Reflexões sobre 2023
Nunca fui de balanços anuais e reflexões sobre ciclos que se encerram no final de cada ano. Faz-me mais sentido pensar e organizar novos ciclos no final do Verão porque é onde sinto que (re)começamos e (re)organizamos a nossa vida familiar, pessoal e profissional. Isto faz ainda mais sentido quando somos pais, em que parece que nos alinhamos com os anos letivos dos nossos filhos. Talvez seja por ter sido filho de professores, talvez seja por ainda pensar nos meus anos como medição académica. Talvez seja por ser professor. Estamos a falar de conceitos abstratos, inventados. Um novo ano não existe. Ele acontece todos os dias, com a passagem de mais um ano em relação ao mesmo dia do ano anterior. Há um retorno solar todos os dias. E podemos usar estas convenções sociais e medir anos fiscais e de agricultura. Eles têm o peso e simbolismo que convencionamos dar. Mas façamos uma reflexão neste final de 2023, por mais forçado e artificial que seja.
Por influência da minha namorada, nos últimos anos desenvolvi uma prática que acho muito interessante e reveladora. Leio uma carta que escrevi a mim no início do ano, com as minhas expetativas. E, depois, escrevo a carta que lerei no ano a seguir. O conteúdo varia de ano para ano. Está ligado ao que espero conseguir, nas várias dimensões da minha pessoa. Nalguns anos projetei alguns desejos relacionados com trabalho, outros com família, outros com o meu desenvolvimento pessoal. É uma forma diferente de pensar nas resoluções sem parametrizar e torná-las em metas. Tento ser mais profundo e olho para o novo ano como uma tela onde vou pintar traços gerais: logo verei que tipo de pintura será. Sinto-me livre com menos rigidez. Depois, ao ler essa carta, percebo o que consegui e o que não. Reflito e tiro as ilações que julgo necessárias.
No ano passado acrescentei uma prática nova, inspirado no Tim Ferris, o autor e investidor e autor do podcast que mais ouvi no último ano, The Tim Ferris Show. Em vez de pensar em resoluções para o ano vindouro, Tim propõe fazer uma revisão do ano que passou da seguinte forma (é uma tradução livre do seu post):
Escrever num papel duas colunas: POSITIVO e NEGATIVO.
Olhar para o calendário do último ano (e eu também vejo as fotos que tirei para me lembrar de eventos sociais que talvez não tenham sido calendarizados), semana a semana.
Para cada semana, anoto as pessoas, compromissos ou atividades que espo1letaram sensações positivas ou negativas e coloco-as nas respetivas colunas.
Depois de rever o ano inteiro, olho para o papel e pergunto quais foram os 20% de cada coluna que provocaram as sensações mais poderosas.
Com base nas respostas que obtive, pego nesses líderes da coluna dos POSITIVO e tento agendar e fazer mais essas atividades. Tento logo por no calendário e perceber como posso potenciar e otimizar para o ano vindouro. Tento marcar coisas com amigos e organizar atividades/eventos/compromissos que sei que funcionam e me fazem bem. Depois pego nos líderes das sensações NEGATIVAS e crio uma lista de coisas que não quero fazer. Ponho essa lista num sítio onde poderei ver e interiorizar várias vezes no início do ano. Essas são atividades que preciso dizer não e evitar. Principalmente se sentir que há uma obrigação, porque terei em mente que são emocionalmente desgastantes.
No início do ano o meu pai teve um acidente em casa e fraturou um dos ombros. De repente, vi-me como cuidador principal do meu pai e fui confrontado com a fragilidade que a idade - e anos de maus vícios - acarretam. Ser-se velho é um caminho que pode ser feito de muitas maneiras e escolhemos a forma como o queremos percorrer décadas antes. Como cultivamos as nossas relações, hábitos e maneiras de ser ditam como vamos estar física, mental e emocionalmente preparados para lidar com fase invernal da vida. Deu-me que pensar: que todos temos um prazo de validade e uma decomposição inerente à nossa condição humana. Por isso deixei de fumar e reduzi o consumo de álcool. O conhecimento que temos hoje em dia permite, tendo alguns cuidados, minorar muitos dos efeitos da erosão da idade. O livro do Peter Attia, Outlive, foi lido de rajada a meio do ano. Com ele aprendi a importância do exercício físico para assegurar alguns objetivos básicos que quero atingir se algum dia for avô: levantar os meus netos do chão, poder brincar com eles, caminhar em família, entrar no mar e nadar com a sua companhia. Para isso tenho que trabalhar diariamente o meu desenvolvimento muscular, assegurar o aporte proteico e dedicar algumas horas por semana a trabalhar o sistema cardiovascular. Ingerir alimentos mais saudáveis e afastar-me de formas processadas de alimentação. O que me parecia apenas necessário para perder peso, agora é a minha forma de manutenção física para o futuro. Treino todos os dias para ser um pai mais ativo e, mais importante, se lá chegar, um avô fisicamente capaz.
