Sejam Exigentes
Afinal, queremos tudo.
Esta crónica foi escrita em Janeiro desde ano e acabou por não ser publicada na altura. Esta semana senti-me assoberbado e com alguma dificuldade em escrever, por isso repesco este texto que tinha gaveta. A sincronicidade interessante é que tenho pensado muito sobre este mesmo tema. Espero que gostem.
Olá,
Terminou esta semana o mês de Janeiro. Na origem do seu nome encontramos Janus, deus da antiguidade romana, que era uma mediador entre tempos, entre o passado e o futuro, entre o que passou e o que aí vem. E estes trinta e um dias têm servido precisamente para mediar transições e plantar as sementes que espero que germinem de forma saudável.
Neste mês, dou as últimas aulas do semestre. Também é quando me despeço dos alunos e lhe desejo boa sorte para o resto do curso. Apanho-os no arranque da sua formação, também eles numa espécie de Janeiro académico, na transição do ensino obrigatório para o opcional, da adolescência mais infantil para uma mais graúda. Relembro-os da exigência do mercado de trabalho: da perseverança e trabalho árduo que são requisitos mínimos que não garantem absolutamente nada. Espero que eles retenham - mais que a teoria e o manuseamento do software - que a exigência deve partir deles mesmos. A bitola é definida por nós; podemos aprender valores e padrões enquanto crescemos e ter referências mais ou menos saudáveis no que ao trabalho diz respeito. No fim das contas somos nós que definimos que trabalhador queremos ser e como nos queremos relacionar com o trabalho. Nessa idealização criamos uma expetativa. A exigência vem quando alinhamos essa expetativa com as nossas ações.
É fácil idealizar trabalho árduo, responsabilidade, criatividade, trabalho de equipa. Difícil é concretizar tudo isso, de forma alinhada com os nossos valores, sabendo que tudo o que fazemos é muitas vezes ignorado. Nem sequer é tido em qualquer tipo de contas. O mercado de trabalho é um sistema de opressão do qual não podemos fugir se queremos subsistir. E sermos exigentes com o que fazemos pode também acabar por ser um tiro pela culatra.
Mas na exigência, encontramos brio. Não perfecionismo - esse Belzebu socialmente aceite que esconde grandes inseguranças e traumas - mas brio. Cuidado e orgulho no nosso trabalho, não para que seja perfeito, mas que seja genuinamente feito por nós da melhor forma que sabemos. Claro que, depois, a linha fica ténue. Onde acaba o esforço saudável e genuíno e onde começa a minúcia inútil que não é mais que um mecanismo para lidar com as nossas sombras?
Há muitos legados que quero deixar aos meus filhos. Serem exigentes é um deles. Não só com eles mesmos, e com o que fazem, mas com o mundo e os outros. De forma saudável, empática, respeitosa e assente no amor. Mas que exijam o que lhes é devido. Cultivar esta prática num mundo onde se formatam as pessoas para serem autómatos sem sentido crítico é muito importante. Porque permite que distingam narrativas fabricadas, ilusões de outros e tenham espaço para viver a sua autenticidade. Que questionem as figuras de autoridade para exigir o melhor de cada uma delas: família, professores, forças de segurança, responsáveis políticos e demais atores sociais. Que exijam ter acesso a informação que lhes permita questionar ciclos noticiosos, narrativas de outros, agendas políticas. Ver os dois lados da história, cruzar factos e, mais imperativo que tudo o resto, chegar à sua própria conclusão. Exigir rigor às instituições públicas. À família. Aos amigos.
Onde colocamos a atenção e o foco, também concentramos as nossas energias. Se conseguimos direcionar para os nossos sonhos, ideias e ambições, criamos um ambiente propício ao seu desenvolvimento. Mas se somos assaltados por preocupações, acabamos por criar ciclos mentais mais negativos que se autoalimentam. Por isso, também devemos exigir os melhores comportamentos nas nossas relações pessoais e profissionais. E fazer uma escolha consciente de quem nos relacionamos. Cultivar amizades que correspondam em igual medida no respeito e apoio mútuo. Sustentar relações amorosas em amor, de forma honesta e transparente, livre de dependências emocionais. E que as pessoas que escolhemos ter à nossa volta nos estimulem, nos façam querer sempre ser uma versão melhor de nós mesmos.
Também é preciso exigência - consciente e deliberada - naquilo que consumimos e nos nutre. Não só no que escolhemos como alimentos, mas também no que ouvimos, lemos, vemos, estudamos, pensamos e praticamos. Num mundo pejado de estímulos e de consumo rápido de conteúdos, temos que exigir calma e tempo. E onde encontramos ciclos de consumo, seja nas notícias, entretenimento, cultura, precisamos perceber o que melhor nos serve e se adequa. E com essa curadoria feita, é preciso exigir esses conteúdos, com o rigor e a densidade que tanto precisamos e vamos tendo menos.
Sei que exigir dá trabalho. Não confundamos achar-nos no direito por um qualquer privilégio com o exigir mais e melhor. Falo de uma exigência que espoleta o melhor que há em nós e nos faz querer esse mesmo melhor dos outros. Não a atitude produtivista exigida pelo capital, que visa apenas o crescimento exponencial. É de consciência, de meta-cognição, reflexão e constante aprendizagem que é feita esta exigência que vos descrevo. Aquela que dá trabalho colocar em prática e que não pode ser ensinada com retórica e oralidade. É preciso demonstrar pelo exemplo e só assim elevar quem nos rodeia a exigir da mesma forma. Mais ainda com os filhos.
Não escrevo este texto do alto de uma torre de conquista moral, mas do sopé de uma montanha cujo cume não vislumbro. Estou longe de exigir tudo o que deveria; vou exigindo aos poucos, aqui e ali. Mas, à medida que os anos passam, vou percebendo que não há um fim neste trilho e que há sempre mais para exigir. É um trabalho contínuo, nem sempre frutífero, mas de muita importância.
Abraço-vos,
João

