Sobre Poder
Ou o preço da autodeterminação.
Olá,
Há dinâmicas de poder que me ultrapassam. O poder, em si, é um mistério para mim. É um exercício de coacção socialmente aceite: têm poder sobre nós aqueles com as ferramentas para nos coagir e interferir nas nossas necessidades mais básicas. A segurança, o conforto, a pertença, a aceitação. Edificamos, ao longo da história, sociedades assentes em estruturas de domínio construídas através do poder e da sua percepção. Construímos narrativas em torno do poder: a família, a religião, a política, a economia são regidas por predicamentos assentes em relações assimétricas de poder.
Uma relação de poder é, regra geral, desigual. É um exercício de domínio sobre outra pessoa. Vemos isso nas estruturas familiares em que se confunde responsabilidade com autoridade, principalmente com crianças. Reforçamos atitudes e pensamentos que desequilibram a balança e minam o igual-valor entre os diferentes membros do núcleo familiar. Queremos coagir as crianças à nossa vontade ao invés de procurarmos uma comunicação que incute responsabilidade e aprendizagem. É esta a linha pedagógica, mesmo com os avanços culturais e consciência dos profundos impactos na maturidade psicológica e emocional das crianças. Mais tarde, estas dinâmicas são replicadas nas escolas, por professores, auxiliares e colegas. Cria-se um ambiente autofágico, que se alimenta de relações assimétricas de poder para reforçar estruturas já existentes e criar novas. Uma pescadinha de rabo na boca que condena geração atrás de geração. As crianças crescem e tornam-se nos adultos que compõem o tecido empresarial e produtivo que replica os mesmos comportamentos, as mesmas relações. São também as elites políticas e burguesas que detêm um poder cujo impacto é enormemente maior. E o ciclo repete-se. O poder alimenta-se das narrativas que cria, da crença das pessoas, e reforça-se sistematicamente. Não é de admirar o surgimento do capitalismo como sistema político e económico vigente, nem tão pouco a constante concentração de poder num grupo de pessoas cada vez mais pequeno.
Voltemos atrás, à escola. As crianças, com uma literacia emocional ainda a ser adquirida, bebem dos exemplos que as rodeiam. Em casa, mas não só. A escola é composta por visões e articulações sociais diferentes, com proveniências distintas, com experiências e relações de poder diferentes. Nessa amálgama cria-se uma espécie de lotaria social onde cada ambiente escolar assume uma forma específica. Não há escolas iguais, nem turmas iguais, porque os alunos e as suas famílias e contextos e ambientes não são iguais. O poder infere essa desigualdade e alimenta-se dela. Aqui nasce o bullying, por exemplo. Essa destilação de dinâmicas de poder, de trauma geracional, de influência e pressão social. Gota a gota criamos dinâmicas de poder desiguais, construímos narrativas cujas crenças se sustentam em violências psicológicas, verbais e físicas. Quando escolhemos utilizar ferramentas que podem coagir ou ferir física ou psicologicamente alguém, dá-se um profundo desequilíbrio nessa relação. Seja através de um maior portento físico, ou capacidade de perceber como magoar verbal e psicologicamente alguém ou explorar uma característica diferenciadora. Perde-se um equilíbrio e nasce uma relação assimétrica de poder.
Dói ver um filho exercer essa dinâmica de poder. Sei que esse exemplo não vem de casa mas não deixo de pensar que poderá haver parte de um trauma, de um ciclo geracional que extravasa geneticamente: há pessoas que exerceram, e exercem, o seu poder de forma maldosa. Fazemos os possíveis para minorar essas influências, mas rapidamente o medo regressa: será que há algo na nossa forma de agir, uma cicatriz ainda em processo de cura, que possa ter dado os exemplos errados? Sacudo esta culpa e receio e lembro-me de que a influência não somos só nós. É a escola, esse cosmos único, com ambientes voláteis e exemplos que deixam demasiado a desejar. Lembro-me que as crianças ainda estão a maturar os seus mecanismos para lidar com a frustração, com não se sentirem vistos, acolhidos e respeitados. É preciso toda esta consciência para conseguirmos acolher estes comportamentos que me deixam, como pai, como ser humano, desconfortável. O poder é, de facto, um mecanismo que vou compreendendo a custo.
