De profundis.
Olá,
A minha tia predileta perguntou-me recentemente se eu sentia falta de ter uma religião. A pergunta veio no seguimento de lhe ter falado que achei interessante uma conversa do Despolariza com três padres jesuítas que, a dada altura, me encaminhou para uma outra, com o Tiago Cavaco, pastor protestante e evangélico. Já conhecia o Tiago de outras andanças, da Flor Caveira, editora de música rock portuguesa, responsável por lançamentos como Samuel Úria e Os Pontos Negros. Achei o percurso dele interessante, a sua ligação com a palavra de Deus, e dei por mim a ir cuscar um dos cultos da sua Igreja, disponíveis no Youtube. Há algo de extremamente performativo nesse Tiago que prega o evangelho que tendo a estranhar. Não sei se por falta de hábito nestas lides ou por outra razão qualquer. Há uma teatralidade na forma como se fala da palavra de Deus que, apesar de perceber a sua utilidade, me parece pouco genuína. Mas achei interessante o espírito de comunidade que se gera nas cantorias em grupo, nas bênçãos a membros da comunidade e nas preces por membros da congregação a passar por dificuldades. Esta igreja, despojada de lavagem cerebral e orientada para a comunidade, atrai-me. Sinto-a como congruente com a história e a vida de Jesus que dá origem à religião. Da Bíblia, a sério, só li os evangelhos e achei aquele Jesus um socialista precoce com valores que partilho.
Voltemos à pergunta da minha rica tia. Respondi que, às vezes, sinto falta dessa componente espiritual que considero ser parte integrante do ser humano. Da minha experiência, na ausência do divino na nossa vida, tendemos a procurar outros recursos – regra geral pouco saudáveis – para preencher esse vazio. Ela arregalou os olhos, surpreendida: sempre fui frontal na minha crítica da igreja e das suas estruturas de poder corrupto. Na adolescência, talvez tenha verbalizado um desdém pela religião em si. Perante a incredulidade, fiz uma reflexão no momento e disse-lhe que talvez tenha algo a ver com o profundo ateísmo do meu pai e o vazio religioso da casa onde cresci. Tenho memórias do meu pai ir à varanda de casa e gozar com as procissões que passavam na nossa rua. A minha mãe chamava-lhe a atenção, como se faz às crianças, que aquilo não era correto nem educado. Coexisti, portanto, com o profundo desprezo pelo catolicismo e com a necessidade de respeitar os credos de cada um, um paradoxo que se revelou útil para escutar várias versões sobre um assunto. Ter sido resguardado dos rituais da igreja acabou por me tornar num leigo nestas matérias. E como vivo fascinado pelas coisas que desconheço e não compreendo, acabei sempre muito atraído pela ideia de espiritualidade ou pela forma como cada um de nós se relaciona com o divino.
O oculto abriu-me as portas. Devia ter uns treze anos quando li o livro de São Cipriano. Adorei a afronta à moral do cristianismo, os feitiços e as reflexões sobre fé e moral mais fora-da-caixa. Mais tarde, perante a doença terminal da minha mãe e com uma namorada da altura mais esotérica, procurei outras respostas. Percebi que poderia haver outros tipos de fé que não a cristã. Que o divino está em nós. Também li sobre outras religiões monoteístas, sobre Budismo e mergulhei em reflexões que me fizeram pender para o agnosticismo, ao invés do ateísmo. Já adulto, fascinado com a ligação ao Todo, à unicidade, à intenção cósmica, estudei durante um ano astrologia helénica. Fui aos textos clássicos gregos, às suas traduções, e li sobre as ligações entre o posicionamento estelar e planetário e as suas significações no nosso mundo. Nunca tive uma atitude científica neste estudo, sempre ciente de que estava a lidar com interpretações humanas, com sincronicidades e arquétipos que dependem de fé – essa crença forte em algo que não podemos comprovar – para os tentar compreender.
