao pé dos filhos. Às vezes prevarico e sou sequestrado por um vídeo, um reel, ou um pouco de scroll inconsciente. Tento que isto aconteça o mínimo possível mas há inúmeros fatores que determinam a frequência: o meu estado de espírito, saúde, paciência, força anímica. Utilizo as restrições próprias destes dispositivos para me ajudar: limito tempo de aplicações, escolho só ter acesso a uma rede social, desligo a maioria das notificações. Estas foram algumas lições que aprendi com o documentário The Social Dilemma da Netflix (acesso pago). Recomendo muito verem este documentário para terem noção de que há uma intenção nas redes sociais: elas capitalizam o máximo com a nossa inconsciência e falta de noção. Questionem o uso dos dispositivos e tempo que gastam em determinadas aplicações. Consultem os vossos tempos de ecrã para perceberem como está a ser feita a vossa gestão de tempo. Para que possam conversar em família sobre o que será melhor para todos. Que efeitos veem nos filhos, conjugues, companheiros e companheiras com a exposição prolongada. Façam uma curadoria dos conteúdos que melhor se alinham com os vossos valores e gostos. Para que possam alinhar os valores e necessidades de cada um com a realidade. Tempo e atenção são o bem mais precioso que temos para investir: moldam quem somos e moldam quem nos vê como exemplo. Somos aquilo a que damos atenção. Tenhamos consciência disso.
Até para a semana!
João
P.S. Deixo-vos aqui uma recomendação de música. D’un crépuscule, l’autre do Abderraouf Ouertani que descobri através da newsletter do Tim Ferriss.


"Tal como os fabricantes de flechas treinam a sua arte, também o sábio treina a sua mente" - Buddha, Dhammapada 33.
Dizes bem que a atenção é o nosso recurso mais valioso. Saber prestar atenção faz a diferença entre libertarmo-nos e despertarmos, e ficarmos presos em ciclos de sofrimento.