Sobre ser Pai
Sobre redenção, cura e outras divagações sobre a experiência transformadora da paternidade.
Olá,
Tenho a ideia que a grande maioria das pessoas sofre uma profunda transformação quando se vê a braços com a paternidade. Ser-se pai, ou mãe, é uma experiência indelével onde passamos a ter na nossa existência uma pessoa com maior importância que nós e pela qual somos responsáveis.
Quando a Sofia engravidou do nosso filho mais velho, depois do terror inicial por não ter sido planeado, não tive a mínima noção do que aí vinha. Recordei alguns padrões familiares com nascimentos e senti que as coisas simplesmente iriam fluir, porque assim é o ciclo da vida. Nada me prepararia para a avalanche de questionamentos, reflexões e emoções que todos os dias enfrento desde que sou pai. E que há muitas maneiras de vivermos essa paternidade. Hoje sei que este turbilhão de emoções acompanhar-me-á para sempre.
Há uns tempos, com o meu terapeuta, cheguei a algumas conclusões sobre a minha experiência de paternidade e o quão transformadora foi. Sempre tive tendência a não querer sentir. Para além da socialização numa masculinidade heteronormativa que não me permitiu sentir e refletir sobre emoções, sempre fugi de lidar com a complexidade de sentir e do desconforto em geral. Talvez por insegurança e medo de não conseguir lidar com os meus processos mentais. Ou recear estar, simplesmente estar, com as minhas emoções: é desconfortável sentir e permitir sentir. Pode ser, por vezes, doloroso. Consequentemente, fui crescendo com mecanismos e comportamentos para não lidar com o que sinto: a exuberância de um palhaço da turma, o humor como carapaça, a necessidade absurda de aceitação pelos outros e, mais tarde, claro, os vícios. Numa outra manifestação de não querer sentir, nunca houve um autocuidado. De forma inconsciente, não me sentia digno de ser cuidado, não me sentia merecedor. Isso refletia-se na forma como me vestia. Como comia, como não me exercitava. Como me via enquanto estudante. Como recorria aos meus vícios de forma destrutiva. Não era só a forma de lidar com uma baixa autoestima. Era um total desapego com quem era. Nunca soube, nem quis, cuidar de mim.
Voltemos à terapia e ter sido pai. Não foi imediato, até porque inicialmente encontrei muita resistência interna à perda de autonomia que a chegada de um filho acarreta. Mas enquanto ainda perpetuava alguns comportamentos menos saudáveis, comecei aos poucos a perceber que para cuidar daquele ser pelo qual nutria tanto amor, teria que cuidar de mim também. Tive sorte com a minha companheira: através de empatia, amor e muitos avisos, conseguiu que eu percebesse que algo em mim teria que mudar. E porque, no fundo, eu queria que o meu filho - e, hoje, quero o mesmo para os dois - crescesse de forma diferente da minha. Queria manter o mesmo amor genuíno que é muito típico da minha família, mas que ele fosse expressado de forma diferente, com outros condicionalismos e a fomentar outros tipos de desenvolvimento. Queria quebrar ciclos de trauma. Para alinhar estes meus desejos e ambições com a realidade, tive de mudar. Ultrapassar a resistência inicial de me deixar ir em piloto automático e perpetuar comportamentos e traumas geracionais; parar para pensar. Olhar para mim e perceber o que tenho de mudar para poder ser o modelo que quero que os meus filhos vejam. E não uma mudança oportunista e calculista de modo a manipular e moldar as suas atitudes e comportamentos. Porque, no fundo, sei que se a mudança não for genuína e roçar a superficialidade, não acontece nada. Há apenas uma imagem fosca, turva, projetada na parede de uma caverna como a de Platão.
Tentei muitas vezes mudar o meu comportamento antes da paternidade. Ser mais consistente com práticas saudáveis, acabar com vícios, aprender mais. Quase sempre falhei e, admito, os meus maiores sucessos foram fruto de uma ajuda impagável de amigos a quem estou grato. É hercúlea a tarefa de cuidar de nós mesmos quando não há esse interesse e quando é mais fácil anestesiar o que sentimos. Não podemos ajudar quem não quer ser ajudado.
Quando o meu filho mais velho nasceu e o vi pela primeira vez, chorei baba e ranho os primeiros minutos. Porque foi um parto intervencionado em bloco operatório e eu fiquei a aguardar quase uma hora à espera de saber se a mãe e filho estavam bem. Chorei pela descarga de adrenalina que foi sabê-los bem, conhecer o rosto do meu primeiro filho e ser assoberbado por um sentimento de amor indescritível. Mas, olhando em retrospetiva, também chorei porque percebi, naquele momento, que havia algo mais importante que eu próprio no mundo. Senti e percebi isto de forma biológica na altura, e voltei a sentir o ano passado quando o meu segundo filho nasceu. Multiplicação, não divisão. Alguns anos depois desse primeiro parto, sentado a conversar com o meu psicólogo, ele disse-me algo que fez muito sentido. Que a experiência da paternidade, para além do cliché que muda as pessoas, no meu caso, permitiu-me pela primeira vez cuidar de mim. De querer fazê-lo. Encontrar uma razão externa para justificar o nosso autocuidado pode não ser o mais saudável, mas esse nascimento, essa mudança, fizeram-me cuidar de mim. Fizeram-me olhar para dentro, procurar ajuda, pensar nos meus valores e na forma como quero viver a minha vida. Larguei comportamentos e vícios que sentia que não me serviam; alguns custaram mais que outros, mas foram desmames que se concretizaram de forma efetiva. Tenho um orgulho incomensurável por estas conquistas. Passei a olhar-me como alguém merecedor de cuidado, para poder cuidar de outros. Para ser a melhor versão para as pessoas de quem amo, preciso de me nutrir física, emocional e psicologicamente da forma mais saudável possível. Comecei, portanto, a amar-me.
Ter sido Pai mudou-me, por me permitir cuidar de mim. Quando abraço os meus filhos na cama de manhã e misturamos a nossas caras de sono uns nos outros, sou novamente assaltado pela felicidade e privilégio que é ser pai daqueles dois. E quanto aprendo com eles. Fazem-me crescer, ser uma melhor versão de mim. Com hábitos mais saudáveis. Ter sido Pai tornou-me, finalmente, adulto. Larguei a pele de infanto-irresponsável para me tornar ciente de quem sou, com tudo o que isso acarreta: um pai graúdo, imperfeito e a tentar dar o seu melhor.
Abraço-vos,
João
P.S. Faz hoje uma semana que saiu o novo disco do Fabiano do Nascimento e Sam Gendel, The Room. Uma misturada maravilhosa de jazz e sonoridades do Brasil. Ide ouvir.

