O Grande Chavascal
Olá,
Diz-se desta altura do ano que estamos na silly season. A temporada parva, se ao estrangeirismo quisermos fugir. Porque nestas semanas a coisa pública vai a banhos; menos educação, da pouca que temos, menos justiça, se é que a tivemos. A saúde, graças aos deuses, também descansa e não há nada como ar do campo e mar para as maleitas que aguardarão até à rentrée. Nessa altura, continuaremos a não poder ser atendidos numa urgência ou a ter que parir numa ambulância, mas será culpa dos problemas estruturais que assolam o SNS.
Recentemente, fui confrontado com a seguinte ideia: o ciclo noticioso foi substituído pelo comentário de informação. Ou desinformação, consoante o grau de consciência da manipulação cultural a que estamos sujeitos. Produzem-se notícias a partir de reações a artigos de opiniões ou crónicas. É a inversão da lógica de informar jornalística e faz jus a esta época do ano: é parvo. O problema está, claro, em manter esta idiossincrasia no resto dos meses que, supostamente, não são parvos. Tenho-me debatido na forma como quero saber do mundo que me rodeia. Há uns meses senti que me fazia falta o contraditório: sentir picos de adrenalina a ouvir opiniões contrárias - e demasiadas vezes abjetas - àquilo em que acredito. Fui procurar fazedores de opinião de boa estirpe que me provocassem as arritmias e contrações musculares nas vísceras; não foi difícil, o problema é escolher de entre uma oferta tão rica em falta de consciência do privilégio e classe. Escreve-se bem sobre péssimas ideias: bom português, riquíssimos vocabulários e eloquências invejáveis que servem condicionamentos ou agendas de interesses imiscuídos com a praxis política e económica.
Estive uns bons meses a ouvir as opiniões de pessoas que têm mais tempo que eu para lerem todas as notícias e destilarem uma opinião elaborada no profundo conhecimento da espuma dos dia. Tanto os de hoje como os de ontem. Mas havia qualquer coisa que me caia mal, argumentos que se tornavam indigestos. A princípio, pensei que fossem os sucessivos copos de cevada fermentada misturados com os medicamentos, mas não. O fenómeno acontecia mesmo quando sóbrio. Um mal estar, uma indisposição que não conseguia localizar com precisão. Uma intuição de que algo estava mal, sem saber onde, porquê, quando ou como. A ideia que referi no parágrafo anterior, e que me trespassou o equilíbrio mental, veio dar algumas luzes sobre esse incómodo. Talvez tivesse andado a escusar-me de pensar por mim e ir atrás de conclusões através das opiniões dos outros. O que quereria dizer que não tinha opiniões minhas mas sim, dos outros. A comprovar-se esta emergência existencial, a minha percepção das notícias do mundo vinha já filtrada pelo julgamento - vulgo opinião - de pessoas cujas dietas intelectuais deixam muito a desejar.
A culpa não está solteira nesta morte lenta do pensamento crítico, cívico e intelectual. O jornalismo foi sendo substituído, gradualmente, por uma outra coisa. Ouvia a Margarida David Cardoso do Fumaça contar que, na maioria das redações, as notícias são fechadas primeiro que as colunas e artigos de opinião. Nalgum momento, enquanto coletivo civilizacional, achámos legítimo dar primazia à opinião sobre os factos do que ser informados sobre os mesmos. As redações tornaram-se arenas mercantilistas, esperneando à procura de cliques e visualizações que se vão traduzir em publicidade. Essa publicidade pagará as estruturas precárias com salários indignos e falsos recebidos verdes. Deixamos, então, o quarto poder nas mãos do mercado livre e depois, com lágrimas de crocodilo, choramos a falta de qualidade nas investigações, contextualizações e relatos dos factos. O poder ainda está lá, mas serve outros interesses que não a verdade. Serve agendas - é impossível negar a promiscuidade obscena entre as administrações dos grupos de media e estratégias políticas e financeiras dos grandes grupos económicos e partidos políticos. É um chavascal constante que consegue precisamente o que pretende: a anestesia dormente e indiferente das populações. O ser humano consegue habituar-se facilmente a viver nas condições mais extremas; com mudanças graduais a transição é suavizada. E é assim que vivemos esta temporada parva: conformados com a inevitabilidade de estarmos atolados em abjeção política, ética e moral.
