Só e bem acompanhado.
Enfrentar a solidão em frente a um palco.
Olá,
Eu gosto e detesto estar só. Gosto da calma que me recarrega as baterias quando estou sossegado em casa, sem me cruzar com vivalma, a fazer as coisas à minha velocidade e bel-prazer. Gosto de ir para uma esplanada num dia de sol e ficar a ler o jornal ou um livro. Gosto de passar e entrar numa livraria com tempo e ver os livros que quero ver com o tempo que cada lombada precisa. Também gosto de ir ao cinema sozinho. Lembro-me de ir aos cinemas Alfa, ao pé de casa, ver os filmes de ação que os meus pais não tinham paciência para ver comigo. Deixavam-me à porta e vinham-me buscar no final da sessão. E eu adorava esse momento só meu. Mas na adolescência descobri um desconforto na falta de companhia; não gostava da sensação de estar sem amigos nos intervalos da escola, ou de ir a um evento sem ninguém. Mesmo que soubesse que estariam lá pessoas que conhecesse, gostava sempre de chegar acompanhado. Nunca fui de ir para o Bairro Alto e logo ver quem encontrava. Se o fiz, apanhei alguém conhecido na linha do metro e fomos juntos nessa descoberta. Até há pouco tempo, nunca fui a um concerto sem companhia.
Sou fã de hardcore há muitos anos. É um gosto antigo que partilho com a Sofia; a mesma Sofia que uma vez foi a um concerto de Hatebreed sozinha e sempre achei esse relato fascinante. Ela queria muito ir ver, não tinha companhia e lá foi. Este conceito de ir sem ninguém a um concerto fazia-me espécie. O desconforto de chegar sem ninguém com quem partilhar o momento, ninguém de confiança com quem conversar. O medo de ser julgado como alguém que foi sem ninguém - o que podem pensar de mim, que tipo de sociopata serei. O último ano tem sido muito importante porque, realmente, deixei de fazer fretes. Não faço coisas que não quero fazer e isso inclui deixar de pensar no que os outros pensam de mim. Deixei de me forçar a acabar livros que não quero, deixei de ver filmes ou séries que me aborreçam. De ir a eventos que não me apetece ir. E deixei de ter em consideração esse público imaginário que me aponta o dedo constantemente e com o qual procuro aprovação. Cagari, cagaró1 para tudo isto.
A música voltou a entrar em força na minha vida. Vivemos uma relação complicada, nos últimos anos: atava e desatava. Dei por mim a sentir que ouvia o que deveria ouvir (não me perguntem, também não sei bem o que isso é). Agora estamos estáveis e felizes: há música na minha casa, no meu trabalho, nos transportes e ouço, somente, o que me apetece. Há uns meses soube que Stick To Your Guns (STYG) vinham a Lisboa. Queria tanto ir vê-los que comprei o bilhete sem pensar com quem iria. Quase que cheguei a ter a companhia de um amigo, mas acabei mesmo por ir sozinho. Estava meio que ansioso, aquela impressão na barriga parecida com conhecer uma nova turma quando entramos no secundário ou na faculdade. Cheguei antes da hora. Vi as mesas de merchandise com calma e comprei uma t-shirt dos No Cure, uma das bandas de abertura. Era o guitarrista que estava na banca e falámos um pouco. Aproximei-me do palco e sentei-me numa das paredes laterais a curtir o som ambiente que vinha do PA. Observei as pessoas que iam entrando e sorri ao ver gente jovem a renovar o movimento. Pouco depois estava a começar a primeira banda e todo o desconforto desapareceu. As luzes apagam-se e é ao som das guitarras distorcidas que dei por mim a simplesmente existir. Há uma enorme liberdade em estarmos só nós na linha da frente a dançar e a cantar com o resto do público. A cada intervalo, troca de banda e soundcheck ia dar uma volta; cruzava-me com as pessoas e voltava pronto para mais. Saí de lá com o coração cheio: exorcizei o que precisava, vi STYG como queria, colado na frente a berrar as letras das músicas. Fiquei encharcado em suor, com dores nas pernas. Valeu a pena.
Desconstruí o desconforto de estar só. Porque estava bem acompanhado por quem sou; porque fui ouvir música que gosto e nutrir a minha alma. Gostava que os meus filhos não demorassem tanto tempo como eu a perceberem que a melhor companhia de todas são eles mesmos.
Abraço-vos,
João
Andei a ouvir o último disco da Gisela João. Como artista, nunca me cativou a atenção, mas este último álbum reúne várias interpretações de canções de intervenção de que gosto muito e lá fui ouvir. Gostei muito: da interpretação, da nova roupagem a clássicos e de ver uma artista de renome a arriscar a música de intervenção neste momento.
Tenho estado a gravar poemas. O primeiro foi uma espécie de tributo à Maria Teresa Horta porque achei que não haveria melhor maneira de honrar a sua memória do que dizer um dos seus poemas. Depois resolvi oficializar este segmento e pedi sugestões no chat deste Substack: gravei o Adeus, do Eugénio de Andrade e esta semana foi a Defesa de um Poeta, da Natália Correia. Espero que estejam a gostar de os ouvir quanto eu de os gravar.
Saiu o novo podcast do Rui Tavares no Expresso: Tempo ao Tempo. Ele descreve-o na perfeição: estórias sobre História. Gostei muito de ficar a saber mais sobre a origem da música do assalto ao restaurante no Pulp Fiction, bem como de um certo homem que se tornou dos primeiros a deixar um registo das suas memórias para delícia da posteridade. É despretensioso e interessante e faz-nos falta mais conteúdo deste em Portugal.
Lê-se ca-ga-rih ca-ga-roh (sílaba tónica é a última em ambas as palavras). É um caguei e andei mais moderno que roubei a uma pessoa com que me cruzei há uns anos. Ficou.



Gosto bastante mais da minha companhia,do que estar com muita gente como se estivesse só.
Já fui ao cinema sozinha, já fui de férias sozinha, já fui aos meus restaurantes preferidos sozinha…
Para uma introvertida, o difícil é encontrar conforto na companhia.
Soube que, em Abril, vem cá a Orquestra de Viena… Estou a ponderar ir… Sozinha!