Saúde Mental
Preconceitos e Prejuízos
Olá,
No fim-de-semana passado, fui almoçar com dois amigos. Conhecemo-nos no grupo do Paternidades de Pai para Pai e gostamos da companhia uns dos outros. Já juntámos as famílias em picnics, passeios, fomos a concertos, partilhamos angústias e conquistas. As relações constroem-se com momentos de partilha, seja ela física, emocional ou espiritual e é comunhão que procuramos - e encontramos - uns com os outros. Somos diferentes, cada um com as suas particularidades e passados. Uniu-nos a paternidade e as dores que ela nos trás, inicialmente. Hoje, quebramos tabus e somos apenas três homens que apreciam a companhia uns dos outros. Falamos de sentimentos, de emoções, de preocupações, de saúde mental, stress, ansiedade, problemas conjugais, pedagógicos e tantas outras minúcias da vida. Não é comum, eu sei. A ideia é, até, desconfortável quando se é criado numa sociedade que promove a culpa, a supressão emocional, a partilha e que nos faz olhar para todos os homens como alguma forma de competição.
Ainda vivo com muito condicionamento sobre saúde mental. Falo abertamente sobre o tema, mas há algo em mim que me diz que é errado partilhar demasiado ou até determinadas coisas. Não da minha intimidade e privacidade, mas do meu processo, da forma como sou afetado pela doença mental. A mente é um reduto só nosso que muito ocasionalmente abrimos e partilhamos de forma honesta e sincera com alguém. Poucas vezes o fiz na vida, com poucas pessoas. E parece que, quando me abro, mostro apenas uma ínfima parte, sempre com medo de que quem realmente sou - e o que penso - não seja aceite. Todos queremos ser acolhidos, sem sermos cobrados depois. Mas ensinam-nos, desde pequenos, que há aspetos que não são aceites e podem ser, também, condenáveis. E vamos condicionando a nossa forma de ser, agindo em conformidade, escondendo aquilo que achamos que não será bem aceite sempre com medo da rejeição. É um mecanismo que desenvolvemos para sobreviver e coexistir com as nossas comunidades primitivas, onde ser ostracizados era sinónimo de abandono e morte. A saúde mental é um tema que incomoda. Quando alguém me fala frontalmente sobre as suas maleitas emocionais e psicológicas, há sempre um desconforto. Talvez porque no sofrimento dos outros veja o meu próprio. Parece que testemunhar a vulnerabilidade de alguém me obriga a confrontar a minha. Não tenho o hábito de estar, simplesmente, presente e escutar de forma empática. Tenho trabalhado esta nobre arte com as pessoas que me são mais próximas e que amo. O que quer dizer que o faço com pessoas cuja relação existe há décadas e onde um vínculo foi estabelecido: onde me sinto acolhido e aceite a maior parte do tempo. Com outras pessoas, mesmo que me sejam próximas, a conversa é diferente. O desconforto é maior.
Com estes meus dois amigos, também estou desconfortável no que a saúde mental diz respeito. Sinto-me sempre a uma palavra ou expressão de ser julgado ou visto de uma forma que sinto que não é a que melhor me representa. Sempre estive mais confortável a conversar com mulheres. As pessoas com quem sou mais próximo são mulheres. Há qualquer coisa na gestão emocional feminina que me acolhe e que raramente encontrei juntos de outros homens. Mas com estes dois, não. Sinto-me capaz de falar sobre aspetos meus e da minha vida que, há uns anos, seria incapaz de partilhar com outros homens. Sentados à mesa, vamos abrindo pedaços de nós e expomos aquilo que nos é difícil enfrentar. Verbalizamos os nossos medos, as nossas ânsias, as mágoas e angústias. Acolhemo-nos em experiência partilhada. Também nos rimos e falamos de insignificâncias. Podemos estar. Vamos praticando a arte de ouvir falar de emoções, de as partilhar. Crescemos nessa partilha.
Falamos de terapia. Da sua importância e impacto nas nossas vidas. Do estigma e preconceito que ficou entranhado nas nossas vísceras. Aceitar ajuda, nestas cabeças formatadas pelo patriarcado, é sinónimo de fraqueza, de insuficiência. Sentimo-nos emasculados. Menos homens, seja lá isso o que for. Mas é importante olhar além do preconceito. Termos alguém com quem falar regularmente num ambiente terapêutico mudou a minha vida. Um espaço semanal onde podemos refletir sobre como pensamos, agimos, o que nos aflige. Livre de julgamentos e de forma sincera. À nossa mesa, todos percebemos isso. Sabe-nos bem o espaço e tempo que temos nesse processo, na forma como olhamos para o achamos que somos. Damos atenção à forma como falamos de nós mesmos. Fixamos o olhar na imagem que temos que nós. É doloroso, incómodo. Outra vez o desconforto. Nesta sociedade ladeada de picos de dopamina, na busca pela satisfação imediata, na vivência hedonista, a simples ideia de nos deixarmos estar em desconforto pode ser aterradora. Mas é importante fazermos esse esforço e permitir sentir tudo, incluindo o menos bom. E é um privilégio poder almoçar com amigos e todos se permitirem existir com todos os seus aspetos.
Até para a semana,
João


Não sei porquê… mas facto é que, os teus textos, sempre me trazem algum nível de tranquilidade.
Talvez por me rever em muitas das tuas palavras(?)… Talvez porque desafiam o meu pensamento (?)…
Não sei ao certo. Mas isso não faz deste facto menos verdadeiro.
E por isso… obrigado.