Ruas sem Crianças
"É possível descobrir mais sobre uma pessoa numa hora de brincadeira do que num ano de conversa." - Platão
Olá,
O mundo onde nasci, esse velho oeste que foram os anos oitenta, parece uma memória arcaica e obsoleta. Terá sido a última década totalmente analógica e onde a comunicação ainda estava presa por fios. Ser criança nesses tempos teve características que seriam impossíveis de replicar nos dias de hoje. As tecnologias e as redes de informação e comunicação alteraram, por completo, a nossa sociedade. E também porque se tratava de outro contexto, com uma visão da educação e relação com as crianças que evoluiu muito nas últimas décadas. É o progresso, podemos pensar. Mas, acho, no processo também se deram alguns retrocessos que têm tido implicações menos boas para os jovens e as suas famílias.
Há um silêncio nas nossas ruas que ainda hoje me incomoda. Passo por jardins, ruas grandes, e são apenas povoadas por pessoas a entrar e a sair dos prédios, ou a passear os cães, ou a ir por sacos no lixo. Tenho a memória de ser criança, com sete ou oito anos, e sair de casa sozinho e de escutar a minha rua à procura do ruído de crianças a brincar. Era assim que sabia se estavam a jogar futebol no campo em frente, ou a brincar nos jardins com o parque infantil mais ao lado. Ou debaixo das arcadas do prédio, onde também se jogava à bola, andava de skate, patins, corria-se, brincava-se à apanhada. Éramos muitos, por vezes. Noutras, dois ou três gatos pingados.
Cheguei a brincar muitas vezes sem companhia. Porque os meus compinchas não estavam, ou teríamos horários diferentes. Saltava os muros da escola em frente a minha casa e dispunha das paredes para chutar a bola ou o cesto para encestar. Por vezes, era surpreendido por um camarada igualmente solitário que, pelo som da bola a bater no chão, lá me descobria e se vinha juntar. Havia qualquer coisa de meditativo nestes momentos solitários; olhando em retrospetiva, eram momentos muito importantes para uma criança hiperativa e com muito défice de atenção. Era a calma forçada pela circunstância que nunca senti como impositiva, mesmo que eu nunca tenha gostado de estar sozinho. Mas faz-me bem.
Agora sou adulto, pai, e quando saio de casa e escuto as ruas há um silêncio sepulcral. Parece que a brincadeira faleceu e que nas últimas décadas procedemos ao seu enterro. Mas não foi isso que aconteceu: eu todos os dias assisto ao furacão energético que é ver o meu filho de seis anos brincar. A brincadeira foi confinada aos apartamentos, às casas. Talvez ainda exista livre dentro de condomínios fechados, mas é só mais um exemplo de como o capital pode rasgar diferenças enormes até na forma como se brinca. Sinto-me hipócrita a escrever isto porque, enquanto me lamento, saudosista, dos tempos de brincadeira livre, também eu confino o meu filho entre paredes. Claro que saímos o máximo de vezes possível com ele para espaços ao ar livre, verdes e que lhe permitam brincar livremente. Ou tentamos organizar brincadeiras com filhos de amigos. Mas é sempre uma brincadeira supervisionada, onde vou lançando o meu olhar para saber se está tudo a correr bem. Talvez seja o imediatismo da nossa sociedade que me impele para querer saber, também no imediato, o que se passa com ele.
Serei capaz de o deixar descer o prédio e brincar na rua, sozinho?
Há uma perceção generalizada de que as ruas estão mais perigosas. Mas é uma perceção errada, possivelmente induzida pelo mediatismo dos horrores que nos faz crer que o mundo é um lugar horrível e temos que proteger os nossos filhos de tudo. Os perigos continuam os mesmos: segurança rodoviária e comportamentos de risco. Eduquemos os nossos filhos para minimizar estas incidências. Somos responsáveis pela reclusão dos nossos filhos, motivados pelo medo e, arrisco dizer, pela falta da confiança neles. E disfarçamos este desconforto dizendo que, no fundo, temos medo dos outros. E, desta forma, desresponsabilizamo-nos e criamos uma ilusão de controlo e conforto que, na correria da paternidade, tanta falta nos faz. Educo da melhor forma que posso, mas ainda tenho muito para desconstruir. Precisamos, também, como sociedade, construir as ruas que queremos para os nossos filhos. Criar as cidades que pretendemos. Às vezes parece-me uma utopia, porque para isso precisaríamos de desconstruir a visão individualista que alicerça a nossa organização social. Teríamos que pensar e ter em conta o Bem Comum.
