Quem conta um conto.
Olá,
Inacreditavelmente, escrevi o meu primeiro conto em anos. É-me difícil de crer porque foi custoso escrevê-lo – demasiadas vezes achei que não o ia terminar, que era uma tarefa impossível. Há um esforço hercúleo em idear uma história – podia ser um falso modesto e justificar esta dificuldade com um putativo perfeccionismo. Mas a verdade é que me custa a imaginação. E o perfeccionismo é a máscara da insegurança. Sai-me naturalmente a ideia inicial, a sensação sobre a qual quero escrever. Agora, a estruturação dessa imagem, dessa abstracção, e a respectiva escrita e construção narrativa, é como subir a um dos mais altos cumes do universo.
Comprimido azul ou vermelho?
Como o Neo – o escolhido – no filme Matrix, sempre que me sento para escrever tenho uma escolha a fazer. Posso ir beber do real e escrever no formato onde me sinto mais confortável: a crónica, a divagação pela minha mente ancorada nas coisas que vou vivendo e pensando. Sai-me naturalmente: limito-me a escrever sobre o que já anda por aqui a maturar há dias ou semanas – às vezes meses. Ou posso escrever ficção, atirar-me de cabeça nesse abismo do desconhecido e arriscar escrever páginas que podem dar em nada ou acabar em tudo. Mas esse processo, essa queda livre, é-me pesarosa. Descobri que para Annie Ernaux é precisamente o contrário: a autora sente-se mais confortável a escrever ficção porque há esforço maior quando olha para o real, para a auto ficção, um trabalho de relatar e pensar-se a si mesma. Cada um como cada qual. Ora, eu, quando me proponho a escrever, fito nos olhos Morpheus com as palmas das mãos viradas para mim, segurando um comprimido, cada uma representando uma escolha. Tenho escolhido o caminho mais confortável e escrevo sobre o real. Porém, numa das últimas vezes em que fui confrontado com a escolha, optei pelo outro comprimido: o da ficção. Enchi-me de coragem, motivado pelo concurso de contos dos Novos Talentos Fnac e lá fui eu. Já tinha a sensação do que queria escrever dentro de mim. Achei que escreveria os tais 12.000 caracteres com espaços incluídos numa semana ou duas. Enganei-me.
Arrancado a Ferros
A escrita do conto saiu-me do pêlo. Começou por ter um caminho, claro. Mudou, depois, de rumo e o caminho já era outro. Quando estava com a certeza da sua estrutura e onde queria chegar, mudou tudo outra vez. É esta descoberta que me deixa desconfortável: o escrever numa constante procura daquilo que de facto quero contar. Porque quando se parte de uma sensação – uma impressão – não há outra maneira de fazer as coisas. Se a há, eu não ainda não a descobri. Escrever é procurar. Demorei um mês e pouco para escrever o dito conto. À medida que escrevia, queria fugir para escrever sobre escrever o conto. A ironia da fuga para o tal concreto que me ocorre de forma mais dócil. Quando terminei, senti que tinha colocado no documento digital aquilo que queria dizer. Faltava-lhe algo, contudo; como quando o marceneiro termina uma cadeira e, apesar de já dar para nos sentarmos, ainda falta aplicar o verniz que a tornará numa cadeira, de facto, apresentável. Tinha quase quinze mil caracteres na primeira versão. Precisava estropiar o que acabara de escrever, pensei. A contragosto, comecei a eliminar frases inteiras. Parecia que me arrancavam parte da alma. Há um apego ao que escrevemos. O meu é grande. A ele soma-se a sensação que tenho sempre que aloco tempo a uma actividade e sinto que desperdicei algo. Que as frases apagadas eram restos de um esforço em vão. Mas à medida que o texto ficava mais curto, ficava também polido – envernizado, tal e qual a cadeira quando está terminada. Não estava a deitar fora, estava a limar as faces rugosas do que viria tornar-se o meu conto.
O Processo
Tive ajuda, claro. Dei a ler à Sofia. Pedi uma revisão – que foi inestimável – à Raquel Dias da Silva. Ao Pagomes. É importante receber retorno e crítica construtiva para conseguir espremer uma versão final. A validação de pessoas por quem tenho grande estima intelectual é-me importante. Faz-me ver que o que escrevi para ser partilhado chega aos corações das pessoas. Que não escrevi algo hermético, que precisaria do meu mundo interior para ser entendido. Fiquei feliz: por perceber que estas pessoas gostaram do conto e, acima de tudo, por o ter concluído. No processo de escrita desta história em particular – que aqui partilharei com todo o gosto assim que terminar a avaliação do júri do concurso – percebi que me enganei a mim próprio. Escrevi um conto com base numa história antiga da minha família. Está ficcionada, adulterada com a minha imaginação, com elementos que nunca existiram e com uma estrutura que transformou a mera memória de um relato oral numa narrativa coerente. Mas a ideia principal – a tal sensação, impressão ou imagem inicial – está lá. Olhando para as minhas ideias, as que levei a bom porto, constato que partiram sempre de uma experiência real. A imagem vinha sempre de algo que tinha ouvido falar, ou de uma mistura de histórias que me relataram, ou algo que eu vi. A história que eu queria contar nascia do real – a tal dimensão onde me sinto profundamente confortável. Se calhar, o processo de criar ficção tornou-se gradualmente mais fácil à medida que o desconforto do arranque se desvanecia e a realidade, o processo mental e a memória se fundiam. Sinto que tenho uma infinitude de histórias dentro de mim. O que as distinguirá das crónicas será uma entrega diferente na forma – mas sei que precisarei escrever muito mais para discorrer sobre esta questão. Talvez quando me conhecer melhor. Até lá, sirvo-me das palavras de quem escreve e melhor traduz aquilo que sinto.
