Filósofos
A arte de fazer perguntas.
Olá,
Terminei há umas semanas um livro que comprei na Feira do Livro do ano passado: Como Educar um Filósofo, do Scott Hershovitz. Permitam-me algumas observações. Primeiro, a tradução e notas do tradutor estão muito bem conseguidas, e intuo que o livro tratou temáticas de muito interesse para o tradutor João Carlos Silva. Em segundo, estamos a falar de um livro sobre filosofia - sem pretensiosismos - estruturado e escrito sobre conversas e observações com crianças, os filhos do autor. Está escrito de forma leve e desprendida ao mesmo tempo que aborda temáticas muito complexas e que dão que pensar.
A grande lição que ficou comigo foi esta: qualquer interação ou interjeição dos nossos filhos pode ser uma porta para uma conversa interessante. Basta sermos nós a perguntar o porquê e, em vez de respostas, oferecer mais perguntas. A sabedoria atinge-se com o constante questionamento e a Filosofia consegue ser uma ferramenta perfeita para o exercitar. Mais, ao termos conversas genuínas e interessadas sobre qualquer coisa - por exemplo, porque é que os dias se sucedem uns aos outros - podemos praticar, também, o igual valor e pesarmos interpretações e abordagens intelectuais dos nossos filhos com a mesma validade que as nossas. Perante uma pergunta destas - a da sucessão dos dias - podemos prontamente explicar o movimento interplanetário e as órbitas do sistema solar. Ou podemos perguntar o que acham os nossos filhos que faz com que os dias se sucedam. E aqui abrimos o espaço para que ouçamos respostas mirabolantes e imaginativas e, quiçá. ser surpreendidos por interpretações inusitadas. Ou até considerações geocêntricas anteriores a Galileu. Mas neste espaço, podemos ter conversas, exercitar a nossa capacidade de raciocínio e argumentação e ter um tempo de qualidade diferente com os nossos filhos.
Vivemos vidas pouco dadas para pensar sobre o que pensamos. Estamos cercados por um imediatismo solene que apressa a compreensão, prefere pedaços de informação (muitas vezes enviesada), vive da espuma dos dias. Os pais, mães e todo o tipo de cuidadores chegam, muitas vezes, exaustos a casa, no final do dia. Há pouca vontade para elaborar conversas e raciocínios e queremos chegar à parte em que nos esticamos no sofá o mais rapidamente possível. Neste acelerar, perdemos o tempo precioso que poderíamos despender numa conversa. Perdemos, também, o tempo longe de um ecrã, de um pico de dopamina, de uma interação plena e consciente. Quando terminei o livro, para além das reflexões interessantes que questionaram, inclusive, alguns dos meus valores pessoais, fiquei com a sensação que poderia conversar mais. Não de banalidades e brincadeiras - que gostamos e prezamos muito lá em casa - mas de coisas interessantes. Podia questionar mais os questionamentos do meu filho mais velho ao invés de dar de bandeja as respostas, de forma enciclopédica. E dei por mim a pensar que este tipo de questionamento faz falta em todos os setores da nossa sociedade: do nosso trabalho, à nossa família, círculo de amigos. Fico com a ideia de que questionamos cada vez menos e somos alimentados por câmaras de eco criadas por algoritmos das redes sociais e da própria curadoria que fazemos do tipo de pessoas que queremos à nossa volta. Torna difícil perceber os argumentos de outros lados da barricada e, por vezes, evidenciar alguma cegueira ideológica que possamos ter. Também vejo este entrincheiramento nas relações interpessoais e familiares, principalmente em gerações mais velhas. Há uma incapacidade crónica (se calhar, até, estrutural) em admitir outras formas de pensar e ver as coisas. Talvez este choque faça parte das dores de crescimento e evolução da nossa sociedade, e seja o típico choque geracional transversal a todo o tipo de sociedade. Mas fico com a sensação que há uma agudização desta postura, principalmente no último século. É um achismo, é certo, não tenho bases nem formação para ter uma opinião concreta sobre isto. Mas sinto que quanto mais depressa andamos, e menos tempo para degustar a particularidades da vida temos, vamos ficando reféns das nossas crenças e opiniões. Cada vez mais encontro as maiores ignorâncias - intelectuais e emocionais - nas certezas e arrogâncias. Minhas e dos outros, claro está, que não sou imune ao que me rodeio e também peco por defeito.
Há demasiadas perguntas que precisam de ser feitas para que possamos estruturar quem somos. E é preciso saber continuar a questionar, principalmente quando sabemos as respostas. É mais fácil escrever esta frase que a pôr em prática. Mas gostava, mesmo, de modelar e ensinar esta máxima aos meus filhos. E, já aqui escrevi muitas vezes, para isso acontecer tenho de ser o exemplo e questionar tudo, muitas vezes. Que na nossa casa as perguntas sejam sempre em maior número que as respostas.
Até para a semana,
João


Sim, óptimo post. Vem-me à cabeça a sensação que tenho desde que pratico budismo, que consigo "sentir" o que é uma perda de tempo ou não, "sentir" qual a melhor forma de ver e tentar exprimir as coisas para evitar a entropia ou o emaranhamento de complexos emocionais nos argumentos racionais. Acho que toda a gente consegue fazer isso, mas o budismo aguça isso. Essa sensação de "saber" é algo de muito útil, mas ao mesmo tempo consegue ser uma barreira a ver as coisas de uma forma diferente, se não tivermos cuidado. Li há uns tempos no Marginalian a teoria de um psicólogo dos anos 60, de como toda a nossa personalidade se organiza na forma como reagimos a um pequeno conjunto de estímulos chamado "strokes" (https://www.themarginalian.org/2022/07/12/eric-berne-games-people-play/). Temos um espaço muito limitado para pensar realmente livremente, e somos altamente condicionados pelas escolhas que fazemos. E vivemos numa profusão de estímulos, que nos define cada vez mais em caixinhas estanques umas das outras. Para mim, o budismo ajuda porque destrói a certeza em tudo, porque todos os conceitos são considerados ilusórios. Por exemplo, eu sou um grande defensor do veganismo como algo de suprema importância moral para a evolução do ser humano, mas se eu achasse que era a única verdade absoluta, estaria errado. É importante saber suspender esta cascata de estímulos e destruir as caixinhas mentais em que nos querem categorizar.