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João,

O teu texto trouxe-me de volta a uma inquietação que carrego desde que entreguei a minha carteira de jornalista há mais de sete anos, no meu caso em divergência deontológica com os proprietários de uma revista que criei, onde era diretor e editor. A desilusão foi tão forte que decidi rumar a outras paragens, muito longe, lá longe mesmo.

Mesmo na minha formação no Jornal de Notícias, quando ainda não tinha maturidade para compreender tudo, já sentia que não havia espaço para o jornalismo cumprir sequer as suas regras mais básicas, como o princípio fundamental do contraditório. Na altura o online estava a nascer e começou-se a verificar factos ao vivo, uma tremenda estupidez no meu ponto de vista.

Não se faz bom jornalismo por falta de vontade dos jornalistas, mas porque o capital não o permite. Toda a gente tem de comer e muitos têm filhos para alimentar. Economicamente os jornais são projetos ruinosos, mas os ganhos políticos compensam. É mais barato produzir uma opinião que gera emoção imediata e cliques garantidos.* Serve-se o algoritmo, e todos estamos dependentes desse algoritmo que ninguém sabe como funciona, porque não tem código aberto. O contraditório exige tempo, investigação, cruzamento de fontes e viagens. A opinião precisa apenas de uma boa frase e de indignação medida. Feito.

Começámos por verificar factos ao vivo e agora nem factos: as opiniões são mais importantes. O que virá a seguir? Mas também te digo que há artigos de opinião a fazer as perguntas certas, aquelas que um jornalista deveria investigar, mas falta quem tenha tempo e condições para as transformar em factos e em apuração séria.

O que mais me chateia é ver o povo desconfiar de quem dá a cara, o jornalista. O erro é culpar o mensageiro em vez de questionar as forças económicas que condicionam o que pode ou não ser publicado. A sociedade já não confia nos jornalistas, e isso é profundamente triste. É uma espiral de desgaste que mina tanto a profissão como a democracia.

Infelizmente creio que é um ponto sem retorno. Algumas exceções, como a Divergente ou a Fumaça, ainda resistem. Aliás, vou tentar ter um episódio com o pessoal do Fumaça, aguardo resposta ao convite que lhes fiz. É um bom projeto e talvez seja esse o caminho. Outro caminho são as reportagens em livro, algo que aprecio bastante.

Abraço

*Um exercício que costumo fazer é ver quem são os financiadores dos jornais, depois vejo quais são as publicidades mais importantes, parcerias e tal, e é mesmo muito interessante ver isto no Observador, a Iniciativa Liberal, os Think Thank e os nomes comuns que estão em todos.

Avatar de João Azevedo

Desconfio de quem dá a cara porque, apesar de saber que é preciso pôr pão na mesa, o jornalismo está de facto condicionado. Sigo os projetos do Fumaça e Divergente, entre outros, e vejo bem a diferença. Sei que o problema é o capital e a hierarquia do poder consequente, mas são os jornalistas em primeiro lugar que articulam e veiculam a informação. Daí ter gostado muito da ideia da Margarida David Cardoso de seguir jornalistas e não jornais. Porque ainda há quem tenha o privilégio de poder ter alguma coragem. Que livros de reportagem recomendas?

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Parece-me muito injusto que se coloque todo o peso no jornalista que não tem o privilégio de poder ter essa coragem. Não creio que comece no jornalista, diria que começa no leitor, alias começa na liberdade e boa vontade das empresasz se permitem que haja jornalista nas suas empresas jornalísticas.

Parece uma moralidade fácil de incutir aos outros, mas quando vemos profissionais talentosos sobrecarregados com o trabalho que deveria ser de 5, mais o facto de seres obrigado a ser reporters de imagem, fotógrafo, analista, vidente e entendor de marketing,.e mais e tudo ao mesmo tempo, com pressões de todos os lados, a ainda tentar conciliar isso com a sua ética e deontologia, creio que não, não começa nos jornalistas. Começa por cima, e também no leitor. Se o leitor contribuir para a a existência de jornalismo de qualidade seja em forma de apoio financiamento ou outros como divulgação, tudo fica mais fácil.

Seguir jornalistas tb faço, defeito de profissão, fui seguindo ao lindo da vida editores e jornalistas que gosto mas para mim o coletivo faz a força. As melhores peças têm muitos olhos e algumas mãos , e é isso o que faz falta nas redações, esse tempo e esse coletivo que necessita desse tempo.

