(im)perfeições
Por mais que tentemos controlar e ser perfeitos, somos feitos de imperfeições.
Durante a semana passada dormi pouco. Acordei várias vezes com desconforto físico e o corpo começou a acusar a ansiedade em que ando nas últimas semanas. Preocupações com as coisas de casa, do trabalho, da vida.
No sábado, o meu filho mais velho acordou ainda mais cedo que o habitual. Despertei a sentir o desespero do cansaço acumulado e, naquela primeira hora do dia, fui horrível para com uma criança de 6 anos. Culpei-o por acordar cedo demais, por fazer barulho demais, por não perceber que é importante dormir até mais tarde para que o corpo possa descansar. Para que eu possa descansar. O azedume matinal continuou até que, enquanto lhe limpava o nariz com soro fisiológico, a criança não conseguiu tolerar mais a minha imaturidade emocional e colapsou. Rosnou e bateu-me, com toda a razão diga-se. E eu, cego desde que acordei, tive a resposta automática de lhe dar um estalo. Saiu-me, sem pensar. Na altura senti-me posto em causa, desrespeitado, sem qualquer empatia pela minha fragilidade física e emocional. Tudo sentimentos válidos até perceber que estava a exigir co-regulação a uma criança de 6 anos.
O que senti nos momentos a seguir foi uma mistura entre remorso, arrependimento e profunda vergonha pelas minhas ações que culminaram num ato de violência gratuito. Criei, não sei bem como, uma pausa de microssegundos e respirei. O meu filho, já na sala, soluçava entre o susto, a incompreensão e o sentimento de injustiça. Sentei-me ao lado dele no sofá e sentei-o no meu colo. Abracei-o e disse: “desculpa, tens toda a razão. O pai está descontrolado. Fui mau, tratei-te mal e nunca te deveria ter batido. Desculpa-me amor.” E ficámos num abraço algum tempo, a co-regular as feridas emocionais.
Bater numa criança é crime público. E bem. Qualquer palmada é demais. A violência não pode ser a bitola da educação de ninguém porque sabemos que só vai perpetuar ciclos de violência. Na nossa casa tentamos sempre dialogar e resolver as nossas divergências com base no respeito e no amor. Tentamos acolher e dar colo emocional uns aos outros, sempre que possível. Mas neste último sábado eu não fui capaz.
Apesar dos meus valores e do projeto de parentalidade consciente que partilho com a Sofia, falhei como pai e como cuidador. Falhei em saber acolher o meu filho, falhei em gerir as minhas emoções, falhei em quebrar o ciclo de violência educativa geracional. Não fui suficiente para me auto-regular.
Mas também é importante perceber que não posso ser perfeito todos os dias. Que sou feito das minhas qualidades e também das minhas falhas. E haverão dias em que serei o melhor pai do mundo e outros em que serei o pior.
Chegado aqui, posso fazer uma escolha. Posso relevar que foi assim que fui criado, que sou fruto de um condicionalismo sócio-familiar difícil de desconstruir. Que não foi assim tão mau. Gerir o meu desconforto desresponsabilizando-me dizendo que também apanhei e não foi assim tão traumático e que não é por uma palmada que o gato vai às filhoses. Mas estaria a mentir-me, ao mundo, aos outros.
Ou posso assumir o meu erro. A mim mesmo, reconhecendo que não é este o tipo de comportamento que quero modelar para nenhum dos meus filhos. Porque, no fundo, o desconforto que ele me gera é por saber que é errado. E quando assumo a responsabilidade dos meus atos, assumo a responsabilidade perante os meus filhos e peço-lhes desculpa. Por mais que nunca tenha ouvido isto na minha infância, compreendo hoje a importância desta palavra. Desculpa. Porque reconhece o erro, porque demonstra que o que foi feito não deveria ter acontecido. E porque revela o respeito devido para com quem nos cruzamos. Principalmente aos que nos são mais próximos.
É preciso estarmos conscientes dos lugares comuns que nos são socialmente impostos. Muitos dos nossos comportamentos, principalmente enquanto pais e cuidadores, são o culminar de condicionalismos enquanto fomos crescendo. Mas não podem ser justificações para perpetuá-los. Vamos continuar a falhar, a perder as estribeiras e a ser emocionalmente imaturos. Mas por mais doloroso que seja, precisamos assumir que estes comportamentos não são aceitáveis, que precisam de ser trabalhados e desconstruídos. Que é normal pedir ajuda, fazer terapia, pensar e refletir. Mesmo assim, vamos continuar a errar. Mas esta jornada, como pai, o que me tem ensinado é que é preciso ter consciência do erro para o tentar evitar o máximo de vezes possível. Sem esta atenção, sem este foco, acabamos por cair na repetição, em piloto automático.
Acho que todos os pais precisam de um abraço, várias vezes por dia. Para acolher a falha, o erro e o menos bom. Escrevo estas palavras para que a minha insuficiência do último sábado nos relembre da nossa humanidade. Por mais que tentemos controlar e ser perfeitos, somos feitos de imperfeições.
Para ler, ver ou ouvir:
Guia de Sobrevivência do Casal, com João Paulo Sousa (pt. 2) - Antena 3
Ouvi um episódio muito interessante esta semana do “Voz de Cama” da Antena 3 com a Tânia Graça e a Ana Markl. Um testemunho íntimo sobre as múltiplas visões do parto e puerpério, na perspetiva de um homem com reflexões que dão que pensar. Precisamos normalizar este tipo de discurso.
Soul Over Brand - Vanja Vukelic (texto em inglês)
Descobri a Vanja quando aderi ao Substack. Desde então leio religiosamente a newsletter semanal que me faz pensar e me inspira. Neste post que partilho convosco ela fala sobre a luta que é dar primazia à criação de arte conjugada com a manutenção da sua marca digital e respetivos desafios. A presença no meio digital é como ela sobrevive emocional e financeiramente e ela produz uma reflexão profundamente interessante.


Hoje mesmo falava com o João e a família sobre como não acredito em palmadas. À mesa, lancei uma pergunta provocadora a um dos adultos: “Quando um familiar adulto faz asneiras, dás-lhe uma palmada?” Se não usamos esse tipo de correção entre iguais, por que motivo o faríamos com crianças — precisamente as mais vulneráveis, e que ainda estão a aprender a regular-se? Este texto veio apenas reforçar aquilo em que já acredito: a importância de uma parentalidade consciente, respeitadora e atenta ao desenvolvimento emocional dos nossos filhos.