Revoluções Solares
Primeiro aniversário deste Substack!
Olá,
Setembro já chegou e deixou para trás um mês em que estive mais desligado das redes. Este espaço foi preenchido por textos maravilhosos da Diana, do Ivan e da Catarina; espero que tenham tido a oportunidade de os ler, porque valem mesmo a pena. Deixo-lhes, uma vez mais, o meu profundo agradecimento por terem despendido do seu tempo e criatividade para que este Substack não ficasse Agosto inteiro sem publicações.
Sinto que cheguei ao nono mês deste ano mais livre: estive um mês sem rotina de ecrãs. Continuei a ver séries e filmes ao final do dia mas reduzi, drasticamente, o tempo de ecrã. Estar vários dias a acampar com pouco acesso à internet também ajudou, mas houve um esforço deliberado da minha parte. Percebi que não preciso de redes sociais - senti, várias vezes, o ímpeto de querer partilhar uma fotografia ou momento mas tive sempre a sensação que seria uma vontade imposta. Talvez pelo hábito, pelos algoritmos, pela própria estrutura do atual tecido social. Mas passado um mês sem Instagram, percebi que não preciso de ver os posts e reels dos outros e que, assim, ganho tempo para aquilo que realmente gosto. Li mais do que o habitual, li coisas que adorei e me fizeram pensar e sentir. Estive mais presente com quem queria: conversei mais, brinquei mais, nadei mais. Rodeei-me de ar livre, de amigos, de filhos dos amigos e tive direito ao banho de vida que precisava. Foram umas boas férias, com um regresso tranquilo às rotinas e novas resoluções.
Esta crónica semanal faz este mês um ano. Semana após semana, criei um hábito de escrever que me tem sabido pela vida. Tenho o privilégio de ter quem me leia, me recomende e vejo os meus subscritores aumentar todas as semanas. Neste espaço posso refletir e mostrar um pouco de quem sou e como vejo o mundo. Percebo que sou uma ave rara do sexo masculino que escreve sobre as suas emoções, a relação consigo próprio, com os outros, com a paternidade. Vivo a minha masculinidade, com as suas particularidades e condicionalismos, nem sempre em concordância com a norma. Sou feito deste contraste que me acompanha há anos e ele é basilar na forma como escrevo.
Há vinte anos, na feira do livro de 2004, estive numa fila de autógrafos com a Sofia para um dos nossos autores preferidos. Primeiro, foi a Sofia. O autor assinou, sorriu e agradeceu. Quando chegou a minha vez, ele também sorriu, mas desconfiado, e perguntou-me se já tinha lido o livro que tinha na mão. Eu sorri e confirmei que sim - estava naquele momento starstruck. Ele continuou desconfiado e disse que tinha a sensação que vim mais acompanhar alguém. Não me importei com a condescendência a atestado de estupidez que me foram passados. Porque estou consciente do meu porte físico, da minha aparência, da forma que gosto de vestir e do contraste constante com as minhas ações e interesses. Espera-se de mim um bruto, quiçá ignorante e emocionalmente inepto. Esperamos tudo isto dos homens e, de facto, a maioria dos homens são assim. São educados a ser assim, condicionados desde crianças. Assumo a minha diferença na forma como processo as minhas emoções e como penso. Escrever ajuda-me a compreender melhor partes de mim e a interpretar o mundo à minha volta. É parte integrante de mim e este substack tornou-se mais que uma prática diária de escrita. É um refúgio onde posso encontrar-me com os meus pensamentos.
Não sei bem como assinalar esta revolução solar. Andei a brincar um pouco com as cores da página e acho que ainda estou a marinar nas ideias para um novo conceito. Não tenho pressa. Pensei em mudar o nome mas, no fundo, acho que encontrei o nome certo desde o início. É mesmo o meu Substack. Acho que a melhor forma de o honrar é continuar com a mesma consistência de publicação e ir escrevendo, semana após semana. Estas crónicas têm sido companheiras de muitos acontecimentos na minha vida, reflexões, ideias e ideais e começam a construir um registo daquilo que vou vivendo. Tenho escrito na página inicial do software que utilizo para escrever e organizar os meus textos um mantra:
ESCREVE PARA OS TEUS FILHOS TE LEREM NO FUTURO.
Está realçado a amarelo e com um tamanho de letra grade para nunca perder o verdadeiro norte às minhas intenções com estas publicações. São exercícios de escrita sobre paternidade e a vida que orbita à volta desse fenómeno que é ser pai. Imagino que daqui a uns anos os meus filhos talvez leiam alguns destes textos e fiquem a conhecer um pouco melhor a minha maneira de ver o mundo. Escrevo o que ainda não lhes disse e tenho receio de esquecer. Mas também escrevo sobre os vários Joões que habitam em mim, as centenas de peles que visto e tornam-me em quem sou. Sou contraste, contradição. Sou a soma das crónicas publicadas e as que ainda estão por publicar.
Até para a semana!
João
PARTILHAS
Uma entrevista maravilhosa com uma autora que descobri estas férias (obrigado pelo empréstimo, Cris). A Leila Slimani tem uma forma de escrever - e falar - que ressoam muito comigo.