DORN
Konstantin Gavrilovich, gostei muitíssimo da sua peça.
Era um pouco estranha, e não chegámos a ouvir o final,
mas, mesmo assim, causou-me profunda impressão.
Você tem talento, deve continuar. (TREPLEV aperta
vigorosamente a mão de DORN, depois,
impulsivamente, abraça-o) Ora, ora… tão agitado… E
lágrimas nos olhos… O que é que eu lhe queria dizer
mais? Você escolheu um tema do domínio das ideias
abstractas. E esteve certo em fazê-lo, porque a obra de
arte tem sempre a obrigação de exprimir uma ideia
verdadeiramente significativa. Só é realmente belo o que
é relevante. Mas está tão pálido…
TREPLEV
Está a dizer-me que devo prosseguir?
DORN
Estou… Mas só se deve pintar o que é importante e
eterno. Pois muito bem, eu tenho sido uma pessoa com
uma vida muito cheia e variada, bem vivido, e sinto-me
satisfeito por isso. Mas se alguma vez experimentasse a
elevação dos artistas na actividade da criação, parece-me
que acabaria por desprezar este meu invólucro material
e tudo o que lhe diz respeito. Levantaria voo da Terra,
para subir às alturas, tão longe quanto me fosse possível.
TREPLEV
Desculpe. Mas onde está a Nina, por favor?
DORN
Ainda outra coisa. Na obra de arte, tem de haver sempre
um pensamento claro e bem definido. Tem de saber para
que é que se está a escrever. Se enveredar por um
caminho cheio de pitoresco mas sem objectivo,
perdemos o rumo e somos aniquilados pelo seu próprio
talento.
Excerto de A Gaivota de Anton Tchekov, numa tradução de Fiama Hasse Pais Brandão
Vi recentemente a encenação do Diogo Infante de A Gaivota no Trindade. Foi a minha primeira peça de Tchekov e fiquei com a impressão de que comecei da melhor maneira possível. Mais, percebi que me falta muita “cerelac teatral” – nem só de livros se pode alimentar o conhecimento do drama, do pathos. Há uma dimensão que o Teatro acrescenta a uma história – e que o Cinema, quando assenta os seus pilares na dramaturgia, também. Esta noção de que a “obra de arte tem sempre a obrigação de exprimir uma ideia verdadeiramente significativa” ressoa comigo. Não no sentido panfletário ou escudado num qualquer fundamentalismo ideológico. Mas quando se produz arte tenta-se transmitir uma ideia: uma sensação, uma impressão, uma crítica, uma emoção ou constatação. Algo. A arte serve o seu propósito na sublimação que provoca no ser humano. E quando escrevo, parece que se fecha um ciclo: a imagem com que começou traduz-se num corpo de escrita que termina na imagem que se forma em quem me lê. O sucesso desta empreitada está em conseguir que as imagens coincidam. Que a mensagem passe de forma clara – que eu tenha a clareza quando acabo de escrever e que quem lê compreenda. Por isso, “na obra de arte, tem de haver sempre um pensamento claro e bem definido”. “Mas sem objectivo, perdemos o rumo e somos aniquilados pelo (...) próprio talento”.
Objectivo
O porquê de escrever tem mudado à medida que cresço. E à medida que escrevo. Estas crónicas servem para pensar o que penso, já aqui o escrevi. E vou, assim, conhecendo-me melhor. Mas há um sentimento de dever escrever – escrever como uma necessidade fisiológica. Encontrei novamente, nas palavras da Annie Ernaux, a descrição porque também quero escrever contos. Porque é que a ficção começa a assumir uma preponderância na minha vida.
“Salvar do desaparecimento seres e coisas entre os quais fui a atriz, o tribunal ou a testemunha, numa sociedade e numa época determinada, sim, sinto que é essa a minha grande motivação para escrever. E ela é também uma forma de salvar a minha própria existência. Mas isso não pode ser feito sem esta tensão, este esforço de que acabei de falar, sem uma perda do sentimento de si na escrita, uma espécie de dissolução, e também com uma distância extrema. Razão pela qual o diário íntimo, por si só, não me salva. Porque ele salva apenas os momentos que são só meus.” A Escrita como Uma Faca, Annie Ernaux – pp.111
Talvez para “salvar a minha própria existência” escrevo estas crónicas semanais. Também eu sou actor, “o tribunal ou a testemunha, numa sociedade e numa época determinada”. Mas sinto-me impelido a escrever ficção de modo a salvar “seres e coisas”, da minha vida e experiência mas também do que testemunho e me toca profundamente. Que se entranha dentro de mim e me transforma. Quero escrever para salvar tudo isto e, no processo, procurar a minha salvação, essa vontade tão primitiva de perdurar para além da vida. Procuro na escrita a minha pedra filosofal, um elixir para a imortalidade. Para que fique algo de mim quando cá não estiver. Para que, também, os meus filhos me leiam e fiquem a saber um pouco mais do que ficará por dizer.
Abraço-vos,
João
Tirando uma gralha ou outra, este texto foi escrito com o antigo acordo ortográfico.
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