Dia da Poesia: versos toscos.
Ou: a recusa da poesia de caca.
Olá,
Esteve agendado para esta semana um outro texto. Falava sobre amizade e ainda terão oportunidade de o ler num futuro próximo. Subitamente, apercebi-me que esta sexta-feira - hoje - é o dia mundial da poesia. Arrancou poucas horas depois do equinócio de Primavera e agora temos a mesmíssima quantidade de dia e de noite nos nossos dias. E, sendo nós equações complexas, tendemos não para o infinito, mas para a luz. Sou otimista: dias grandes e grandes dias são o que nos espera.
Convencionei, algures na adolescência, muito provavelmente galvanizado pela minha paixão assolapada pela Sofia nesse nosso primeiro namoro, que o meu terceiro dia preferido do ano é o dia 21 de Março, dia da poesia. Sempre tive um fascínio pelos versos, talvez por ser um pragmático: um poema leva menos tempo a ler que um capítulo, regra geral. Se quiser escrever, também levo menos tempo a escrevinhar um verso do que um capítulo. No fundo, gosto de poesia porque sou preguiçoso e, na altura, era ignorante ao ponto de a achar mais fácil. Nada de mais falso, convenhamos. Um verso de caca pode ser escrito em segundos e, de facto, consegue-se escrever um poema mais rápido que um capítulo de um romance. Mas um verso de caca não vale nada. É um balbuciar imperceptível que não deveria ter sido emitido. Então, sejamos honestos: um verso de caca, apesar de ser mais rápido a escrever, não tem valor.
Uma quadra compostinha, daquelas que nos faz suster a respiração e ficar com um olhar absorto no horizonte, não se escreve num instante. É esta a beleza da poesia: há uma construção frásica, de significado, que transforma cada verso num aforismo que desemboca noutro aforismo e ficamos assim, reféns do labirinto de palavras e intenções desconhecidas de um qualquer autor. Então eu rendi-me; não pelos versos imediatos e mal-enjorcados, mas pela demora e perdição que um bom poema nos proporciona. Gosto de cadências, de ritmos, de jogos de palavras, de significados. De vez em quando, lá me arrisco e escrevinho uns versos. Por cada cem poemas que escrevo, gosto de partes de um. E não, não escrevi nem perto de cem poemas.
Decidi assinalar este dia porque é um pretexto, como qualquer outro. Já é longe do Natal o suficiente para ter uma desculpa de celebração. E dá-me alento até ao meu aniversário em Novembro. E se o Verbo era importante para o menino Jesus, para mim também o é. Então fica este tríptico da palavra na minha vida: a palavra dos cristãos, a palavra da poesia e a palavra do João. Se isto faz algum tipo de sentido, não sei. Mas é o tal pretexto: serve o seu propósito. Também serve como justificação para comprar mais uns livros de poesia, claro. Assim não sou chamado à atenção do espaço que nos falta lá em casa para os livros. Pão e água não se negam a ninguém e a Sofia sabe que bebo versos e como sonetos. São alimento para a alma. E neste dia não me podem acusar de cometer gula literária. Compro poesia no dia da poesia e a sorte protege os audazes leitores.
Gosto de poesia pelo abraço que sinto com alguns poemas. Às vezes, só os versos conseguem comunicar o que sentimos. Ou descrever as sensações e emoções complexas de que somos feitos. Há momentos onde ler poesia é escarafunchar certas mágoas, como quando roçamos a unha numa crosta. Sabemos que vai sangrar, e até doer mais, mas fazemo-lo na mesma. É um masoquismo emocional, talvez. Em certas alturas a alma precisa de um bom sangramento e nada melhor que a lâmina afiada de um poema para o fazer. Possíveis infecções? Logo se vê. Há medidas de beleza, espanto e deslumbre que só um bom conjunto de versos conseguem pôr em palavras. Já fiz amor em sítios e de maneiras que só um poema poderia descrever; como bom cavalheiro, escrevi e entreguei esse poema a quem de direito. Como não escrevi os tais cem poemas, foi um poema pequeno, mas bonito. Ela gostou de o ler. E eu de escrever. É preciso mais?
Sou livre na poesia porque ela ainda permite sonhar, sem as amarras e condicionamentos da prosa. Também sonho com textos corridos, mas sonho mais alto, se é que isso é possível, com poemas. Todos os leitores de um poema são livres, verdadeiramente livres, de o interpretar como quiserem. Claro que uma onda é uma onda e o mar é o mar. Mas essas ondas e marés, e rochas, e árvores, e flores, e terras de todas as cores surgem na cabeça de cada um de nós de uma maneira única. Então se pegarmos nas palavras que precedem e sucedem das que acabei de listar, o número de imaginações distintas fica exponencial. Ad infinitum. É essa infinitude que me obriga a render à poesia, braços ao alto, a enfrentar o destino que os versos me traçaram. Mas há mais. O que imagino hoje, agorinha mesmo, pode ser outra coisa amanhã, ou daqui a uns minutos. As ondas mudam de tamanho, os mares nunca são iguais, nem as árvores, rochas, flores e mananciais de terras.
Com a poesia descobri-me poeta, depois escritor. Olho para a minha carreira literária inexistente e não sou mais que um mestre-de-obras. Mas de palavras. Não ouso considerar-me mestre-de-palavras: essa designação guardo-a para aquelas e aqueles que, quando os leio, os sinto como tal. É preciso comer muito pão com côdea para lá chegar. Comecei com poemas, depois escrevi em diários, escrevi crónicas nos primórdios da blogosfera e voltei aos poemas, desta feita com a mania que era rapper. Na faculdade escrevi sinopses, tratamentos e guiões. Realizei, com orgulho, um deles. Fui a noites de spoken word - ou palavras ditas por dizedores. Depois fiquei demasiados anos sem escrever. Fechei-me numa resignação que não me fez bem e fiz um jejum de letras, palavras e versos. Achei que nunca mais ia ter tempo para escrever. Que a vida de adulto não permitiria o espaço e tempo para estar sentado a escrever. E é nestas alturas que adoro estar enganado. Voltei a escrever um diário. Depois escrevinhei uns poemas. E, quando finalmente deixei de me queixar que não tinha como escrever, comecei a escrever aqui. Já lá vai um ano e meio; vou a caminho dos dois, orgulhoso. Não do que escrevo, mas da consistência. Todas as sextas, apareço com uma nova crónica. Faça chuva, faça sol. E como sabem, tem chovido muito lá fora. No meu peito também.
Por isso gosto deste dia. Faz-me sentido, dá-me pretextos e tem muito a ver comigo. A seguir ao meu aniversário e ao Natal, é o meu dia preferido. Ia cometendo a enormidade de escrever sobre outra coisa qualquer, mas apercebi-me a tempo da barbaridade e aqui estamos. Infelizmente, não escrevi um único verso, porque estas coisas não podem ser forçadas. Bom, podem, mas depois ficam só versos de caca. Teria de ter mais tempo para escrever um verso muito tosco, para o delapidar até lhe encontrar a beleza. E depois, o mais difícil, escrever-lhe um sucessor. E outro. E terminar esse ciclo num poema. Isto são horas, meus amigos, não se parte pedra rápido. Ou parte-se, e fica um trabalho de caca.
Feliz dia da poesia,
João
E como não conheço melhor celebração da poesia que a dizer, deixo aqui alguns poemas que tenho dito e adicionado à minha rubrica Poemário:




Que texto bonito! Escreve, João, escreve. Escrever é como respirar, orgânico. Obrigada!
João, que belo texto!
Obrigada pela escrita!