Deixo-te alguns clássicos que gosto:

-Holocausto Brasileiro, Daniela Arbex, sobre direitos humanos que relata as atrocidades e negligências no hospital psiquiátrico Colônia de Barbacena.

-A Sangue Frio, Truman Capote, um clássico do jornalismo literário que investiga um crime brutal com riqueza de detalhes. Mais nos género jornalismo literário do que reportagem, mas um clássico.

-Operação Massacre de Rodolfo Walsh, um marco do jornalismo investigativo na América Latina, que denuncia fuzilamentos ilegais na Argentina, com pesquisa rigorosa e humanização das vítimas.

-"Ela disse: Os bastidores da reportagem que impulsionou o #MeToo" (sobre o caso Harvey Weinstein)

- "A máquina do ódio: Notas de uma repórter sobre fake news e violência digital"

- "A terra inabitável: Uma história do futuro" (estou a ler este sobre crise climática). É um bocado deprimente e começa assim "É muito pior do que pensavas".

Avatar de João Azevedo

É de facto injusto. Mas mantenho a posição. Porque ser jornalista num mundo onde pôr o pão na mesa implica sacrificar a deontologia em prol da qualidade de vida do jornalista, de alimentar interesses (há muito que o jornalismo deixou de ser rentável, por mais leitores que tenha) de empresas ou políticos ou ambos. É injusto a vida que o jornalista leva a ser pau para toda a obra, receber miseravelmente e ainda ser criticado por um gajo como eu, idealista e talvez, como dizes, moralista. Mas o jornalismo começa, antes demais, pelas pessoas que o produzem. É injusto, mas é o mundo criado para os jornalistas. Não gosto, não concordo e gostava de fosse diferente. Obrigado pelas recomendações, fiquei curioso. Já li o "She said" e adorei, bem como o do Capote. Vou por os outros na lista. Um abraço!

Avatar de O que Faz Falta

Entendo-te e respeito o teu ponto de vista. Mas ainda assim apenas sublinho que o jornalismo funciona dentro de uma hierarquia. Tudo começa na direção e nas reuniões de editores, onde se decide quais as peças que serão produzidas, o espaço que lhes será dado e que conteúdos irão parar às redes sociais. No fim dessa pirâmide está o jornalista, que já encontra três quartos das decisões tomadas por ele ou por ela. Por isso, não creio que seja um processo de baixo para cima, mas sim de cima para baixo.

Avatar de João Azevedo

Estamos a concordar, mas com abordagens diferentes. O jornalismo funcionar dentro dessa hierarquia é o problema. A dependência do jornalista para sobreviver de compactuar com a hierarquia é um dos sintomas mais evidentes. Estar no fundo da pirâmide não invalida pertencer à estrutura. Concordo que é um processo de cima para baixo, mas que só pode ser catalisado pelas bases. É paradoxal, mas tem sido assim as mudanças sociais nos últimos séculos. Talvez seja o meu lado sindicalista, idealista e moralista a falar mas é o que sinto.

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Sim, estamos a concordar. Também sou um romântico como tu mas que viveu por dentro. Essa hierarquia é essencial à organização, mas depois depende de onde estás e com quem estás. Por exemplo, quando fiz o meu estágio tinha um ótimo editor e como eu era proativo também trazia sugestões para a redação, que depois lá seriam discutidas nas reuniões de editores, se necessário. E assim fui fazendo reportagens de concertos de bandas que eles nunca tinham ouvido falar, num instante comecei escrever críticas de música, e até entrevistei a Omara Portuondo. Sim, se calhar como dizes parte do jornalista, mas é preciso que tenha sorte na estrutura e pessoas que encontra. Eu tive a sorte de ter encontrado pessoas maravilhosas que ajudavam os novos jornalistas a crescer.

Avatar de Raquel Dias da Silva

Acho mesmo que vais gostar de ler The Book Eaters da Sunyi Dean. Fala precisamente sobre as “dietas” de informação que nos dão a consumir e como as histórias/os factos/opiniões que consumimos moldam aquilo que acreditamos ou o pouco ou o muito com que somos capazes de sonhar.

Avatar de João Azevedo

E, de facto, gostei mesmo. Aliás, adorei todo o conceito. Obrigado pela recomendação !