Essa panóplia de caminhos que trilhei, até hoje, não me serviu. Aprendi coisas com cada um desses troços, claro, mas continuo a sentir um vazio. Chamemos-lhe uma orfandade espiritual. No episódio com os padres jesuítas, a dada altura um deles assume que se descobre agnóstico pela existência – e contemplação – do belo. A poesia, a arte, a transcendência e o sublime que podemos encontrar nos mais ínfimos pormenores do nosso dia-a-dia. Percebo-o perfeitamente. Encontro Deus nesses detalhes, também. Algo maior que nós próprios e cuja natureza é pouco terrena, inefável e inexplicável. Mas não consigo enfiar esse Deus numa caixa, numa nomenclatura, numa definição. Ele é tão animista quão budista. Esteve tanto em Moisés, como em Jesus, como em Maomé. Ele é, para mim, o caminho de um amor universal que encontramos em tantas expressões religiosas que o sinto como superior a qualquer descrição. Encontramo-lo nos diferentes rituais do mundo, nas eucaristias, na quibla, nos cânticos budistas, no kiddush. Sou, portanto, um agnóstico simpatizante do melhor que há em cada uma das expressões religiosas. E crítico das práticas nefastas, ignorantes e profundamente discriminatórias que certas instituições assumem como sendo a vontade de Deus. Ele é polissémico por natureza e acredito que temos todos direito de nos ligar com Ele da forma que quisermos.
Já passei por várias sincronicidades na minha vida: momentos em que algo acontece precisamente quando devia acontecer, quando eu precisava que acontecesse, tivesse consciência disso ou não. É um dos mistérios que intuo como parte da tal transcendência que não consigo nomear. Nos dias em que este texto estava a ser escrito, o Zé Pinho publicou um texto que discorre sobre o papel da família na igreja e como a igreja se pode mover para acolher as fragilidades familiares. Acho que ainda há um enorme caminho a percorrer por parte da igreja se se quer ter como inclusiva e universal num mundo de mudanças culturais tão aceleradas e vincadas. A partir desse texto, fui ler alguns dos documentos da Santa Sé citados e deparei-me com uma referência a um discurso de Bento XVI sobre o pátio dos gentios.
“Penso que a Igreja deveria também hoje abrir uma espécie de “átrio dos gentios”, onde os homens pudessem de qualquer modo agarrar-se a Deus, sem O conhecer e antes de terem encontrado o acesso ao seu mistério, a cujo serviço está a vida interna da Igreja. Ao diálogo com as religiões deve acrescentar-se hoje sobretudo o diálogo com aquelas pessoas para quem a religião é uma realidade estranha, para quem Deus é desconhecido, e contudo a sua vontade não é permanecer simplesmente sem Deus, mas aproximar-se d’Ele pelo menos como Desconhecido.” – Bento XVI, 21 de Dezembro de 2009
Sinto-me nesse pátio dos gentios, no templo de Jerusalém, a debater-me internamente com a minha vivência da espiritualidade. Começo a aceitar que o que interpreto como divino se expressa de muitas formas e que não tenho um caminho delineado para a minha crença. Bebo de muitas fontes para me ligar ao sublime e a minha procura é constante. Por isso, sinto falta de uma religião, no sentido etimológico da palavra. De me ligar e criar um elo com aquilo que tomo como sagrado. Porque, à medida que cresço, vou sentindo com mais força que há algo que nos transcende, além desta dimensão física e material. Uma espécie de cola cósmica que nos atravessa e rodeia e, de alguma forma, orienta. Que há uma noção de como deveríamos ser, do que é certo e errado, uma bússola moral que, creio, não pode ser somente uma construção social. Que temos, inerentemente, uma tendência para amar tão forte, ou mais, que o nosso próprio instinto de sobrevivência. Não afasto a hipótese de isto tudo ser fruto de condicionamento cultural e que as minhas crenças são apenas um produto do tal constructo social. É de facto uma questão de fé: a história que escolhemos acreditar. A que nos faz mais sentido. A que não só intuímos, mas sentimos como verdadeira. E não sabemos explicar, provar ou mostrar. Nisto, a fé é muito parecida com o amor. Ele sente-se, somente. Demonstra-se, partilha-se, mas existe sempre na nossa dimensão interior e sabemos que ele existe porque o sentimos. É este o meu agnosticismo. Sinto que há algo que existe, mas não sei se serei capaz de o compreender. E começo a viver bem com isso.
Abraço-vos,
João


Contacto regularmente, por motivos profissionais, com uma pastora protestante alemã que irradia tanta calma, tanta segurança e tanto amor genuíno pelo outro, que já me senti muitas vezes tentada (a minha mãe bem diz que sou a única das suas filhas que corre o risco de se tornar religiosa).
Ponho-me a pensar se a fé não será um pouco como o casamento: uma decisão, um compromisso.
Por enquanto, continua a não ser o meu. Mas atrai-me.
👏👏👏🙏