Infelizmente, os bálsamos que se podem prescrever para estas maleitas são difíceis de arranjar e a posologia é um desafio perante a tendência humana para a lei do menor esforço. Podemos deixar de seguir jornais e seguir jornalistas, procurando o relato de notícias por aqueles que ainda resistem o pouco que podem à lógica vigente. Para isso precisamos de ler vários jornalistas, rever o trabalho deles com alguma pesquisa nossa para que, através de um apurado sentido crítico, possamos chegar à conclusão do que é que achamos do trabalho da alminha em questão. No fundo, perceber como o viés que reside em todos nós lhe toldou o relato dos factos, seja por deturpação, omissão ou invenção. Depois, precisamos de ter opiniões. Mas daquelas a sério, que resultam da intensa confrontação interior com os nossos valores, condicionamentos e questionamentos; só depois de apurarem em barricas de tranquila ponderação podem ser servidas para prova. Os achismos que inundam o córtex pré-frontal vindos de zonas mais primitivas do nosso cérebro não são suficientes. O mundo está cheio dessas regurgitações. Não tiveram o tempo para perceber se a origem vem de uma crença refletida ou de um imediatismo condicionado e manipulado pelo que nos rodeia. Ou se é fruto das dietas pouco saudáveis do que lemos, vemos e somos induzidos a pensar. Estas impressões demasiado rápidas são como as flatulências: saem, simplesmente, sem grande reflexão.
Também se pode pegar no arcaico pedaço de tecnologia a que chamamos livro e, quiçá, arriscar a ver a mente expandir-se com novas ideias e formas de pensar. A fermentação dessas ideias, com a maturação necessária, ajudará a decompor os açúcares das reflexões para obter esse néctar dos deuses a que chamamos uma opinião fundamentada. E ébrios, sedentos de um trago, continuamos a ler. Se se lerem as obras certas, seja lá isso o que for, e talvez seja apenas aquelas que nos apetecem, havemos de conseguir ver com outros olhos - os de quem escreveu - o mundo que nos rodeia. Mas estes mezinhares são somente paliativos para a enfermidade. Era preciso olhar para as causas, perceber o que nos anda a emburrecer e almejar consensos e concertações. E quem é que tem tempo para isto? Entre as horas que precisamos transformar em salários, forçados a colaborar em hierarquias cujos topos da pirâmide são feitos de propagandistas da ignorância e do mérito. Rotinas, compras, contas, filhos. Sovados pelo dia, chegamos a casa e procuramos anestesiar a mente com drogas que nos impeçam de pensar muito e ter a noção de até onde estamos enterrados no esterco social: séries, filmes, programas, conteúdos, reels, posts, tweets, tretas, pornografia. São masturbações de todos os tipos que nos dão a dose de dopamina fácil pela qual ansiamos. Pensar torna-se secundário; deixamos de questionar e quando já não precisamos de respostas, estamos maduros para ser colhidos pelo conformismo e a apatia. Tornamo-nos indigentes, párias. Meros números nas aritméticas dos conservadores do próprio privilégio.
A temporada está parva, de facto, e nós também. É preciso procurar outros jornalismos e os seus jornalistas mas, até lá, percamos tempo com o questionamento das coisas. Do que nos é dado, como é dado e onde procuramos. Se fizermos colheitas em lixeiras, não serão alimentos frescos que teremos colhido. Na cesta teremos somente a merda dos outros. É preciso arar a terra do pensar para que as sementes das reflexões possam brotar em campos das ideias. De enxada na mão e com a trabalheira que é a prática do cultivo, de costas vergadas, dia após dia. Serão nesses campos férteis que poderemos sonhar ser uma humanidade melhor. Nada de bom cresce em terras abandonadas. Semeemos então.
