Tempo
"Foi o tempo que tu perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante." "O Principezinho" de Antoine de Saint-Exupéry
Há umas semanas escrevi sobre uma das formas de soletrar a palavra amor: t-e-m-p-o.
E tempo, nos dias que correm, é um bem escasso. A nossa atenção e foco, os pilares sobre os quais despendemos esse tempo, são bens essenciais na economia de dados e vigilância em que as sociedades ocidentais hoje em dia vivem. O nosso tempo, e a forma como decidimos distribuí-lo, é alvo de cobiça dos mercados, da forma de organização social e da estrutura económica mundial. Não é fácil viver nestas condições.
O ex-presidente do Uruguai, Pepe Mojica, afirmou uma vez que não compramos coisas com dinheiro. Compramos coisas com o tempo que gastámos para ganhar esse dinheiro. Há um belo documentário na Netflix sobre este senhor e a sua interessantíssima vida que recomendo a todos verem - tempo e dinheiro bem gastos. Ao pensarmos nesta afirmação percebemos que, num mundo onde precisamos trabalhar em troca de dinheiro para podermos (sobre)viver, a alocação do nosso tempo tem uma obrigatoriedade que nos limita, verdadeiramente, a escolha de como podemos optar em distribuir o nosso tempo.
Penso que o tempo e a sua medição foi criado para otimizar o funcionamento da industrialização inglesa e a gestão dos respetivos recursos humanos. Ou seja, vivemos presos e condicionados num conceito recente mas que é estrutural na organização da nossa sociedade.
Mas temos livre arbítrio - ou a sua ilusão - para gerir o tempo que nos sobra depois do que é mandatório para sobreviver em sociedade. Bom, no fundo não gerimos tempo, mas sim tarefas e quantas conseguimos executar em determinado espaço de tempo. E fazemos escolhas nesta gestão. Diria que a maior parte de nós gere mal as suas tarefas e queixa-se da falta de tempo. Permitam-me uma sugestão, antes de continuarem a ler-me: consultem no vosso telemóvel quanto tempo de ecrã em média gastam por dia. Tenham noção do tempo que gastam em cada aplicação. Dá que pensar, certo?
A nossa atenção é mais que cobiçada. Ela é cativada pelas redes sociais, pelo ciclo noticioso, pelo entretenimento que nos danifica o circuito dopaminérgico e faz com que existamos alheados, mas temporariamente felizes.
E começo a chegar à reflexão principal deste texto: na minha opinião, sacrificamos demasiado tempo em coisas que não são importantes. Priorizamos coisas que achamos que são imperativas em detrimento do que é, de facto, importante. E, pior, vivemos sem qualquer tipo de consciência disto. E sem consciência não conseguimos produzir pensamento crítico que nos faça questionar - e quiçá alterar - a forma como queremos viver.
A parentalidade sofre muito com isto e, no longo prazo, as nossas crianças vão sofrer. Observem a quantidade de crianças abandonadas com ecrãs à frente dos olhos enquanto comem as suas refeições em espaços comerciais. Muitas fazem o mesmo em casa, porque é mais fácil, mais prático, mais rápido. Gerimos a tarefa de forma inconsciente e, parece-me, que pagaremos um preço alto no futuro. Observem a quantidade de pais que está a olhar continuamente o telemóvel enquanto estão com as suas crias, ignorando o que estão a fazer. Sim, estão lá em presença, mas não estão lá verdadeiramente. E aqui, acredito também que de forma inconsciente, fazem novamente uma escolha de onde colocar o seu foco e atenção.
Tenho plena noção que estamos a combater design tecnológico feito explicitamente para nos deixar acríticos e inconscientes do tempo e atenção que despendemos nas plataformas digitais. E se funciona desta forma com os adultos, com as crianças e os seus cérebros em desenvolvimento só posso supor que será ainda mais manipulador e destrutivo.
Atenção, não escrevo isto do alto do meu reduto moral. Também olho para o ecrã, também ignoro os meus filhos em determinados momentos. Mas sei, e sinto, que é importante que a nossa gestão das tarefas - e consequentemente do tempo - seja regida pelos nossos valores e não por corporações de escala mundial cujo único interesse é lucrar com a nossa atenção. Uma pergunta que me ajuda a colocar muitas coisas em perspetiva é: quando morrer, como quero ser lembrado?
Se for sincero, há uma componente de ego megalómana que me faz dizer que quero ser lembrado pela minha expressão e criação artística. O meu ego regozija-se ao imaginar-me um Saramago ou um Scorsese. Quero ser lembrado como alguém excecional e marcar o mundo em vivi de forma indelével. Acho que este desejo é instintivo e comum a toda a humanidade. Mas é, também, uma utopia que apenas alguns concretizam.
Pondo de parte o ego e a minha necessidade de reconhecimento, no fundo, quero ser lembrado como uma boa pessoa. Quero ser o pai que marca pela positiva os seus filhos. Quero ser recordado com carinho e ternura pela minha companheira e família. Quando morrer, vão ser seguramente os momentos bons que partilhei com quem mais amo, família e amigos, que me vão passar pela mente. Espero que quem me sobreviverá também se recorde desses momentos. Acho que os textos e criações artísticas, bem como o percurso profissional, não terão a importância que o meu ego hoje em dia lhes atribui.
Então, com esta noção e consciência, quero ativamente gerir e passar o meu tempo com quem mais amo. Assumir tarefas que sejam essenciais e que não prejudiquem a minha intenção inicial - ser e estar com quem quero e dou valor. E é, como escrevi, um trabalho árduo, diário, a combater todas as forças que competem pela nossa atenção. Para podermos discernir que há prazos que no fundo são fabulações criadas por pessoas e indústrias cujo cumprimento não é, de facto, obrigatório. E que devemos ser guiados pelos nossos valores mais viscerais na forma como gerimos as nossas prioridades.

