Quem cuida de quem cuida?
"Nascemos para ajudar-nos uns aos outros, como os pés ajudam as mãos, as pálpebras e os dentes de cima e de baixo. É contra a natureza prejudicarmo-nos mutuamente." - Marco Aurélio
Olá,
Há umas semanas, lá por casa, fomos todos apanhados por uma maleita que nos deixou de rastos. Chamei-lhe, carinhosamente, a peste bubónica.
Começou com o mais velho que chegou a casa cansado e com dores no corpo. Nos dias que se seguiram, escalou para uma febre alta que demorou quase uma semana a espaçar e, finalmente, desaparecer. No processo, o mais novo também começou a ficar rabugento e, mais tarde, com febre. Foi uma semana intensa de enfermaria com os dois bastante carentes, a precisar de mimo, hidratação e amor. Mas, ao final de uma semana, comecei eu com os mesmos sintomas do mais velho (e percebi o que ele dizia sobre dores na barriga das pernas, vá se lá saber que manifestação sintomática estranha é esta). O mais velho ainda estava a recuperar e o mais novo ainda estava bastante afetado. Mas afetou-me, e de que maneira: dores no corpo, cansaço extremo. No dia a seguir, começou a Sofia. Fomos todos abaixo, com as dificuldades na logística diária que isso acarreta, bem como a sobrecarga emocional para todos. Há menos disponibilidade, paciência e capacidade de lidar com a frustração. É horrível ser-se pai quando estamos doentes.
Tivemos apoio nalguns dias. Principalmente quando o mais velho estava mais recuperado que todos os outros; acabámos por ter quem o passeasse, quem ajudasse com tarefas e lides domésticas. Mas, mesmo assim, nestas alturas, apetece-me sair de casa e ficar de molho, em isolamento. Fugir. Dei por mim a ir ao Reddit pesquisar sobre “parenting while sick”, à procura de dicas ou protocolos ultra funcionais. Acabei por me rir bastante com a semelhança em como nós pais, de todo os cantos do mundo, sentimos este tipo de dificuldade. A maior parte das respostas resumiam-se a sugestões de centralização de água, lenços e snacks na divisão maior da casa, pôr lá um colchão e ficarmos todos por lá em modo vegetativo. Não há leis sobre tempo de ecrã e zero culpabilização em encomendar comida. O importante é sobreviver e ultrapassar a virose. Foram muitos os relatos de pais acamados com crianças pequenas aos saltos em cima deles. Faz parte, mas é duro. É demasiado duro.
Um dos problemas da falta duma rede de apoio, ou da sua insuficiência, é quando um, ou os dois, cuidadores ficam menos aptos para cuidar das crianças. Dei por mim a pensar que haverão estruturas familiares muito menos privilegiadas que a minha que tornam uma valente gripe numa tarefa ainda mais hercúlea do que aquela que passámos lá em casa. Pensei que, em cada freguesia, deveria existir um serviço de cantina que pudesse ajudar as famílias nestas alturas, com comida saudável e a preços mais acessíveis. Que houvessem voluntários que se disponibilizassem a ajudar com algumas tarefas. Olho para estas ideias, que me parecem tão naturais e lógicas, mas que fazem tanta falta que me recordam - violentamente - que o problema é sistémico e endémico. Estas lacunas não acontecem só quando as pessoas estão doentes; acontecem, em muitas famílias, quase diariamente.
Já aqui falei muitas vezes sobre a necessidade de criarmos comunidades e redes apoio dentro delas. Se calhar, o problema está numa falta de proatividade. Por exemplo, quando falamos com amigos que estejam a passar por dificuldades e nos oferecemos para ajudar com o que for preciso. Ajudar, de facto. Passar lá por casa com comida saudável, um pacote de chás, um pão. Perguntar se têm Vicks Vaporub para ajudar com sintomas e desconfortos. Ligar a dizer que estamos na rua deles e se for preciso subimos para ajudar com alguma lide doméstica. Eu sei que há alguma impraticabilidade nestas ideias, mas são princípios que podem ser de uma utilidade muito grande. E se praticados com aqueles que estão geograficamente mais próximos de nós podem-se tornar autênticos alicerces de uma comunidade sólida. Estas ideias são apenas o reflexo das minhas próprias necessidades nestes dias. De um certo desespero, até. Ajuda com as refeições, logística da casa. Compras, medicamentos. Todas as tarefas que puderem ser partilhadas, no fundo.
Há um grande esforço na nossa organização social de castrar o esforço comunitário. O culto do indivíduo e do seu núcleo mais próximo, a constante exposição a propaganda ao consumo, o enaltecimento da importância do nosso bem-estar. As nossas rotinas isolam o núcleo familiar da restante sociedade; vivemos enfiados em rotinas e raramente partilhamos; uma conversa, uma ideia, um café, um sorriso, um abraço, um apoio. Não sinto que seja este o caminho, enquanto sociedade. Mas terá que partir de cada um nós sonhar com a mudança de paradigma e agir em conformidade; começa por alterarmos a forma como nos relacionamos, onde somos mais presentes e empáticos, prontos a trocar algum do nosso tempo de ecrã por verdadeiro trabalho comunitário.
Abraço-vos, que já não o faço há algum tempo,
João
PARTILHAS
O uso disseminado de ecrãs por parte das crianças é abordado num brilhante artigo do “The Atlantic”.
Um artista britânico, já falecido, que nunca pôs os pés no médio oriente andou a lançar dezenas de discos com a Palestina como temática:


Tens toda a razão relativamente às redes de apoio. Mas gostava de acrescentar uma coisa…
Eu próprio faço parte de uma rede de apoio a dois familiares que são Pais de primeira viagem.
A minha irmã e o meu primo (que no fundo, também é meu irmão) e deixa-me que te diga que a cultura de que falas (a tal que atenta ao sentido de comunidade) se encontra enraizada a um nível muito profundo. Ao ponto de, mesmo aqueles que têm o privilégio de ter estas redes de apoio, sentirem que não as devem usar sem ser em “emergências” (o que é uma emergência neste contexto? Um conceito difícil de delinear)
No fundo… sentem a responsabilidade como sua e unicamente sua.
Tenho dois exemplos ambos bem contraditórios. O meu primo, que me liga para lhe fazer uma sopa sem qualquer questão. E a minha irmã que me fala das dificuldades posteriormente e quando lhe digo “devias ter ligado” ela me responde “não queria chatear”.
Temos de educar também os beneficiários das nossas redes de apoio para que sintam à vontade em recorrer a estas redes pois muitas vezes há um sentimento de culpa e incapacidade associado ao pedido de ajuda.
Temos de normalizar o pedir ajuda aos que nos rodeiam. Da mesma forma que temos de normalizar a aceitação das nossas limitações e cultivar uma cultura de inter-ajuda, seja na parentalidade ou em qualquer outro aspeto das nossas vidas.
Talvez assim sejamos capaz de começar a bola de neve da cooperação (e compaixão).
Um abraço João.
Também idealizo uma comunidade mais como aquilo que descreves neste artigo, mas também é como dizes, tem que partir de nós. Gostava de o fazer mais vezes, de oferecer ajuda em vez de esperar a reposta a "precisam de alguma coisa?".
Por vezes, achamos que já estamos a fazer a nossa parte ao perguntar, mas se virarmos o foco para nós, quantas vezes é que respondemos afirmativamente a essa questão?