Autoestradas
Viagens de dentro para fora ou vice-versa.
Olá,
Na noite da passagem de ano, enquanto assistia aos fogos de artifício do alto do nono andar, reparei que havia um único carro a circular na autoestrada. Estava com a minha família, rodeado de amor, mas houve qualquer coisa na solidão daquele carro que me cativou a atenção.
Reparem que contrastei o meu coração cheio - e barriga também - da noite de réveillon com uma suposta solidão. Não sei quem ia naquele carro, quantas pessoas, o seu estado de espírito e qual a razão pela qual estariam, em plena viragem do ano, em direção a Lisboa. Gosto de imaginar o que as pessoas estariam a fazer antes daquele instante e o que irão fazer a seguir. Contudo, talvez por condicionamento, a minha empatia espelhou uma certa nostalgia. Talvez, até, isolamento. Pobre do carro único da autoestrada à meia-noite de dia um de Janeiro.
Pergunto-me porque vejo solidão ao invés de companhia. Podiam estar lá cinco pessoas em amena cavaqueira, que não se aperceberam do aproximar da hora, ou se atrasaram em algum momento da noite. Despreocupadas, celebraram em comunhão, amor e amizade uma passagem de ano diferente, dentro do carro. Neste cenário, estaria a espelhar o sentimento de pertença, amor e carinho que vivi na minha noite de passagem de ano e que partilhei com pessoas que gosto muito. Mas não foi isso que senti quando vi o carro. Intuí que estariam duas pessoas que, mesmo lado a lado, cavavam uma distância infinita entre elas. Senti frio - aquele da barriga, que costuma acompanhar a tristeza - e alguma comoção. Nunca me sinto bem perante o sofrimento dos outros, mesmo que seja fruto da minha imaginação. Talvez estivesse apenas uma pessoa, num silêncio sepulcral, a conduzir indiferente à cacofonia do fogo de artifício. Bum, Bam, Pá. Luzes de todas as cores, desordenadas. Mais onomatopeias, mais luzes. E nada: um olhar penetrante na estrada, talvez uma lágrima no canto do olho que tanto poderia ser do frio como de uma dor que teima em gritar.
Talvez fosse eu quem conduzia o bólide. O eu do ano passado, que estava numa fase diferente, perante outros desafios e demasiado acomodado a viver em desconforto. Demorei alguns meses a perceber que a vida não deve ser vivida assim e que existem outras formas de encarar os dias. É o problema da saúde mental: dói-nos muito onde não sabemos apontar. Às vezes, nem sabemos que nos dói. Quem escreve estas linhas é a mesma pessoa, mas noutra frequência. E, apesar do tom soturno deste texto, quero mudar a sua cadência e largar a nostalgia de um tempo mais sofrido. Porque, à medida que o ano arranca, dia após dia, sinto que o que faz sentido é celebrar, principalmente os momentos mais difíceis. Se quero que os meus filhos suguem o tutano da vida, também o preciso de fazer. Não estou a apelar a repressão de sentimentos e vivências menos boas, mas sim abraçá-las. Fazer-lhes o devido luto mas depois seguir em frente e celebrar. Porque as nossas cicatrizes não servem só como lembretes de dores do passado. São, também, pretexto para celebrar superações e crescimentos. Celebremos, pois, os horrores da nossa existência da melhor forma que consigamos.
Cresci com um saudosismo, no meu ver pouco saudável, das dores da vida. Os mortos, eventos, dores e traumas teimam em ficar mais tempo do que o necessário no meu imaginário. Pouco falados, mas sempre com um tom magoado, mal processado. Herança de gerações em que tudo era resolvido em silêncio, numa tentativa de enterrar passados, de suster respirações até que o que aconteceu se esfumasse. Não esfuma, não passa, faz mossa. A apneia pode ser fatal. Faz-me sentido abandonar estes padrões: porque não saborear as melhores das recordações, ao invés de nos prendermos à mágoa? Para isto, preciso praticar algo que não me é natural: a aceitação. Porque escolher como lidar com as coisas que nos acontecem de uma forma positiva passa muito por compreender que as coisas são como são, até deixarem de o ser. A vida acontece, com as suas peripécias e rotinas que, subitamente, são viradas do avesso e é preciso um reajuste à nova realidade.
Talvez o carro que percorria a autoestrada à meia-noite tivesse lá dentro pessoas que aceitaram a vida como lhes era posta à frente: uma estrada que vai passando, acontecendo. Monges budistas que vieram conhecer Portugal e, distraídos, deram por si em plena passagem do ano enquanto conduziam. Ou eram conduzidos. Talvez fosse uma família com três filhos, cansados da azáfama da época festiva e tivessem decidido celebrar a passagem do ano antes, com a alegria das crianças ainda sem sono; entretanto, os miúdos adormeceram e estava apenas um casal a saborear a ausência de ruído. Só um verdadeiro amor, seja ele do tipo que for, é capaz de suportar um silêncio. E, reparem na sincronicidade, ouvi esta frase pela primeira vez num carro, pela boca do meu melhor amigo, numa autoestrada que me ensinou muito sobre amizade.
Abraço-vos, muito,
João


"Onde há percepção, há engano". Diz o Buda na Sutra do Diamante. Que é o mesmo que os cientistas dizem na frase "correlação não implica causação." Ou seja, as aparências iludem.
Fico muito feliz por teres tido uma passagem de ano boa. Mas eu, por exemplo, não gosto do aparato todo da passagem de ano. Os animais ficam em pânico. Adultos com stress pós-traumático também. Já era tempo da sociedade se importar com ambos os grupos.
Quando se tem uma família com crianças, deve ser diferente. Há uma certa vontade de criar magia. Ou pelo menos de normalizar a excitação que veem.
No natal, houve aqui uma grande festa com música e pessoas a dançar. Mas as crianças mais pequenas pareciam um pouco assustadas com a extroversão dos adultos. Via-se na cara delas, mas ninguém parecia importar-se.
Talvez um dos estados naturais das crianças seja o da calma, e sejam os desenhos animados e os adultos a excitá-las até ficarem com ADHD.
Espero que entendas isto como uma crítica social (sempre necessária, acho eu), e não a ti. Acho que deves ser um óptimo pai.
Que todos possam encontrar felicidade neste mundo, da maneira que preferirem. Bom ano.