Silêncios
Uma carta aos meus filhos sobre a Palestina.
Olá,
Este texto esteve para ser escrito quando, no grupo de Whatsapp chamado Parents For Peace foi dado o mote para se escrever uma carta aos nossos filhos sobre o que se estava a passar na Palestina. Cheguei a escrever o arranque do texto, mas não o consegui concluir. Talvez porque me tenha sentido assoberbado com a violência do que se estava a passar. Ou porque ficava sem saber o que escrever para que um dia os meus filhos pudessem ler. A dimensão histórica da colonização palestiniana precisaria de imensas contextualizações para escrever uma carta que expressasse o que realmente sinto sobre o assunto. Mesmo assim, vou tentar concluir este texto da melhor forma que posso, porque neste momento sinto uma grande necessidade de escrever sobre tudo isto.
O gatilho foi uma DM que recebi no Instagram. Pontualmente, partilho conteúdos sobre a situação em Gaza e do povo palestiniano. Contas de jornalistas no terreno ou organizações que tentam, de alguma forma, trazer consciência para a barbárie e apoio para as vítimas desta ocupação. Sim, ocupação. É importante utilizar as palavras corretas para descrever o que se está a passar no Médio Oriente. Em 1948, o projeto sionista e colonialista, com a conivência dos países mais poderosos do mundo, invadiu a Palestina para criar o estado de Israel. Algumas horas após partilhar um reel ou um post de uma destas contas, recebi a tal mensagem de alguém com quem não falava há anos.
Quando é que libertam os reféns?
Fomos do mesmo curso na faculdade, temos amigos e conhecidos em comum. Não houve um cumprimento, uma saudação, apenas uma frase seca, sem contexto. Percebo que tenha tido a intenção de ser provocatória e mostrar desacordo com as minhas partilhas. Na minha resposta, cumprimentei-o, expliquei-lhe que condeno as atrocidades do Hamas do 07 de Outubro de 2023, da mesma forma que condeno a barbárie perpetuada há mais de 75 anos pelos Israelitas. Tentei ser claro: não confundo a Palestina com o Hamas, nem os Judeus com Sionistas. As palavras têm peso e importância e, acima de tudo, significado.
Gostava que fosse assim tão simples João. Eu não tenho partidos nesta luta mas acho que não devias propagandear uma cultura que quer o oposto de nós.
Terminei a conversa rematando que não há nada mais simples que condenar o genocídio e limpeza étnica onde quer que seja: na Alemanha Nazi, na China, na Sérvia, no Ruanda, na Palestina. Nada justifica o assassinato e mutilação de crianças. E que repudio, veemente, qualquer tipo de generalização do povo muçulmano na forma de Islamofobia.
Isto é racismo, ódio e ignorância, sejam conscientes ou não. É o resultado da constante propaganda sionista nos nossos media, a formatar o tipo de comunicação e a forma de entregar as notícias. Onde são assassinadas “vítimas”, “mulheres” e “crianças” Israelitas. E onde morrem Palestinianos, desumanizando-os, generalizando-os como terroristas, intolerantes e arautos dos valores antitéticos do ocidente. Enquanto civilização, legitimamos um genocídio, em direto e em múltiplas plataformas.
O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons. - Martin Luther King
Se nos permitimos ignorar e ficar em silêncio perante a monstruosidade em curso, ganham os cruéis interesses sionistas, o egoísmo dos grandes grupos económicos. Estes conflitos servem interesses e dão lucro. Ao mesmo tempo, perdemos a humanidade, a empatia. Demonizamos os outros e glorificamos os nossos enquanto nos esquecemos de que fazemos todos parte da mesma espécie. Como pai, não posso ficar calado com a desculpa da complexidade histórica do conflito. Pouco me importa, neste momento, discutir a solução de dois estados ou sublinhar a culpa do regime sionista. Tenho uma necessidade imensa de que a matança cesse e que paremos que desculpar a limpeza étnica que está a acontecer em nome de uma suposta auto-defesa. Como pai, não sei como explicar a cumplicidade do Ocidente para com um apartheid e genocídio perpetuados há décadas. O último ano foi só mais uma pedra no charco, onde se intensificaram as mortes em emissões diárias nas redes sociais para que nós possamos continuar a fazer scroll. Temos fugido demasiadas vezes do desconforto de assumir que não temos como enfrentar o horror, mas que não podemos ficar de braços cruzados. Precisamos continuar a falar sobre o assunto, de forma educada e inteligente. Precisamos manifestar e mostrar o nosso desagrado às classes dirigentes, por mais inútéis que sejam as nossas ações. A história vai julgar-nos, da pior forma. E acho que que os meus filhos vão herdar um mundo ainda mais monstruoso e desumano e temo por eles. Temo pelas trevas e violência humana do futuro. Vamos pagar caro o silêncio. Porque se hoje ignoramos o que se passa na Palestina, não consigo imaginar o horror do amanhã.
Abraço-vos,
João
Esta semana deixo-vos este trabalho da Abby Martin, que ajuda a contextualizar o que se passa em Gaza nos dias de hoje. Um trabalho importante e magistralmente bem feito.


O VÉU DOS CONCEITOS OBSCURECE A MORALIDADE
Não deixo de pensar quantos dos nossos problemas no mundo advêm da nossa obsessão com a identidade.
Sob o véu de uma identidade atribuída aos muçulmanos, agrupam-se todos os civis no mesmo rótulo de "terroristas". Sob o véu da identidade atribuída aos animais não-humanos, agrupam-se milhões de espécies com o mesmo rótulo de meros "objetos".
É assim que se fortalece a extrema-direita. E deriva diretamente do ambiente religioso maniqueísta do ocidente (judaico-cristão e também islâmico), que serviu de pretexto durante séculos à exploração de outros povos, escravatura e autos-de-fé.
É a própria obsessão pela pureza e pela identidade, pela separação rígida entre "bons" e "maus" que obscurece como um pesado véu a compaixão, a capacidade fulcral de nos pormos no lugar do outro.
Por isso a filosofia mais libertadora que conheço é o budismo, que fornece técnicas práticas para se perceber que todos os conceitos e todas as nossas identidades são, em última análise, ilusórias.
O budismo defende que uma rosa é feita de coisas que não são uma rosa. É feita de água (de nuvens, de oceanos), de luz do sol, de atmosfera e de solo. Esse solo pode até ter levado composto, portanto é feita de lixo também.
E a mesma desconstrução pode ser feita em relação a nós. Eu sou exatamente o quê? Qual das minhas células sou eu? Não sou também feito inteiramente de água, sol, ar e terra através dos alimentos que ingiro? Não sou movido profundamente por afetos a outras pessoas? As minhas ideias não são selecionadas e recicladas da cultura geral, de milhões de autores?
A crise do ocidente é a crise da identidade que não existe.