As Escadas
Olá,
Na estação onde apanho o comboio diariamente para chegar a Lisboa, há umas escadas rolantes que sobem da zona onde as pessoas deixam os carros. É uma roleta russa que se funde com a lei de Murphy: nos dias em que mais cansado me sinto é quando as escadas, por algum motivo, não estão em funcionamento. Nessas alturas culpo tudo: a falta de brio dos funcionários públicos da CP, a falta de meios para a manutenção de equipamentos, a corrupção com o erário público, o laxismo das estruturas dirigentes. Vocifera a minha voz interior contra o mundo que se organizou de modo a que os pequenos confortos– uma escada rolante, por exemplo – me sejam sonegados.
No dia em que escrevo esta crónica, tinha acabado de usufruir do pleno funcionamento das escadas quando, ao chegar ao topo, vejo um senhor. Tinha um olhar impaciente, cansado e enervado o suficiente para que se depreendesse que estava atrasado. Estava imóvel na lateral da saída das escadas e parecia aguardar. Assim que saio, ele baixa-se repentinamente para carregar no botão de emergência de paragem das escadas. Eu ainda tento dizer-lhe que estão pessoas a subir, mas em vão. Sou ignorado com a mesma intensidade com que o botão de paragem é pressionado. As escadas param. As pessoas começam a subir os degraus e o senhor, em contra mão, desce e leva consigo a sua pressa, bem como o respeito pelos outros. Fiquei siderado: pela falta de civismo, de consciência de vivência em sociedade e pela demonstração categórica de egoísmo. Quase que lhe ouvi os pensamentos: os outros que se fodam – perdoem-me o recurso vernacular, mas estou somente a citar o que imaginei na altura.
Sentei-me, pois, no lugar habitual do banco da estação e ia continuar a escrever uma outra crónica. Mas, como uma comichão que teima e persiste, o que acabara de assistir borbulhava dentro de mim. Não uma raiva comezinha ou vontade de fazer justiça, voltando atrás no tempo para impedir o senhor de se lançar ao botão e descer as escadas normais que ficavam a menos de dez metros. Estava cá dentro uma reflexão que tentava compreender o que acabara de assistir. Conseguia ouvir, repetido: porquê? O que leva uma pessoa, num dia solarengo, a interromper o funcionamento de uma escadas ascendentes para, simplesmente, as poder descer, quando tinha alternativa tão perto e inócua para os outros.
O mundo tem cada vez mais pessoas que param a circulação das escadas para seu próprio benefício. Há uma lógica da exacerbação da nossa existência individual que permeia o tecido social, que esmaga a civilidade e nos deixa reféns de uma lógica Darwinista. Não vejo muitas notícias. Leio alguns jornais, cruzo a informação e, se me parece demasiado descabido, ou se suspeito de uma intenção velada, faço a minha própria pesquisa. Mas o que ando a sentir vai para além de uma desconfiança ou de uma procura da verdade noticiosa. São as próprias dinâmicas do mundo que mudaram; uma nova ordem mundial, de facto, que atenta contra os princípios e valores que defendo. O Darwinismo social está mais acicatado que nunca: globalmente, vivemos sob a lei do mais forte. Há um par de anos, existiam um conjunto de convenções sociais e linhas vermelhas que limitavam a ação dos poderosos. Sempre pensei que esses limites eram consequência do que se passou com a revolução francesa: a noção de que o exercício do poder de forma déspota, desmesurada e iníqua faria, em última análise, rolar cabeças. Cresci a acreditar num equilíbrio social em que os governados punham em cheque quem governa. Ainda hoje, como pai, parto destes princípios fundamentais: enquanto sociedade, regemos as nossas ações por valores e princípios que não permitem o abuso da autoridade ad eternum. Mas a verdade é que, subtilmente, a política fundiu-se com os interesses financeiros. Os grupos económicos e o grande capital permeiam a atividade política e fizeram-na refém dos seus objetivos. Sejamos honestos: os partidos não servem o povo. Apresentam medidas de governação numa espécie de gestão de serviços mínimos e, em conjunto com a comunicação social – detida pelos mesmíssimos interesses económicos – manipulam a opinião e a percepção pública. Com isto, criam uma ilusão de um sistema partidário funcional e democrático quando, na verdade, é apenas uma máquina auto-gerida. Sim, tenho consciência que poderia ter na cabeça um chapéu de alumínio enquanto escrevia isto numa cave escura com cartazes a anunciar a invasão alienígena iminente. Mas estou só a constatar a minha perceção do conluio descarado dos nossos deputados com escritórios de advogados e grupos financeiros. Os jobs for the boys. A promiscuidade entre decisões políticas e futuros cargos profissionais. Sou, portanto, mais um desiludido com o sistema vigente em Portugal mas com o privilégio de ter uma bagagem cultural e intelectual que me impede de cair na conversa do Chega. O senhor das escadas é, também, alguém cuja desilusão o moldou.
Os meus filhos agora crescem no mundo onde um brutamontes tirânico – é assim que me apraz traduzir a palavra bully – dita os destinos de outros países, cria guerras que estropiam a economia mundial e cria entropia onde se mete. Uma mão de Midas que, em vez de ouro, transforma tudo em excrescência. Onde a ironia do projeto Europeu é, precisamente, ter sido fundado no princípio da solidariedade mas, na prática, quem decide os desígnios dessa União são os seus países mais ricos. E eles subverteram esse princípio por uma economia de extração dos países periféricos e de total submissão ao Eurogrupo. Ainda hoje me custa acreditar na coerção que foi feita aos Gregos quando o Syriza ganhou as eleições na década passada; na forma descarada como torceram o braço ao Varoufakis e como Tsipras se resignou e capitulou. Custou-me acreditar nessa perda de soberania – ou ilusão de soberania. Mas é esse o mundo desigual em que vivemos hoje. Onde os meus filhos crescem. Já escrevi sobre o mal do mundo e, na altura, alguém partilhou comigo o receio que os valores que defendem possam colocar quem mais amamos numa posição de fragilidade. Crianças educadas para conhecerem e expressar as suas emoções de forma saudável e empática vão chocar com as que crescem a acreditar na sobrevivência do mais forte.
O senhor que parou as escadas rolantes vive neste mundo onde a ética e a moral assentam numa perspetiva individualista. Os interesses e direitos dos outros nem entram na equação: agimos para o nosso umbigo, sem olhar a meios. Quando há confrontos morais, reina a lei do mais forte. O Trump é o senhor que parou as escadas, numa escala muito maior, com um impacto geopolítico abismal. E ainda manda calduços aleatórios, até aos seus aliados. E enquanto se enviam estes sinais para o mundo – de que vale tudo, desde haja força – moldamos a forma como a humanidade olha para si mesma: um olhar perdido, desorientado e, acima de tudo, animalesco, na gestão emocional, social e política do que nos rodeia. O senhor das escadas cresceu rodeado destes comportamentos, outrora condenáveis, e agora vê-os legitimados em horário nobre. Uns botões de uns lançam bombas e drones e destruição para cima de outros, outros param o funcionamento de escadas rolantes. Mas ambos são pressionados por uma fragilidade humana, uma mesquinhez atroz e um egoísmo cada vez mais disseminado.
Abraço-vos,
João
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