Sobre o Mal.
Linhas que correm nos nossos corações.
Olá,
Há umas semanas andei imerso na leitura de um livro que gostei muito chamado “A Medida”, da Nikki Erlick. Tem uma premissa que achei muito interessante e mistura um realismo atual com um evento distópico - a minha praia, portanto. Tenho sorte com amigos que me emprestam livros bons; os maus irritam-me profundamente, principalmente pela perda de tempo. Mas não é isso que me traz aqui hoje. No livro há um casal, pessoas poderosas, um deles candidato à presidência dos Estados Unidos: são retratados como calculistas e interesseiros, mas como traço de personalidade. Ignorantes e desinteressados do mal consequente das suas ações. Os Underwood, o casal presidencial da série House Of Cards, pareciam retirar prazer do sofrimento de outros, numa sociopatia terrível mas deliciosa de acompanhar. Neste livro, este casal não. São pessoas que vivem cegas pela sua bolha de privilégio e não olham a meios para atingir os seus fins. Maquiavélicos, na verdadeira aceção da palavra. Roçam alguma sociopatia, mas socialmente aceite, sem noção e sem pensamento crítico. Há um certo conforto no não questionamento das coisas e seguir em frente com valores e crenças que não são os nossos, principalmente quando beneficiamos do status quo. É uma tendência muito humana: escolher o caminho mais fácil.
Certas pessoas agem sem perceber o mal que representam. Isto não as inocenta de nada, mas leva-me a refletir sobre o quão as nossas morais são construções sociais. Onde nascemos, como nascemos, como somos socializados, enfim, a bolha que nos forma e vê crescer, dita muito de como vamos ver o mundo. Mais, até como o vamos questionar. Se acreditarmos que realmente os meios justificam os fins, e que as consequências desses meios são danos colaterais para fins maiores, melhores e necessários, então conseguimos justificar tudo na nossa cabeça. Ah, o pragmatismo humano.
O Lex Friedman, num podcast que que recomendei numa das minhas últimas crónicas, exprimiu algo que me fez pensar:
I believe the line between good and evil does run through the heart of every man.
Para podermos ter um diálogo, ainda para mais com pessoas com as quais discordamos a níveis viscerais, não basta empatia. Aliás, a empatia pode até ser impossível de ter com alguém que percecionamos como hediondo. É preciso inteligir que todos temos uma determinada noção sobre o que é bom e mau. Claro que são conceitos que dependem da circunstância material: a época em que vivemos, como fomos socializados, as vivências a que fomos sujeitos e como as integramos na nossa psique. Mas esta crença de que a humanidade tem a capacidade de discernir entre o bem e o mal é a premissa que permite o diálogo. Com pessoas das quais discordamos ou quem antagonizamos.
Tenho tentado fazer esse exercício, nada fácil, de olhar para todas as pessoas com quem me cruzo e ver essa linha que o Lex acredita correr no coração de todos nós. Perceber que, mesmo agindo de formas que ultrapassem os meus limites pessoais, que me magoem e façam sentir indignado, estão a agir sobre as suas próprias perceções do que é certo ou errado. Os valores, crenças e morais de cada um têm uma plasticidade enorme. Não somos todos iguais: diferimos pelo o acaso da soma dos eventos que nos formaram como pessoas. Mas há limites para este entendimento, que ultrapassam a razão e habitam no reino visceral e animal. Como podemos tentar este diálogo com assassinos ou estupradores? E se as vítimas fossem pessoas que amamos? Como não deixar que a nossa dor e revolta e raiva nos tolde o juízo e as ações? São os nossos limites e a humanidade imperfeita que vem ao de cima nessas situações. Como se traçam essas linhas vermelhas criadas por morais impostas pela época, geografia, família, traumas, conquistas?
É mais complexo: noutro dia julguei as ações de um colega como um profundo desrespeito pelo trabalho de equipa que ambos prezamos e fiquei ainda mais zangado por ter vindo de uma pessoa que nunca esperei fazer tal coisas. Senti-me desvalorizado, desrespeitado, injuriado e indignado; a minha necessidade de segurança e conforto no trabalho e a relação de amizade e confiança com essa pessoa foi posta em causa. Mas percecionei a situação de forma errada. Avaliei mal o que se tinha sucedido. Parti do pior pressuposto possível, ao invés de ter a interpretação mais generosa. A forma como, em determinado momento escolhemos ver as coisas, faz a separação entre o bem e o mal. Muitas vezes erramos. Neste caso, voltei a ser uma criança que precisava de ajuda e de ter alguém na minha equipa, do meu lado, e extrapolei toda essa insegurança numa zanga fundamentada em perceções erróneas do que se tinha sucedido.