Abraço-vos,
João
O Davide Pinheiro falou-me deste documentário e, na mesma noite, decidi vê-lo. “I’m Not Your Negro” é narrado com a voz do Samuel L. Jackson e é uma espécie de adaptação documentarista de um dos livros do James Baldwin. Digo espécie porque interliga outros textos e imagens de arquivo que pintam este quadro de pouco mais de hora e meia de uma forma única. Escrevi, na altura, ao Davide: “a ligação que se faz entre a história do homem negro e a história da América, desta forma crua, e nessa crueza encontrar poesia. Damn.”. Há filmes que é mesmo suposto serem vistos e este é um daqueles que mais vale tarde que nunca. Lamentavelmente, nunca li nada do autor, mas já fiquei a saber que na biblioteca aqui do burgo há umas quantas obras que tenciono devorar.
Partilho aqui este ensaio que é uma boa reflexão complementar ao texto de hoje. Sobre a importância do nosso gosto, da intuição e de como estarmos a ser afogados em conteúdos de todos os tipos nos limita a própria criatividade.



João,
O teu texto trouxe-me de volta a uma inquietação que carrego desde que entreguei a minha carteira de jornalista há mais de sete anos, no meu caso em divergência deontológica com os proprietários de uma revista que criei, onde era diretor e editor. A desilusão foi tão forte que decidi rumar a outras paragens, muito longe, lá longe mesmo.
Mesmo na minha formação no Jornal de Notícias, quando ainda não tinha maturidade para compreender tudo, já sentia que não havia espaço para o jornalismo cumprir sequer as suas regras mais básicas, como o princípio fundamental do contraditório. Na altura o online estava a nascer e começou-se a verificar factos ao vivo, uma tremenda estupidez no meu ponto de vista.
Não se faz bom jornalismo por falta de vontade dos jornalistas, mas porque o capital não o permite. Toda a gente tem de comer e muitos têm filhos para alimentar. Economicamente os jornais são projetos ruinosos, mas os ganhos políticos compensam. É mais barato produzir uma opinião que gera emoção imediata e cliques garantidos.* Serve-se o algoritmo, e todos estamos dependentes desse algoritmo que ninguém sabe como funciona, porque não tem código aberto. O contraditório exige tempo, investigação, cruzamento de fontes e viagens. A opinião precisa apenas de uma boa frase e de indignação medida. Feito.
Começámos por verificar factos ao vivo e agora nem factos: as opiniões são mais importantes. O que virá a seguir? Mas também te digo que há artigos de opinião a fazer as perguntas certas, aquelas que um jornalista deveria investigar, mas falta quem tenha tempo e condições para as transformar em factos e em apuração séria.
O que mais me chateia é ver o povo desconfiar de quem dá a cara, o jornalista. O erro é culpar o mensageiro em vez de questionar as forças económicas que condicionam o que pode ou não ser publicado. A sociedade já não confia nos jornalistas, e isso é profundamente triste. É uma espiral de desgaste que mina tanto a profissão como a democracia.
Infelizmente creio que é um ponto sem retorno. Algumas exceções, como a Divergente ou a Fumaça, ainda resistem. Aliás, vou tentar ter um episódio com o pessoal do Fumaça, aguardo resposta ao convite que lhes fiz. É um bom projeto e talvez seja esse o caminho. Outro caminho são as reportagens em livro, algo que aprecio bastante.
Abraço
*Um exercício que costumo fazer é ver quem são os financiadores dos jornais, depois vejo quais são as publicidades mais importantes, parcerias e tal, e é mesmo muito interessante ver isto no Observador, a Iniciativa Liberal, os Think Thank e os nomes comuns que estão em todos.
Acho mesmo que vais gostar de ler The Book Eaters da Sunyi Dean. Fala precisamente sobre as “dietas” de informação que nos dão a consumir e como as histórias/os factos/opiniões que consumimos moldam aquilo que acreditamos ou o pouco ou o muito com que somos capazes de sonhar.