Reflexões sobre 2024
O que foi, é e ainda será.
Olá,
Dois mil e vinte e quatro aproxima-se do fim. Para mim, representou uma roleta russa de emoções, repleto de aprendizagem. Começou com uma sensação de desconforto e mal-estar que se foi agravando nos primeiros meses do ano. A minha saúde mental, por várias razões, foi-se deteriorando e dei por mim com falta de ferramentas para lidar com o meu dia-a-dia. Mesmo com sessões semanais de terapia senti-me assoberbado com o peso da existência e estava a viver num estado de amargura que se estava a tornar insuportável. Roçou o desespero, muitas vezes. Às vezes, as lágrimas caiem sem percebermos bem a sua razão; chorar faz bem, mas também é preciso enfrentar o que nos faz chorar. O problema é quando não percebemos bem o porquê; parte de fazer terapia é colocar luz nas nossas sombras e integrá-las da forma mais saudável possível na nossa vida. Houve um momento em que achei que o ano estava perdido, sem ponta por onde se pudesse pegar. Olhava para as minhas bênçãos - a minha família, o meu conforto e privilégio - e havia uma sensação de vazio. Não que os deixasse de amar, mas que não era merecedor desse amor. Nestas alturas, há uma insistência do nosso diálogo interno em repetir a negatividade. Cria-se um ciclo vicioso que é difícil de quebrar. Achei que o ano ia ser um conjunto de trezentos e sessenta e cinco dias de sofrimento e que antevia um novo ano igual ou pior.
Tive ajuda. Fui amado quando menos mereci e mais precisei. Fui acolhido e chamado à razão as vezes que foram precisas até perceber que precisava de pedir ajuda. Enchi-me de coragem e lutei contra os meus preconceitos, contra a minha bagagem emocional de tempos passados e procurei complementar a minha terapia. Guiado pelo meu psicólogo, encaminhei-me para a Psiquiatria, desconfiado. Com medo, hesitante, a pensar que depois de ter conseguido livrar-me do consumo de substâncias ia enfiar-me num novo padrão de consumo autodestrutivo. Mas sentia-me demasiado desequilibrado e desorientado para não fazer nada. Lá fui. E foi a melhor coisa que poderia ter feito. Com um acompanhamento cuidado, comecei com uma medicação. Não vou mentir: os primeiros tempos são muito difíceis, há um período de adaptação exigente - não falo de dias, falo de semanas, até meses. Fomos ajustando a medicação até que chegámos a um patamar em que voltei a sentir que era eu. Não me lembrava do que era sentir-me confortável com quem era e, talvez mais importante, permitir-me ser quem sou. Sem medo de represálias, opiniões, julgamentos. Ser, pleno, sem merdas.
O ano está a terminar e sinto-me outro, no melhor dos sentidos possíveis. Precisava de perder alguns filtros sociais e permitir-me ser. Deixar de engolir sapos e fazer fretes. Estou alinhado com os meus valores e intenções e vivo esse alinhamento, sem medo das represálias. Confio mais em mim, na minha intuição: sei que não vou ser sempre correto, mas sei que tenho bons princípios e etiqueta social q.b. Não me permito suportar situações que me façam sentir indignado, ressentido, desconfortável ou miserável sem expressar esses sentimentos. Descobri que reprimir todas estas emoções me faz um mal tremendo e decidi confiar que consigo expressar o meu desagrado de forma correta, consciente e plena.
À semelhança do ano passado, quis fazer um balanço do ano que passou e escolher os melhores 20% para ter como intenção de repetir. Peguei no telemóvel e revi, desde Janeiro, os momentos que achei mais positivos, bem como os negativos. Desta forma sei o que quero muito repetir e incluir em 2025 e o que não quero mais incluir na minha vida. Cada vez mais me faz sentido uma frase que fui ouvindo ao longo da minha vida: a partir de uma certa idade, deixamos de fazer fretes. É interessante rever o nosso ano - podemos fazê-lo olhando para a nossa agenda se lá assinalarmos tudo ou, que foi como fiz, olhar para a galeria de fotografias do último ano. Acabei por ser lembrado de inúmeros eventos que foram ótimos durante o ano e que, com a rotina e cansaço, acabaram por não ficar tão frescos na memória. A oficina de emoções que fiz com o A, por exemplo. Foi um momento só nosso, bem diferente do habitual e da minha zona de conforto, que acabou por ser um momento maravilhoso onde ambos pudemos crescer como pessoas. Quero tentar ter mais destes momentos onde, ao mesmo tempo que fomento o interesse do meu filho nas artes, encontro um pretexto bom e prático para estar pleno e em consciência com ele. Quero o mesmo para o meu filho mais novo, mesmo com as limitações da idade; nutrir o nosso elo emocional e exercitar a nossa conexão, praticando-a. Acho importante estes momentos de filho único, onde a atenção é dada em exclusivo a só um deles de cada vez.
Também quero passear mais com a minha família. Aproveitar entradas gratuitas em Museus e exposições, visitar monumentos e locais históricos, partilhar cultura e cenários diferentes com eles. Faz-me bem sair da rotina e estar com eles noutros locais, e sinto que cumpro com o meu papel de cuidador de lhes proporcionar experiências enriquecedoras. No fundo, estar com eles. Faz-me muita confusão a organização social que determina que estejamos pouco mais que três ou quatro horas por dia de semana de trabalho com quem mais amamos. Sinto que estamos a ser privados de algo que é natural: tempo com os nossos. E que melhor maneira de colmatar esta imperfeição do sistema onde vivemos do que ter a intenção de estarmos juntos?
Percebi, mesmo, a importância de ter tempo para as minhas coisas. Não só tempo para mim, sozinho, mas tempo para fazer aquilo que gosto, que me faz bem. Há uns tempos, num almoço com amigos, falávamos sobre como muitas vezes dizemos que não sabemos o que queremos fazer ou o que gostamos: acabamos desconectados de nós próprios. Deixamos de viver em autenticidade e ficamos desalinhados das nossas intenções. Quero ir a mais concertos, ver mais filmes no cinema, ver exposições, jantar e almoçar com amigos. É nestes momentos que marcamos a diferença entre viver e sobreviver: o usufruto da vida. É o mesmo que desejo aos meus filhos. Sugar o tutano da vida.
Memento Mori
Há muita sabedoria da Antiguidade que ressoa comigo. A premissa de Memento Mori - lembra-te que vais morrer - recorda-me por de lado as minudências do dia a dia e que me devo focar no que é, de facto, importante. Vamos morrer, a vida é uma passagem curta. Como a queremos aproveitar está a nas nossas mãos. Não o destino, nem o discutível livre arbítrio. Mas a forma como decidimos encarar e enfrentar os acontecimentos dos nossos dias, das nossas vidas. Talvez por isso esteja a considerar que, para mim, o importante é o tempo com a família, o tempo para me cultivar, o tempo para poder crescer. Cooperar sem esperar nada em troca. E viver estas intenções alinhado com os meus valores.
Desejo a todos boas entradas neste ano novo,
João


Estou a menos de dois meses de ser mãe (de primeira viagem, como se costuma dizer) e tem sido um bálsamo ler estas reflexões sobre ser pessoa e ser pai. Lamento que tenha passado por um mau momento, mas fico feliz por saber que se encontrou uma solução e que agora tudo parece mais luminoso.