Stôr, por meio ano.
Olá,
Esta semana recomeço o meu papel como professor. É um João diferente que, passados mais de dez anos da primeira experiência, ainda se sente mais aluno que professor. Não me revejo no papel de sabedor omnisciente que vi tantos professores desempenharem, a esforçarem-se por esconder a sua insegurança através de uma couraça e a não aceitarem a realidade de que o ensino é um canal de duas vias. Longe de ser de propósito, é-me natural desempenhar um papel diferente do clássico professor debitador de matéria. E, consciente de que o mundo evolui em campos que já ultrapassam o meu conhecimento, leciono de uma forma aberta, para tentar compreender melhor as novas gerações, os seus hábitos, os seus consumos e adequar a minha visão do mundo à deles. Nem sempre são compatíveis: há princípios e valores do mercado laboral e do trabalho diário que faço há mais de quinze anos que colidem com um certo laxismo generalizado ou desinteresse ou falta de atenção/concentração. Ou todos juntos, em proporções diferentes, consoante o aluno.
Incomodam-me as pessoas que ensinam de forma autoritária e adoptam comportamentos herméticos. Sou filho, sobrinho e irmão de professores e cresci numa realidade em que a pedagogia era amplamente discutida. Tive sorte: eram poucos os professores da minha família com a mania que sabiam tudo e que pouco ou nada podiam aprender. Havia sempre uma vontade de melhorar, de estudar mais, de perceber, de criar iniciativas. E, despindo o papel de professores, tornavam-se seres sociais sem tiques de pseudo-sábios. Faço esta crítica porque, infelizmente, conheci demasiada gente que não conseguem despir a farpela de professor. Agem como se o mundo fosse uma sala de aula onde a sua razão é a lei, indiscutível e impenetrável.
Há muitas pessoas assim que nem sequer são professores. São apenas vítimas da própria intransigência que os condena a uma calcificação intelectual. Deixam de conseguir ver os espectros, as nuances e os gradientes para terem uma visão preto no branco e maniqueísta. São Sísifo a empurrar eternamente a pedra, castigados pela própria ignorância. Pergunto-me quantas destas pessoas serão assim por terem conhecido, ao longo da vida, os professores errados?
São seis meses por ano em que sou chamado de professor. Na prática, o instituto politécnico onde leciono chama-me “assistente convidado”. Porque, de facto, não sou um pedagogo no sentido clássico e formal, sou alguém com conhecimento técnico em determinada área que é contratado para o partilhar com os alunos. Compreendo a enorme responsabilidade que é ensinar alguém. Partir de uma experiência real, adquirida pela repetição dos dias, de um determinado mercado laboral, e partilhar esse conhecimento em sala de aula. Durante seis meses, tento passar a bagagem que levo e incentivar miúdos a enfrentar o mundo com o brio possível.
Não deixa de ser curioso: nunca equacionei ser professor. Talvez por rebeldia ou por vontade de não me identificar com os meus pais. Ou por perceber que há uma exigência e responsabilidade enormes quando temos mentes ávidas de conhecimento a escutar-nos. Há uns tempos troquei umas mensagens com uma antiga colega de faculdade. Falámos sobre o que temos feito e em que trabalhamos. Não me ocorreu dizer que também sou professor. Não vejo como profissão, de facto, na minha vida. Mas sim uma missão que tenho a cumprir um semestre por ano. Não quero, de todo, retirar qualquer tipo de capital social ou intelectual de um pseudo-estatuto. Já temos demasiados ego insuflados que acham que a capa do ensino lhes confere uma aura especial e de destaque. A Sofia é Doula. E aprendi com ela que a palavra vem do grego: significa servir. Gosto mais das interpretações modernas que incluem acolher, ajudar. Mas servir é, também, tudo isto, quando feito em liberdade. Um professor também serve. Deve escutar, permitir-se aprender continuamente e nunca assumir uma postura altiva do alto da sua sabedoria. Porque essa prepotência e arrogância é o que enfraquece quem ensina e vicia os sistemas pedagógicos e torna as aprendizagens mais pobres. Tento ser, portanto, o oposto disto. Servir quem ensino da melhor forma que posso.
Tento dar o máximo de conhecimento possível do que é o mundo real e as aplicações práticas do que ensino. E não só na componente técnica: há um lado de gestão humana e emocional que, por vezes, é mais de metade do trabalho. Porque trabalhar em equipa é trabalhar com diplomacia. No sector específico em que trabalho, o da cultura audiovisual, dependemos sempre de uma profunda diplomacia no trato com outros. Há momentos em que é impossível: há egos frágeis que não lidam bem com crítica ou com resistência intelectual ao seu autoritarismo. Por isso não posso separar a técnica da prática real, que inclui os outros. E ensinar é precisamente isto: passar conhecimento, concebê-lo como interseccional com tantos fatores da realidade e articulá-lo para que se torne sabedoria. Neste mundo de informação tão abundante e disponível, precisamos de quem ensine a pensar e a relacionar.
Tenho mais um semestre para tentar ser o professor que sempre quis ter. Que me respeitasse, tratasse com igual valor e que quisesse aprender comigo tanto eu queria aprender com ele. Encontrei alguns assim, sem preço, aves raras. Sei que é difícil calçar esses sapatos. Mas tenho a intenção; por isso, vou tentar.
Abraço-vos,
João
Esta semana ficámos a saber que a carolina novo foi uma das vencedoras da Bolsa da Penguin. Senti um grande orgulho por ela, principalmente porque tenho acompanhado a sua escrita e reconheço uma potencial grande escritora quando leio uma. À escrita madura, com um estilo muito próprio e que por muitas vezes me emocionou, acresce uma pessoa afável, acessível e capaz de conversar - escutando e falando na medida certa. Coisa rara nos dias de hoje. Desejo-lhe a melhor das sortes para esse manuscrito que já quero tanto ler.
A Joana Araci escreveu um maravilhoso artigo sobre uma realidade que sabia que existia mas desconhecia por completo: as tradwives. Esta moda que pegou em força nas redes sociais promove um regresso ao papel obsoleto e paupérrimo da mulher servil e obediente, dona da casa. O mais fascinante é que esta promoção é feita por mulheres. Uma espécie de exemplo prático de vítimas de Estocolmo de uma estrutura patriarcal. O artigo aborda, claro, a questão da classe e a interseccionalidade de tudo isto. Está em inglês, mas recomendo vivamente a quem o conseguir ler.


Temos que abrir o clube de fãs da Carolina. Obrigado pelas palavras, Raquel.
Que bom haver professores, mesmo que apenas um semestre por ano, que fazem diferente e que são humanos na sua prática! Obrigada por acolheres, ajudares!
A Carolina Novo é uma belíssima escritora e mal posso esperar por ver o seu livro nas livrarias deste país! ❤️
Também gostei imenso do artigo da Araci! Mas fico mesmo triste por ainda haver tantas mentalidades subjugadas pelo patriarcado 🫠