Fui Pai pela segunda vez, em Maio. Relembrei uma das lições mais importantes que aprendi com a minha mãe, a de que o amor não se divide, multiplica-se. E voltei a sentir a alegria - e consequente felicidade - de ter mais um coração a bater fora do peito. Recordo-me de uma das primeiras conversas que tive sobre ser pai de dois filhos, com o Pedro, o pai de um amigo da escola do A. Ele disse-me que quando temos o primeiro filho, somos pais em tempo parcial. Isto porque dividimos o tempo do cuidado desse primogénito com a mãe e conseguimos ir tendo micro-pausas ao longo do dia para ver televisão ou fazer algo que gostemos. Neste alternar com a mãe, acabamos por cuidar a meias. De certa forma concordei. Quando nasce o segundo filho, não há mais alternância. Assumimos a paternidade a tempo inteiro porque agora oscilamos os cuidados entre ambos os filhos e perdemos tempo que teríamos para nós. É muito exigente, a todos os níveis: física e emocionalmente. Cuidar de crianças e estar em plenitude com elas provoca um cansaço extremo. Precisamos de fazer uma gestão das nossas emoções e necessidades a todos os momentos para podermos estar presentes da melhor forma que conseguimos. E estar presente cansa o corpo, a mente e as emoções. Nem sempre temos a maturidade emocional para nos auto-regular e sermos o farol que todas as crianças precisam que os seus cuidadores sejam. Penso na quantidade de pais e mães que se escudam no trabalho, horas a fio, assumindo cargas laborais intensas e desgastantes, apenas para evitarem estar em casa. Quantos pais não sentem alívio quando é outro progenitor a ficar em casa a lidar com uma doença ou greve escolar enquanto eles vão trabalhar? O cansaço de um emprego pode ser grande mas não se compara ao cansaço de estar presente e cuidar de uma criança. Mas ter sido pai pela segunda vez, apesar da privação de sono e desgaste emocional, foi a melhor coisa que me aconteceu em 2023. Fez-me crescer ainda mais, como ser humano. Mostrou-me que amar, cuidar e acolher os meus filhos são as prioridades que me saem naturalmente. Por mais que às vezes me apeteça ir trabalhar numa plataforma petrolífera durante uns meses, quando chego a casa e estamos os quatro reunidos, é quando me sinto completo. A ouvir os seus risos, gritos, falas, choros e queixumes. Que privilégio é poder estar com eles de forma plena, debaixo de um teto, com comida e roupa lavada. E ter o luxo do tempo para partilhar com eles. Quantas famílias não têm este tempo porque precisam trabalhar horas demais para garantir comida na mesa? Privilégio não é decidir o que fazer com o nosso tempo, privilégio é poder tê-lo. É irónico que a maior parte das pessoas com o luxo do tempo é quem mais tenta fugir das responsabilidades do cuidar.
A multiplicação do amor é um conceito difícil de viver numa sociedade tão individualizada. Mas é importante. Devemos pensar que todas as nossas relações acrescentam à nossa existência. Não subtraem. Tal como podemos ter vários filhos e amá-los, cada um à sua maneira, fazemos os mesmo com os irmãos, familiares e amigos. O amor e o afeto devem multiplicar-se e devemos cultivá-los com as pessoas que nos fazem sentir bem. Porque na diferença entre as diferentes relações que vamos tendo ao longo da nossa vida, suprimos muitas necessidades, de formas variadas. E é isto que levamos da vida, certo?