Serei capaz de educar para a independência necessária para, um dia, ele descer o prédio e brincar na rua, sozinho?
Como professor, tenho a possibilidade de olhar para os jovens de vinte anos de hoje em dia e perceber onde estamos a falhar, como sociedade. Há uma brutal falta de autonomia, de pensamento crítico como se, toda a vida, tudo lhes tivesse sido dado de bandeja: ideias, fórmulas, receitas. Assisto, pois, ao choque profundo que é perceber que o mundo não funciona com receitas e padrões, que é preciso adaptar os nossos conhecimentos às diferentes situações. Vou conhecendo cada vez mais jovens adultos que, no fundo, não são capazes de funcionar de forma independente. Jovens que já conquistaram uma suposta independência, que vivem sozinhos, mas utilizam a casa dos pais como lavandaria e restaurante takeaway. A culpa é nossa, dos pais. Nas rotinas do dia a dia, vamos fazendo tudo pelos nossos filhos, otimizando o nosso tempo e, em simultâneo, tornando-os ineptos. Este tipo de falta de preparação revela que não houve uma integração ativa na rotina da casa. Como podemos continuar a infantilizar ad eternum um ser humano e deixá-lo chegar à idade adulta sem as ferramentas básicas para funcionar de forma independente? Também podemos responsabilizar as instituições escolares que, para o bem ou para mal, são o reflexo do comportamento dos pais. Crianças com cinco e seis anos, na iminência de entrarem no ensino primário, que não comem fruta com casca porque as educadoras insistem em descascar tudo antes. Que insistem com os pais que é preciso que a “frutinha venha arranjadinha para os meninos conseguirem comer”. Porque não ensinamos o manejo com facas na hora da fruta, primeiro para cortar quartos, depois para descascar? Porque não incutimos mais responsabilidades nas crianças na gestão dos materiais escolares, dos recados, da responsabilização em trazer as coisas? Nas lides da casa, nas decisões familiares. Tudo feito com sentido crítico e adequado aos estágios evolutivos de cada criança, claro. Regra geral, fazemos tudo nós, os adultos, porque é mais prático, mais fácil, mais rápido, mais cómodo. Mas a que custo? Já aqui escrevi sobre vivermos em inconsciência das nossas ações e isto é só mais um exemplo. Existir sem questionar tem consequências. Neste caso, de uma gravidade profunda no desenvolvimento das nossas crianças.
Em última análise, o nosso medo e falhanço em fomentar independência nas nossas crianças - porque é preciso incentivar e investir o tempo nisso - é o que tirou as crianças da rua. Não confiamos nelas nem lhes demos a capacidade de funcionar em sociedade e desenvolver um sentido de responsabilidade. Porque receamos o que pode acontecer - o que é válido, atenção - mas também não fazemos nada para os tornar capazes de lidar com situações mais complicadas. E com isto, elas perdem a brincadeira sem supervisão, o mundo de atividade física, de jogos, de faz de conta, de amizade, de gestão de confrontos e conflitos, de zangas. Brincar de forma livre ensina muito mais do que o óbvio. A brincadeira é uma grande aprendizagem, a muitos níveis.
Apesar de tentar, fico aquém do que é necessário, como a maioria de nós. Mas vivemos tempos onde a reflexão coletiva assume um papel demasiado importante para ser ignorado. Com os nossos amigos e família, precisamos pensar como podemos fazer diferente, como podemos reclamar as ruas novamente. Como comunidade, conversar com as nossas autarquias, propor iniciativas, organizar brincadeiras, incentivar a liberdade necessária para se brincar. Coletivamente, teremos certamente as ferramentas que nos permitiram mudar o status quo. Serão os nossos filhos, e o seu saudável desenvolvimento, os primeiros a sofrer com a consequência dos nossos atos. Vale a pena pensar e conversar sobre isto.
Abraço-vos,
João


A força com que defendes a liberdade é incrível. Faz-me muito bem ler as tuas reflexões sobre a tua família.