Tecer memórias
Olá,
Estivemos de férias esta última semana. Ainda brinco com o conceito e digo que não são bem férias: é ser responsável pelos meus filhos noutro sítio. Mas isto não é verdade. Quando mudamos de poiso e rotina, acontecem coisas diferentes. Enquanto família, tornamo-nos diferentes.
Tivemos muitas experiências novas. Fomos de férias com o meu pai e a minha tia, o mais novo descobriu as maravilhas da piscina interior aquecida (o trauma da água gelada virá, a seu tempo). O mais velho está um craque do mergulho e cada vez mais confortável em ambiente aquático. Ficou fã do pequeno almoço de hotel e verbalizou várias vezes o pensamento de todos: isto é que é vida. Lá tivemos que nos desdobrar em explicações do porquê de não podermos viver sempre num hotel, com muita pena nossa note-se, e pudemos introduzir a temática da responsabilidade financeira de uma forma leve.
Mas são, realmente, férias. Porque pudemos estar todos juntos com uma lista de tarefas e afazeres menor do que a do costume. Com leveza, pudemos estar e brincar e ser fora da azáfama do dia-a-dia. Sem grandes horários, nem deveres. Acho importante podermos ter estes tempos em família, principalmente numa sociedade onde a atenção é cada vez mais cobiçada. Não só em férias, propriamente ditas. Mas em aproveitar cada dia ao máximo, principalmente as folgas e fins de semana. O grosso do tempo que passamos com os nossos filhos acontece até aos 18 anos; esse tempo decresce exponencialmente a partir do parte e, na maioridade, torna-se residual, por melhor relação que tenhamos com os nossos filhos. Nestes dias apanhámos um feriado, o primeiro de Maio, e pudemos estar com amigos num jardim, a desafiar o clima, e a permitir aproveitar este tempo com memórias felizes. De comida de picnic, de brincadeira, de risos e normalização de uma comunidade.
Possivelmente, isto varia de pessoa para pessoa, de família para família. Mas para nós, estarmos em família nuclear é importante para criar memórias e momentos só os quatro. Muitas vezes acabo por querer combinar coisas com amigos ou família mais alargada mas a Sofia vai lançando ideias boas: na sexta, fomos aos pastéis de Belém. Já lá não ia há anos (décadas?) e soube-nos pela vida. Pudemos “ajavardar” e deixar à solta a gula, para depois irmos processar o excesso de açúcar numa caminhada à beira Tejo até à Torre de Belém. Neste par de horas aconteceu de tudo: estacionamos, por milagre, em frente aos pastéis numa zona de estacionamento verde (luxo!). Vendemos ao mais velho a ideia de brincar no parque infantil dos jardins de Belém para o encontrar fechado por razões de segurança. O coração dele ficou destroçado. Tivemos todos que processar esta desilusão e frustração, acolher a desregulação dele e iniciar o nosso passeio. Caminhámos, sentámos na relva. Cobicei umas poutines com queijo e bacon, que não comi. Tirámos fotografias. Sorrimos. O mais novo, na viagem de ida e de volta quase não chorou; começa a detestar menos andar de carro. As viagens começam a ficar mais fáceis. Fazem-nos bem estas quebras da rotina.
Também cansa, claro. Como tudo no exercício da paternidade, implica escolhermos um caminho que nem sempre é fácil. Vejo isto com amigos: quando, mesmo exaustos de uma semana de trabalho, na sua única folga, escolhem ir passear, almoçar fora, fazer um picnic, ir ao cinema ou outra coisa qualquer com o seu núcleo. Escolhem criar memórias em família e fogem da prisão do ecrã, da procrastinação, do sedentarismo. Não me interpretem mal: sou muito fã de ficar a fazer ronha em casa e o aborrecimento é essencial para todos. Mas é preciso dosear ronha e passeio e até sugeria guiarmo-nos pelo imperativo climático e sazonal. Se está sol, saiam de casa.
E aqui ganhamos todos. Porque as memórias constroem-se em conjunto, em atividades. Nesta semana tivemos um jantar inesperado lá em casa, com uma amiga e as suas duas crias. Foi disruptivo da rotina, alterou-nos os horários, deu trabalho logístico. Até me fez esquecer e perder uma reunião de condomínio importante. Mas soube bem. Estar e conversar com pessoas de quem gostamos e proporcionar brincadeira aos mais novos. São estas as coisas que levamos da vida, este é o tecido que tece as memórias. Nesse dia, quando fui adormecer o mais velho, falámos, como sempre, do momento preferido do dia. Respondeu rápida e prontamente que foi a vinda dos nossos amigos lá a casa. Estava feliz e sorridente e adormeceu tranquilo. Férias também são isto. Pedaços de momentos diferentes da rotina que nos é imposta, onde nos rebelamos e podemos ser verdadeiramente livres.
Até para a semana,
João
P.S. Esta semana partilho, com orgulho, o Parentall: um podcast Português que já sigo há algum tempo, mas pouco conhecido, onde me deparei com a agradável surpresa de ver a minha querida prima Rute ser entrevistada. Fala sobre a sua jornada como mãe, o aproximar do seu ninho vazio, do seu sexto sentido. Também fala sobre a sua área profissional e reforça a constante luta entre a nossa literacia nutricional e a qualidade da alimentação à nossa disposição. Espero que gostem.


