Regras, Roupas e Fardas
Olá,
Na semana passada, enquanto aguardava que o portão da escola do A abrisse, ouvi uma mãe a fazer troça da decisão duma direção escolar proibir certos tipos de indumentária. Num tom jocoso, disse que estas coisas só acontecem porque são instituições privadas. Resolvi intervir e clarificar:
O problema é que a escola em questão é pública.
O olhar indignado da senhora ao ouvir as minhas palavras foi divertido. Percebeu que a notícia de que o Liceu Pedro Nunes tinha enviado um e-mail aos encarregados de educação era referente a uma escola pública. O texto estabelecia limitações no tipo de indumentária permitida, utilizando expressões como “calções curtos demais” (quem mede e estipula?), “decotes excessivos” (quem diz?) e “calçado de praia” (qual?).
Rematou logo um pai, que também aguardava pela abertura, que achava muito bem, que isto assim não pode ser, que uma coisa é ir para a praia e outra era ir para a escola.
Até me podem chamar militarista, mas isto era usar fardas, acabava-se logo com a brincadeira.
A mulher, ao lado, pediu-lhe alguma contenção e para ele deixar sossegado o seu Salazar. Calei-me e dei por concluída qualquer possível argumentação. Primeiro, porque o julguei rapidamente como um homem retrógado. Segundo, porque não achei que fosse o local ou momento para debater. Terceiro, porque intuitivamente acho que qualquer limitação à liberdade de expressão corporal ou de indumentária não é saudável, mas senti que não estava convicto das minhas crenças. Precisava de uma maior reflexão sobre o assunto para poder perceber qual a minha opinião, de facto. E para evitar julgar as pessoas à vista e defini-las por causa de uma opinião - se bem que a recomendação da própria esposa para o senhor largar o Salazar ainda me apoquenta. Enfim. Vou tentar ser imparcial e pesar os prós e contras do uso de farda e da total liberdade de escolha da indumentária. Reflitam comigo enquanto penso em voz escrita.
A farda permite a uniformização de todos os alunos. Tirando o calçado, são todos iguais, em termos de roupa. Num sistema de ensino que já promove, no meu ver em demasia, a supressão da identidade individual de cada um, o uso de farda pode ser mais um tijolo no muro que erguemos à criatividade e pensamento crítico. Reforçamos a ideia do funcionamento como um todo e vamos esvaziando a diferença, a inovação. Impossibilitamos, também, a expressão individual - ser quem queremos ser, da forma que queremos ser. Vestir pode ser um ato político bem como uma forma de expressão artística. Mas há um reverso da medalha. A utilização de farda relembra a suposta igualdade do sistema de ensino. Suposta, porque não acontece num mundo onde os alunos mais abastados podem-se vestir de acordo com as modas consumistas e os mais desfavorecidos são imediatamente identificados pela ausência de determinadas marcas, roupas ou acessórios. A farda trata de abolir alguma da diferença de classes no que a roupa e indumentária diz respeito. Escuda os mais desfavorecidos de ser o vestuário, ou a sua ausência, a identificar a classe social a que pertencem. Não estou a ignorar o tipo de telemóveis (que gostaria de ver proibidos dentro das escolas, mas esta é toda uma outra conversa para um futuro texto), ténis, adereços e acessórios. Estes itens continuariam a relevar onde se está na pirâmide social, mas sem a roupa. Todavia, não estou seguro que esta seja uma linha de pensamento e argumentação suficientemente sólidas contra o uso de farda. Vejamos porquê.
A utilização livre da indumentária trás, como já referi, o exacerbar das pirâmides sociais. Mas permite expressões individuais que são cada vez mais importantes numa sociedade que gosta de enfiar todos em caixinhas, tipos e estilos (de consumidores, principalmente). Também podemos questionar esta liberdade e pensá-la como imposição de padrão de consumo que depois se torna socialmente aceite. Ou seja, é uma liberdade que pode ser ilusória quando estamos constantemente a ser bombardeados por ciclos de consumo e publicidade especificamente direcionada para cada um. Mas esta é a liberdade que, mesmo condicionada, permite a subversão. Permite a liberdade de sermos quem queremos ser, como queremos ser. Com cristas de punk, roupas rasgadas, todos de preto, cabelos de cores berrantes, calções curtos, tops, t-shirts, etc. Permite a experimentação de identidades que é tão crucial na adolescência. Talvez roupa e acessórios sejam experiências mais saudáveis do que o uso de substâncias ou outros comportamentos lesivos.
