Sermos Nós
Olá,
Se há algo que desejo muito para os meus filhos é que ambos sejam quem quiserem ser. Da forma mais livre de condicionamentos possível. Há uma liberdade impagável quando nos permitimos ser, simplesmente, quem somos. Nem sempre consegui viver essa liberdade em pleno, castrado por amarras que me eram impostas e outras que eu próprio me impunha. A grande maioria da humanidade vive assim: presa a condicionamentos externos, e internos, fruto do meio onde vivem, de como foram criados e das narrativas que foram criando de si mesmos.
Sermos nós próprios tem um custo, principalmente quando traços da nossa personalidade não se conformam com a normatividade vigente. Começa logo no sistema de educação, que está desenhado para um tipo específico de aluno e que, consequentemente, exclui todos os outros tipos de alunos. Ou temos um padrão comportamental que gosta de regras, rigidez e organização sistemática ou dificilmente vamos conseguir tirar verdadeiro proveito do nosso formato de aula. E este sistema de ensino foi desenhado para adequar os futuros membros da sociedade ao seu próprio funcionamento: capacidade de trabalhar mais de um terço do dia, obedecer às regras, leis e normas que vigoram, ser membros produtivos de um sistema que visa apenas o aumento exponencial do consumo. Aprendemos a beber o conhecimento que outros consideram relevante, sem questionar. Podemos, nestas condições, ser verdadeiramente livres?
Fomos domados pelo constante sequestro da nossa atenção. Nos telemóveis, computadores, televisões. Organizámos as plataformas online para facilitarem - e incentivarem - a nossa cooperação. O nosso consentimento é co-criado com as narrativas que nos são alimentadas pelos media que servem os interesses de quem os detém. Pensamos aquilo que alguém definiu e seguimos os ciclos noticiosos que parecem orquestrados: basta passar os olhos diariamente pelos vários canais, jornais e outros tipo de comunicação social para perceber que há uma linha orientadora com origens opacas. Falta transparência, pluralidade e pensamento crítico. Podemos, nestas condições ser nós mesmos?
E se aquilo que achamos que somos, a história que contamos sobre nós mesmos, condicionada por quem nos criou (sendo essas pessoas também vítimas do mesmo sistema), formatados a pensar e refletir de determinada maneira, não corresponder àquilo que verdadeiramente poderíamos ser? E se aquilo que podemos intuir - sentir nas vísceras - que deveríamos ser provocar um medo primitivo de sermos rejeitados? Pode existir liberdade no medo?
Sermos nós, sem desculpas, verdadeiramente nós, é um esforço hercúleo. E sermos aceites por isso parece uma utopia. Porque quando somos verdadeiramente nós, chocamos contra um sistema e as pessoas que fazem parte dele. Para poder ser eu mesmo, preciso de me munir de ferramentas que permitam aguçar o sentido crítico e conseguir reflexões para além da superfície, do imediato, do que é esperado e normativo. Tornamo-nos investigadores do dia-a-dia, em vez de meros espetadores ou curiosos. Questionamos o que nos rodeia e tentamos perceber os vários ângulos. Para isso é preciso ler, estudar factos e contraditórios e, com pedaços da nossa personalidade, moldar a nossa própria visão do mundo, sem medos do que outros possam pensar. Sustentados na nossa razão mas, e isto é o mais importante, sempre abertos a mudar de opinião. Não conheço outra maneira de ter pensamento verdadeiramente livre. Haverá, inevitavelmente, choques. Temos de tomar o pulso e perceber se estamos a ser parvos, egocêntricos ou ser quem somos - mesmo que isto englobe os dois primeiros adjetivos desta frase. Todos vamos errar neste processo, vamos ter a ilusão do conhecimento e vamos ser egoístas. Falhar faz parte da nossa humanidade, também. Mas a verdadeira arte, diria eu, é saber quando estamos a moldar o nosso comportamento para sermos aceites e nos enquadrarmos ou quando estamos a praticar o bom senso da convivência em sociedade. Cabe relembrar que a nossa liberdade acaba quando tem consequências na dos outros.
Olho para os meus filhos e, no fundo, aquilo que mais desejo é que possam ser livres da forma mais confortável possível. Porque haverá sempre dissabor, seja na conformação que sacrifica parte do que somos, seja na confrontação do que representamos quando chocamos com as maiorias vigentes. Aquilo que posso fazer é facilitar-lhes o acesso a ferramentas que lhes possam ser úteis: livros, cultura, pensamento crítico e questionamento constante. Depois, é esperar. Alea Jacta Est.
Até para a semana,
João
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Esta semana descobri a Ebonie Butler da página de Instagram Metal & Coffee. Foi através de um dos seus reels que me deparei com um dos álbuns que mais prazer me deu ouvir nos últimos anos. Falo do GRIEF dos Zeal & Ardor. Música pesada, que oscila entre diferentes fronteira do rock e metal. Uma viagem sonora através de vários estilos que acabam por encantar os fãs do género, sendo eu um deles.


Que bom que haja pais como tu que queiram criar filhos despertos para os problemas e para as benesses, crianças que venham a ser cidadãos ativos!
Na realidade, também gostaria de ter filhos, e se não fosse biologicamente necessária a colaboração de uma mulher, acho que já os teria tido...
Pais como tu são uma esperança de que um dia o sistema se vergará sob o peso das suas próprias mentiras, e que tenhamos uma nova sociedade!