Quem cuida de quem cuida? Parte 2
Olá,
Tenho estado a escrever um texto mais complexo que senti que não ia conseguir terminar a tempo de o publicar hoje. Comecei a sentir aquela pressão, o nervoso miúdo, de quem precisa de escrever mas não está a encontrar o tempo e espaço que precisa para fazer acontecer. Mas desta vez, essa falta de tempo aconteceu pelas melhores razões. No passado fim-de-semana estive no festival Evil Live para assistir a duas das minhas bandas preferidas da adolescência: Korn e Slipknot. Desliguei o complicómetro e permiti-me escrever outro texto.
Com tudo o que aconteceu este ano acabei por perder a rotina de fazer coisas para mim. Coisas de que gosto e que, no fundo, me fazem bem. Ir a um cinema, um concerto, um jantar ou almoço com amigos. Ver uma exposição. Consumir cultura e descontrair em boa companhia de maneira a sair da repetição dos dias. Os meses a cuidar do meu pai, dos meus filhos, das minhas responsabilidades, foram comendo o tempo livre. Sinto-me uma chaleira daquelas que, quando entra em ebulição, começa com um apito que gradualmente vai aumentando de volume. Esse espaço e tempo são das coisas mais importantes para mim, para a minha saúde mental, para que o apito não se torne insuportável. Preciso desses momentos para recarregar baterias mentais; as férias ajudaram. Mas a vida, para mim, tem que ser mais que uma rotina, obrigações e cuidar dos outros. Também é suposto ser prazerosa, divertida e algo pelo qual vale a pena lutar. A Sofia é uma bênção e percebe a importância desse espaço. Ela vai encontrando os seus micro espaços no dia-a-dia, fruto do privilégio de uma profissão liberal que lhe permite trabalhar a partir de casa. Percebe que eu não tenho esse espaço num trabalho com local e horário definido, a que se somam as horas de transportes de ida e volta (que aproveito ao máximo para escrever, por exemplo, estas crónicas). Claro que ainda vive a prisão - voluntária - da amamentação e também está a precisar de uns valentes dias para ela. Mas até lá encontra formas de me fazer sentir confortável para tirar quase dois dias inteiros para ir a um festival e estar livre de responsabilidades e preocupações e desfrutar de música. Sinto uma enorme gratidão por este privilégio que é ter uma pessoa assim ao meu lado.
Há pouco mais de um ano fiz a mesmíssima pergunta do título desta crónica. Parece que vivi uma vida inteira durante este tempo. E com razão. Muito em mim mudou, principalmente a forma como vejo o mundo. A forma como permito que me afete. Hoje em dia é-me mais fácil reconhecer que preciso de ajuda, ou de tempo para mim. Nem sempre foi assim e essa negação cria um rancor existencial do qual, pelo menos por agora, me livrei. Cuidar de mim também implica perceber os meus limites. As minhas necessidades e como nutrir-me emocionalmente. Ir a um concerto com amigos, ouvir música que gosto e me faz sentir bem, é cuidar de mim. Ler à noite, depois de pôr os miúdos na cama, é cuidar de mim. Ir ao cinema é cuidar de mim. Mas tudo isto só é possível com a tal rede de apoio sobre a qual já aqui prosei. No meu caso, essa rede começa logo em minha casa, com a pessoa com quem partilho a vida. Sem a Sofia, estas coisas que me fazem tão bem não seriam possíveis. Sem mim, aqueles momentos que ela vai tendo para o seu auto cuidado sem o apêndice mamário - vulgo filho mais novo - não seriam possíveis. Precisamos de nos acolher um ao outro. Estejamos em fases diferentes, mais cansados, menos, mais para cima, mais para baixo. Vamo-nos aparando. Cuidar de quem cuida tem que começar aqui. A rede de apoio temos que ser nós, o casal, em primeiro lugar.
Ouvi há uns tempos a Brené Brown no podcast do Tim Ferriss a falar sobre o quão um casamento nunca é 50/50:
Cuidar de mim significa precisamente isto. Saber em que ponto estou e quanto consigo dar. Se não estiver no meu melhor, explicar. E se ambos não estivermos bem, conversar e arranjar estratégias para minorar o impacto do nosso estado de espírito na nossa família e um no outro. Daí a importância da cabeça leve. Aumenta o espaço entre o estímulo e a reação e é aí que eu me conheço melhor.
