Ócio
Olá,
Estava a precisar de parar, de rasgar a rotina e procurar abrigo noutras paisagens. As férias têm esse condão: permitem-nos a pausa necessária para que respiremos de uma outra maneira. É nessa alteração de padrão que descobrimos outros tempos e, nessa descoberta, permitimo-nos a outras coisas. É um privilégio pelo qual a minha saúde mental está imensamente grata.
O ócio abre novos horizontes. Há um outro tempo, sem pressas e sem obrigações que, inevitavelmente, nos aborrece. Nessa pasmaceira somos assaltados por ideias e pensamentos que existem latentes na nossa mente, ansiosos pela oportunidade certa para se revelarem. Interesses, apetências, curiosidades, agigantam-se perante a brecha que dantes não existia. Inundam a nossa realidade e, se disso formos capazes, deixamo-nos ir. O sabor da corrente desperta novos aromas e olhares sobre o mundo. Há uma diferença nas coisas. Até nas leituras: um livro já encetado que trazemos connosco também ganha uma dimensão maior, essa dilatação da linha temporal, que permite pensamentos mais densos e lânguidos sobre o que se lê.
A pausa permite olhar para dentro. Estruturamos a nossa vida num ramerrão que abafa a essência de quem somos e nos faz esquecer de nós próprios. Tudo é demasiado rápido e corrido e efémero. Procuramos, ávidos e sedentos, a próxima microdose de dopamina para que o nosso cérebro se sature da ilusão de bem-estar, de contentamento. Algures no processo, perdemo-nos. Parar torna-se mais do que profilaxia: é a alternativa à realidade que nos engole na maior parte dos dias. É o universo paralelo onde prolifera a liberdade da qual temos tantas saudades. Com lentes novas, vemos o detalhe e o pormenor que um compasso de espera faculta.
Trazemos connosco outros quereres e desejos. Percebemos quem queremos ser, visualizamos o que precisamos mudar e abrem-se novos caminhos que podemos trilhar. Regressamos com outro pulmão e agarramo-nos com unhas e dentes ao fôlego que nem sabíamos que tínhamos. Queremos largar a persona non grata que fomos até então e deixarmo-nos levar pela sedução da novidade que podemos ser. Mas sabemos que é sol de pouca dura: os dias voltarão a engolir-nos e empurrar os nossos sonhos para o futuro. Como a areia que nos foge entre os dedos, perdemo-nos aos poucos nesse dia-a-dia. Então, sabendo-nos grãos de areia, procuremos os sedimentos que podemos verdadeiramente ser.
Abraço-vos,
João
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