Talvez por isto, consiga olhar para o casal do livro, da elite americana, uma proto realeza, e escolher pensar que talvez estejam cegos pelo seu privilégio. Incapazes de ver os horrores estruturais que perpetuam, o mal que fazem aos outros, a forma como instrumentalizam outras pessoas, para atingir os seus objetivos. Até sinto pena deles: a ignorância pode ser tão terrível como o conhecimento, porque as nossas ações têm impactos profundos. Em nós e nos outros. Reconheço-lhes uma humanidade que apenas procura sobreviver da forma que lhes foi ensinada - lá está, condicionada - e que também neles existe uma linha entre o bem e o mal. Escolho acreditar que todos fazemos o melhor que conseguimos em dado momento.
A minha perceção do mundo, juntamente com a da Sofia, vai moldar os valores, crenças e sentido de moral dos nossos filhos. Como pais, esta pode ser uma das maiores responsabilidades; não que eles sejam unicamente o resultado da nossa influência, pois acredito que todos nascemos com uma essência muito nossa e única, à semelhança da impressão digital e código genético. O mundo que os envolve também terá quota parte de responsabilidade nesse processo. Os pais têm um papel importante na forma como a essência vai florir ao longo da vida. Seremos jardineiros que vão criar as condições para que as sementes do potencial de cada um deles possam crescer . Eles vão ser capazes do bem, do mal, e a forma como vão lidar com isso começou desde o momento em que nasceram.
O que julgo ser o mal e o bem também ditam as minhas ações. Nem sempre sou congruente; é parte da minha humanidade. Mas gosto de pensar que todos temos bondade no coração, por mais enterrada que esteja pelo ódio, maldade, trauma e mágoa. Porque assim permite-me manter portas abertas com todos e nunca as fechar ao diálogo. Existem limites pessoais, onde escolhemos o que é aceitável para a nossa integridade e bem estar físicos e emocionais. Mas devemos sempre ser capazes de, com o devido espaço e tempo, permitir reatar diálogos, de uma forma empática e à procura de convergência. Só assim poderemos ter esperança no fim das guerras e injustiças que vemos perpetuadas todos os dias.
Acreditar na tal linha que corre dentro de nós é acreditar na esperança. E pergunto-me se poderemos viver, de facto, sem ela; que existência é essa onde somos consumidos pela resignação de que nada pode mudar. Acreditar que somos todos capazes do melhor, tanto como do pior, permite-me viver com esperança, de forma mais leve. Permite-me querer ensinar aos meus filhos que o mundo é um lugar pelo qual vale a pena lutar, que a vida é de facto uma dádiva. Que o mal lhes ensine a importância do bem, e nunca o contrário.
Abraço-vos,
João
Continuo na saga de ver os filmes dos Óscares. Vi o Emilia Pérez. Não estava à espera de ser um musical (devo viver debaixo de uma pedra, eu sei). Eu detesto musicais. Mas foi um filme que me deu muito em que pensar e será parte integrante da crónica da próxima semana. Toca em temáticas que acho socialmente desafiantes e, acima de tudo, faz refletir sobre a nossa liberdade e onde podemos traçar os limites da mesma.
Saiu o novo disco dos Linda Martini, o primeiro sem o Pedro Geraldes. Gosto sempre de saber que o rock cantado em português está de boa saúde. Confesso que temia uma mudança drástica no tipo de reportório, porque já estão velhos, porque mudaram o alinhamento, porque viver da música em Portugal é um luxo reservado apenas a alguns. Mas o disco não desilude, bem pelo contrário, tem umas pérolas que me surpreenderam com Cão Tinhoso e Corações Rápidos. Se gostam e querem apoiar a banda, comprem o CD ou o Vinil do Passa-Montanhas ou tentem ir a concertos da banda. Acho que eles merecem, nem que seja pela perseverança.


O santo tibetano semi-lendário Padmasambhava disse no século IX:
Quando a era degenerada deste aeon chegar, as pessoas serão as suas próprias enganadoras, suas próprias más conselheiras, as criadoras de sua própria estupidez, mentindo e enganando a si mesmas. (...)
- Padmasambhava
belo texto, que faz pensar. acho que tens toneladas de empatia para vender, e perante a lei da oferta e procura talvez fiques rico, o que significa que lês bastante e livros bons, daqueles que humanizam qualquer humano. de resto, a frase Eu detesto musicais é a mais ouvida desde o Joker 2 e ainda assim... Continua forte na caneta, João.