Consegui, finalmente, começar a ir aos encontros do grupo “Paternidades de Pai para Pai”. O grupo teve o primeiro encontro em Setembro de 2022 e eu fiquei logo interessado. A ideia de ter um grupo de pais a conversarem sobre os desafios da paternidade é reconfortante: uma forma comunitária de experiência partilhada. Mas só consegui ir pela primeira vez em Junho deste ano. Confesso que estava nervoso. Desconfortável, até. Não fui socializado a querer partilhar emoções e vivências com desconhecidos. Pensei que ia só ouvir e perceber. Mas há um conforto na partilha, na escuta empática, que faz com que naturalmente as conversas fluam e as nossas dúvidas de debatam. É importante não ter dúvidas. Dizer “não sei”. Só assim se pode abrir o caminho para a aprendizagem, seja em que contexto for. Quando descrevo o que é o grupo, respondo a brincar que é tipo alcoólicos anónimos mas para pais. Sem os 12 passos e a componente religiosa. São apenas pais a partilhar frustrações, medos, emoções, numa sociedade onde raramente este tipo de partilhas é permitido e muito menos aceite. Há ali um colo emocional que todos os homens deviam ter, mesmo não sendo pais. Deveriam existir mais grupos destes, não só com a temática da paternidade (que às vezes é apenas um pretexto para outras reflexões), mas sim a desconstruir várias expressões de masculinidades. Sem julgamento, apenas com escuta.
E este ano celebro 2 anos de terapia regular. Depois de algumas experiências menos boas, desenvolvi um preconceito para com terapeutas de saúde mental. Foi-me difícil, primeiro, chegar à conclusão que precisava de terapia. Este primeiro obstáculo é o mais importante porque temos que querer ser ajudados para que todo o processo terapêutico funcione. Depois foi a logística de encontrar uma forma financeiramente viável de ter consultas regulares. O SNS está sobrelotado e as listas de espera são enormes. Para não falar do facto que sinto sempre que existem pessoas que precisam mais que eu. Lá encontrei uma associação de psicólogos e psiquiatras que praticam preços sociais e adequados aos salários dos pacientes. Um oásis no deserto da saúde mental em Portugal, pelo qual estou muito grato. Consigo suportar o custo com dificuldade, mas consigo. Que privilégio. Nestes dois anos tenho sido confrontado comigo mesmo. Estive muitos anos sem olhar para as profundezas de quem sou, com medo de não conseguir processar o que por lá andava. Como todas as pessoas, tenho condicionamentos e traumas colecionados ao longo da minha vida. Graças ao meu terapeuta, tenho conseguido perceber-me melhor e procurar novas perspetivas de me ver. Colocar o holofote nalgumas questões importantes. Nestes dois anos só posso ficar grato pelo privilégio de conseguir ter acesso a este tipo de cuidado da minha saúde mental e trabalhar, semanalmente, no que penso e sinto.
O ano acabou com muitas mudanças na minha vida e na forma como a vejo. Evito resistir às mudanças e encarar tudo como uma aprendizagem. Nem sempre é fácil. Segurei nos braços um segundo filho, ajudei o meu pai a ultrapassar uma fratura, fui confrontado com o declínio físico e cognitivo de pessoas que estimo muito. Conheci pela primeira vez a maldade egoísta e inconsciente, bem perto de mim e da minha família, quando o amor se torna veneno. Tenho visto a narrativa dominante dos media a tentar justificar o horror genocida que o povo Palestiniano está a sofrer às mãos do colonos israelitas. Aprendi a ser melhor pai, a respirar mais vezes e a perceber que preciso de tempo para mim. Fui melhor companheiro e namorado, tentando ser o suporte que um pós-parto precisa, amando e cuidando da melhor forma que consigo. Fui melhor filho. Melhor amigo. E senti, também, que falhei nestes campos todos, que fui insuficiente. Oscilei - e tive a cognição disso - sobre o que sinto em várias matérias. Acho que crescer é exatamente isto: perceber que não existem certezas, nem respostas e que só me resta fazer perguntas e refletir. Que à medida que expando a minha consciência não encontro respostas, mas mais perguntas. Só encontramos espaço para crescer e transcender nas dúvidas e incertezas. É aqui que nos tornamos melhores versões de nós mesmos, de ano para ano. Vou deixar no foro privado o que quero para 2024. Ainda me falta fazer a tabela dos positivos e negativos, as coisas que quero fazer mais e as que quero evitar. As ideias, projetos, expetativas do novo ano ainda estão a marinar na minha cabeça e é por lá que quero que fiquem. Vou escrever a carta anual para o João do final de 2024. Mas quero deixar aqui um compromisso: continuar a escrever esta crónica semanal. Organizar-me de modo a conseguir ter, todas as sextas-feiras às 08h da manhã, esta publicação no Substack. Partilho esta intenção convosco, que me leem. Mas principalmente comigo, que escrevo. E apesar de querer ser lido, escrevo porque me faz bem e arruma as ideias. Agora que comecei, não quero parar.
Que 2024 seja um ano de expansão coletiva da consciência. Que nos traga espírito crítico, amor e empatia. Bem precisamos. Até para o ano.


