Reflexões sobre luto.
Olá,
O meu pai morreu no dia dezanove de Fevereiro. Tenho escrito muito no meu diário sobre isto – quis guardar detalhes que, aquando da minha mãe, perdi por completo. Mas esta crónica é a segunda tentativa de escrever sobre esta perda publicamente. A primeira versão, um outro documento, é demasiado crua, pessoal e transparente. Quis escrever outra versão não pela vergonha ou pelo receio da exposição emocional, mas porque há coisas na morte de um pai que pertencem a uma intimidade que é só nossa. Sim, foi objeto literário – a catarse de escrever em agonia sobre uma perda inesperada – mas ficará guardado no meu acervo.
É a segunda vez que perco um progenitor: a minha mãe foi há dezanove anos. Sou orfão, portanto. Todavia, a idade e a experiência da perda permitem-me uma clareza de espírito que em 2007 me era inacessível. No cemitério dos Olivais, a mãe do meu melhor amigo sugeriu-me a fazer bem o luto nesta fase inicial, que facilitaria o processo a longo prazo. Estava na saída da sala de espera do crematório e tinha visto o caixão do meu pai ser arrastado para as instalações há pouco mais de cinco minutos. Atordoado pela despedida final, pelo “adeus, mano” choroso da minha tia, estas palavras fizeram-me todo o sentido. Primeiro, porque fiz merda quando foi da minha mãe: só fiz o luto da minha mãe há pouquíssimos anos. Na altura, preferi anestesiar-me por completo a ter que lidar com a situação. O processo arrastou-se por décadas e só encontrei alguma paz de espírito em terapia. E segundo, porque me parece óbvio que fazer um luto de forma saudável tem tudo para criar uma estrutura e bagagem emocionais que me permitam lidar com a ausência e a saudade. Nesse dia, cheguei a casa e andava a matutar nesta frase. Concordava, mas sentia-me perdido: como se faz um bom luto? Cansado e frustrado, resolvi pedir ao meu amigo que perguntasse à mãe o que entendia por fazer um bom luto. No seguinte, pude ler a resposta:
“É apenas o que a minha experiência me ensinou: conseguir reter no pensamento, no coração, a aura dos momentos mais belos que se viveram com a pessoa com muita serenidade – ir buscar as aguarelas “impressionistas” da relação que se teve. Esse apaziguamento proporciona uma saudade mansa e doce – para mim, a melhor maneira de iniciar um luto.”
Fez acompanhar a resposta com duas pinturas impressionistas. Como grande apreciador desse movimento artístico em particular, percebi claramente a ideia que estava a tentar ser transmitida. Mas o importante foi que o conselho no parágrafo não se assume como um receituário porque termina com “para mim, a melhor maneira de iniciar um luto”. Zás! Um clique automático na minha sensibilidade porque, precisamente, um luto não é algo que se faça num movimento. Não é uma ação singular, pontual, mas um processo que se dilata por tempo indefinido, com oscilações tudo menos racionais. Mas, de facto, uma das melhores maneiras de se começar um luto é precisamente assim, num “apaziguamento” que “proporciona uma saudade mansa e doce”. E é aqui que estou, a escrever esta crónica dez dias depois, à procura dessa mansidão e doçura enquanto navego as águas intempestivas da mágoa.
Abraço-vos,
João
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Quando vi a tua publicação abri-a de imediato. Tinha acabado de escrever um texto onde pergunto como se faz um luto. O meu pai também já não está presente. Há pouco mais de 2 anos. Não te sei dizer se a saudade se apazigua e fica mais doce. Há dias em que a sinto mais do que tudo. Há dias em que sinto que não tive ainda tempo de fazer esse luto.
Um abraço João.
Os pais (mãe e pai) deveriam ser eternos. Lamento imenso, caro João. Que consigas ultrapassar esta dor da melhor forma possível.