“A melhor maneira de evitar que um prisioneiro escape é garantir que ele nunca saiba que está na prisão.” - Dostoievksy
Sinto que começo a chegar a uma conclusão. Sendo a favor do igual valor, far-me-á sentido proteger quem menos tem de se sentir desfavorecido numa sociedade de consumo. A farda, neste caso, tem o seu sentido e propósito. Evitaria alguns males e discriminações e, seguramente, faria muitos alunos sentirem-se menos desconfortáveis com a sua situação social e económica. No entanto, quando vejo as objeções de direções escolares - que incluem ameaças como impedir a realização de exames nacionais em caso de desobediência - ao uso de determinadas roupas, os seus argumentos soam-me puritanos e demagógicos. Pior, revelam um desconforto com corpos por parte dos docentes - e dos encarregados de educação que na sua maioria subscrevem as diretrizes. Que necessidades estão a ser nutridas com este tipo de limitações? Como definir o que são calções demasiado curtos e porque os queremos proibir? A sexualização do corpo feminino aqui é gritante e assustadora. E o que são decotes excessivos? Como é que mostrar mais ou menos partes de uma mama pode ser um problema, principalmente a uma espécie mamífera? Temos que parar de reforçar a sexualização do corpo da mulher e desresponsabilizar a falta de controlo sexual dos homens. Normalizar mamas e pernas e retirar a conotação sexual. Não tentamos impor os mesmos limites com os homens, para quem é normal o tronco nu e pernas ao léu. As hormonas dos adolescentes não ficam piores pela exposição aos corpos - arrisco dizer que a normalização até ajuda. Mas proibir transmite a ideia de que há algo de errado em mostrarmos partes do nosso corpo. Há, sim, atentados ao pudor se exibirmos genitália ou se estivermos parcialmente nus e há leis para isso. Não posso andar nu a mostrar os meus genitais às pessoas, é crime. Poderia, também, debater esta questão, mas ficará para outra crónica. O problema aqui, como se percebe, é que estas proibições são fruto do desconforto de adultos mal resolvidos e com ideias obsoletas sobre o corpo, em particular das mulheres. Não podemos dizer que há decotes excessivos sem uma conotação sexual, nem em calções curtos sem pensar na cobiça de uma coxa. Ah, mas essas vestimentas são para a praia. Recuso esta ideia em escolas antigas, com péssimas condições térmicas, num dos países mais quentes da Europa. Sejam honestos e assumam que o vosso problema não é com a roupa, mas sim com os corpos.
Por isso, se vivesse numa sociedade onde a sexualização do corpo das mulheres era residual, talvez me tornasse num acérrimo defensor da farda, como instrumento de horizontalidade dos alunos. Mas não vivo. Vivo num mundo onde a instrumentalização e objetificação dos corpos trás graves consequências. E só aceitando e normalizando estes corpos é que podemos trilhar um caminho que permita pensar na farda de uma outra forma, que não puritana ou pudica. Por tudo isto, é importante permitir a liberdade aos alunos e alunas das escolas portuguesas de se vestirem como quiserem; para combatermos o puritanismo anacrónico e a objetificação do corpo feminino. Mas esta luta não pode ficar por aqui. Há mais atores na mercantilização dos corpos, principalmente as indústrias do entretenimento cujas narrativas continuam de braço dado à instrumentalização dos corpos.
Até para a semana,
João
P.S. Gosto de pensar que, em vez de coincidências, a vida proporciona-nos sincronicidades, bem ao estilo de Carl Jung. Tinha eu acabado de escrever a primeira versão deste texto quando me pus a ouvir o episódio mais recente do podcast Inspiração para uma Vida Mágica do Pedro Vieira e da Mikaela Oven. O título é “Limites” mas aborda, também, os limites que foram impostos (e as necessidades por detrás dessa limitação) no Liceu Dom Pedro Nunes. Partilho convosco este episódio porque faz uma boa reflexão sobre o assunto, numa perspetiva diferente daquela que aqui escrevi, apesar de haverem alguns pontos de contacto. Espero que gostem.