A rede de apoio continua a ser importante. Os pequenos detalhes de quem se preocupa connosco e percebe que o nosso bem-estar se reflete no dos nossos filhos. Amigos que nos desafiam para coisas e cujas famílias também são casa. A família que se chega à frente quando pedimos e não pedimos. Saber que somos acolhidos quando precisamos, na distância de um telefonema. Há uns meses voltei a ter dores na minha ciática - sim, já sei, estou velho - e ainda pensei em ir a conduzir para o hospital. Equacionei todos os perigos possíveis e acabei por ligar em plena hora de jantar a um amigo que mora ao pé de nós. Pesou-me a culpa da hora, de ser dia da semana, de o saber cansado como eu. O sinal de chamada soava no meu ouvido e eu hesitava cada vez mais a pensar que não tinha o direito de importunar, que deveria saber resolver isto sem ajuda. O individualismo crónico incutido socialmente borbulhava dentro de mim. Assim que atendeu percebeu que algo se passava e em menos de 10 minutos estava à minha porta para me apanhar. Ainda lhe mandei mensagem a dizer que tinha pensado melhor e que ia de táxi mas isto não lhe fez qualquer sentido. Como não faria a mim, se estivesse na posição dele. Também quereria ajudar, acolher, ser útil, fazer companhia. Porque é que estar numa posição vulnerável me parece tão impositivo? Lá me conduziu ao hospital, esperou que eu levasse uma injeção, que o efeito começasse e ainda me deixou em casa. Perdeu tempo da sua vida, com a sua família, para me ajudar e não hesitou por um segundo. Rede de apoio é saber que podemos contar com pessoas assim, que não cobram, que se preocupam, que nos querem ver bem. É outro enorme privilégio que tenho na minha vida, pelo qual estou muito grato.
Há demasiadas pessoas no mundo sem este privilégio. As mulheres por terem nascido com uma vulva num mundo onde os homens continuam cegos e resistem a reconhecer as vantagens de existir numa civilização patriarcal. Homens, que mesmo com a bênção de terem um pénis num mundo falocêntrico, perderam o jogo da lotaria genética e social. Há privilégio de classe, de género, de raça, de idade. É triste saber que se cuida cada vez menos de quem cuida. Não gosto do mundo para o qual galopamos montados num egoísmo exponenciado pela desculpa da sobrevivência do mais forte. Precisamos olhar uns para os outros com a empatia que nos faz, de facto, preocupar e querer saber quem está à nossa frente. Podemos começar em casa, com os amigos e vizinhos. Dar a mão, acolher. Evitar julgar e tentar compreender o outro. Existir com harmonia. Tentar criar pontes. Tantas famílias precisam disso: em vez de querer ter razão, ter amor. Falta-nos a paciência para tolerar o que nos parece diferente e compreender os outros pontos de vista. A mim também, demasiadas vezes. Cuidemos, então; de nós e dos outros.
Abraço-vos,
João
Não tenho lido tanto quanto gostaria na última semana. Continuo a percorrer as páginas do livro da Emma (pergunto-me em quantas crónicas mais vou escrever esta frase ou uma variante dela). Também o das entrevistas ao José Mário Branco.
Encontrei um site maravilhoso que me fez sorrir com a nostalgia. Ainda sobre a nostalgia da internet de outros tempos, a Sophie Koonin escreveu um artigo sobre as páginas retro em 1999. Foi maravilhoso seguir a viagem a outra época. Eu usei os gif’s animados das chamas e a dizerem “under construction” e foi como ter regressado a passado longínquo que me fez sorrir.
Vi, finalmente, o “Ainda Estou Aqui” do Walter Salles. Percebo a crítica de que é uma perspetiva burguesa das consequências da ditadura e que evidencia muito a discrepância do nível de vida entre as classes sociais. Não obstante, é um filme que me tocou (talvez por também eu me rever nessa pequena-burguesia) porque mostra de forma inequívoca o que nos deve apoquentar numa ditadura: a ausência de liberdade e humanidade e o medo a cobrir todos os campo da existência.
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