Os exemplos que vêm do mundo não ajudam. Os valores que prezamos no nosso núcleo familiar vão sendo postos em causa pela nova ordem mundial. O respeito pelas instituições, que foi sendo erodido nas últimas décadas, caiu por terra. O conjunto de regras e leis que se regiam sob uma suposta moral ocidental já não existem. Neste processo, perdemos o respeito pela autodeterminação: individual e colectiva. Perdemos um pouco mais de civilidade e voltámos a reger as nossas relações pela força. Perdem os mais vulneráveis, ganham os privilegiados. As relações de poder, outrora mais veladas e sujeitas a um escrutínio ético e moral, exercem-se na nova lei do mais forte. O poder sempre pôde tudo. Agora fá-lo às claras, assumido, arrogante e prepotente, deixando bem claro que a era da razão terminou e voltámos, novamente, ao argumentário musculado. Os sinais estavam lá todos. As pessoas que conhecemos que se sentem no direito de manipular e coagir quem as rodeia. Os fanfarrões nos recreios da escola. O exercício do pequeno poder de quem detém percepcionada autoridade. Mas ainda se exigia liberdade destas dinâmicas desiguais e desonestas em sussurros. Agora, grita-se. As crianças ouvem. Elas vêem. Como lhes vamos explicar que nos elevamos através do respeito, que podemos conquistar pessoas conversando, que somos todos merecedores dos mesmos direitos num mundo onde se toma tudo o que se quer pela força? E até que ponto não estaremos nós, esta pequena bolha de iludidos, a criar futuras vítimas ingénuas a crer num mundo que simplesmente já não existe?
As ferramentas que possuo para lidar com tudo isto são as mesmas de ontem e são as que conseguirei partilhar para o futuro dos meus filhos. O conhecimento como instrumento de crescimento individual e colectivo e a aspiração a uma vida justa e digna para todos os seres do planeta. A abolição da exploração dos outros, o apoio mútuo, solidariedade, respeito e empatia. Sou obrigado a acreditar em todos estes valores pois, se perder a fé, tornar-me-ei na doença que assola o mundo e nos está a fazer regressar a um estado de bestialidade. Terei que correr esse risco, então. A crer no melhor da humanidade e continuar a passar os mesmíssimo valores aos meus filhos. E, a dada altura, cada um deles terá escolhas a fazer. Guardo a esperança que, à medida que vão crescendo, percebam que vale a pena lutar por um mundo melhor e que essa mudança começa em nós. Espero que as chapadas do mundo não os façam ter outro entendimento e que o exercício do seu poder seja sempre para benefício de todos.
Abraço-vos,
João
Este texto foi gentilmente revisto pela Raquel Dias da Silva e, por causa disso, finalmente, foi escrito de acordo com o antigo acordo ortográfico.


As relações de poder foi um dos temas do Congresso que organizamos anualmente.
A tua reflexão lembra-me que o poder, como disse Foucault, não se possui: exerce-se. E começa cedo, na linguagem, nos gestos, nas relações quotidianas. A família e a escola não são apenas espaços de socialização; são microfábricas de hierarquias. Pierre Bourdieu dizia que o poder simbólico se reproduz através daquilo que naturalizamos: o “normal” que nunca questionamos.
A questão que colocas, se estamos a criar vítimas ingénuas num mundo violento, é dolorosa. E talvez a resposta não esteja em blindá-los da realidade, mas em ensiná-los a nomeá-la. Dar-lhes vocabulário para reconhecer a manipulação, para distinguir autoridade de autoritarismo, para dizer “não” quando todos calam. Isso não os livrará das chapadas do mundo, mas pode dar-lhes a espinha para não se dobrarem a ele.
Sim, o poder é uma linguagem aprendida. Mas o respeito também é. A empatia também. E há quem as fale com fluência, mesmo em ambientes hostis. Talvez a nossa tarefa não seja protegê-los do mundo, mas prepará-los para nele fazerem diferente.
Se for para correr riscos, que seja por isso.
"E até que ponto não estaremos nós, esta pequena bolha de iludidos, a criar futuras vítimas ingénuas a crer num mundo que simplesmente já não existe?"
Isto mexeu comigo. Nem sei bem explicar porquê. Acho que é porque pões a nu a hipótese(?) de que esse mundo já não existe sequer. Quero acreditar que ainda há pessoas como nós que vão vingar e conseguir criar um mundo melhor. Mas tenho medo de estar a ser ingénuo, lá está. E não tenho filhos ainda mas gostava de ter um dia. Acho que também me dá medo pensar em que mundo vão eles crescer.
Enfim, obrigado por me fazeres pensar como sempre e pelo texto.