Primeiro, a classe.
Olá,
Comecei a escrever esta crónica no dia a seguir às autárquicas. Como pessoa de esquerda, acordei a precisar de um gaviscon e muita água das pedras para começar a digerir esta cimentação à direita. Imagino que, por este país fora, haja muita gente como eu: incrédula, desanimada e forçada a refletir nas causas, consequências e caminhos para o futuro. Vão ser escritos inúmeros artigos de opinião sobre os resultados, cada um a puxar a brasa à sua sardinha. Peças jornalísticas que vão trazer análises e os vieses a que os órgãos de comunicação já nos habituaram, com títulos manipulativos e construções jornalísticas dúbias. Tendo plena consciência que o meu entendimento sobre o funcionamento das autarquias é limitado, não me vou juntar ao coro de análises, opiniões e bitaites. Não sou politólogo, tão pouco: não me atrevo a fazer reflexões conjunturais nem presumo saber qual o caminho que as esquerdas devem fazer. Mas pertenço a esta sociedade e posso exercer a minha cidadania e pensar no que quero fazer com ela.
Só consigo compreender esta tendência de ir na onda dos populismos da direita à luz de uma incapacidade crónica de sermos críticos em relação à informação que nos é dada. Isto não é novidade para ninguém que me lê há algum tempo; escrevi muitas vezes sobre esta falta de sentido crítico que se manifesta em tantos domínios da sociedade e vida civil, desde as escolas às nossas casas. Por vezes sinto que estou a fazer uma sinalização de virtudes ou que subo ao púlpito onde prego a minha superioridade moral. É importante relembrar-me que eu, também, estou num processo onde o meu sentido crítico me falha por vezes e, como tantos de nós, bebo dessa fonte imensa que é o discurso cultural e político que habita os nossos dias. Também eu estou na escuridão da caverna, a ver as sombras e a tomá-las como real. Talvez, por isso, sinta que é tão importante participar em comunidades com as quais me identifico . Partilhar com os outros pais a fragilidade que é, diariamente, cuidar de dois seres humanos. Contribuir para o grupo de pais do grupo de escoteiros, com apoio logístico e mão-de-obra. Solidariedade e sentimento de pertença, sem receber nada em troca.
O meu país não é igual ao país dos meus concidadãos. Eu vivo num subúrbio dos arredores de Lisboa e trabalho em Lisboa. Nasci, cresci e vivi a maior da minha vida no centro de Lisboa, numa zona tranquila e privilegiada. A miopia sócio-económica é um privilégio de classe e um flagelo para a empatia e solidariedade humanas. Como bom burguês de classe média, nunca tive consciência do meu próprio privilégio até o ver confrontado. Primeiro com as experiências de quem habitava a mesma cidade que eu mas com a lente de uma classe mais desfavorecida. Cresci com o abismo entre a Quinta dos Inglesinhos (o atual prolongamento da Avenida Estados Unidos da América) e os bairros de Alvalade. Depois com o confronto com as periferias: há, de facto, uma grande pobreza material e económica à medida que nos afastamos dos centros urbanos. E este meu discurso, centrado na área metropolitana da capital do país, ignora a experiência dos restantes distritos nacionais e revela outro tipo de privilégios com os quais cresci e tomei por garantidos. Mas a consciência de classe não basta: posso saber que estou no topo da pirâmide e ver reforçados os meus privilégios e crenças consequentes. Acreditar, piamente, que é meu direito ocupar esse lugar. O oposto também é válido: posso saber que estou numa classe desfavorecida e explorada e aceitar essa realidade como dado adquirido, num determinismo que condena ao difícil acesso do elevador social. Como tanta da habitação social deste país, os elevadores não funcionam e a manutenção é inexistente.
Falta-nos, pois, solidariedade. É difícil encontrá-la num mundo que roda à volta do consumo desenfreado e na produção desmesurada. É-nos incutido, desde novos, uma necessidade supérflua de consumir o que nos é apresentado como caminho para uma vida melhor e um maior sentimento de pertença com o todo. Se comprarmos X iremos pertencer, estaremos mais próximos desse nirvana neo-capitalista que é ter o que percecionamos como bom e essencial para uma vida plena. Para isto, temos que combater os outros, almejar mais que os outros, “bater punho”, ter espírito de sacrifício e evitar olhar os meios para atingir os fins. É uma batalha entre nós e a economia capitalista que nos empurra para um chafurdanço na lama para podermos ter as necessidades básicas asseguradas e, quicá, o último modelo do Iphone, ou uma televisão maior, ou um BMW assinalar a nossa posição conquistada a custo. Não há lugar para solidariedade nesta equação: há aparência, dissimulação, arrogância, sorte e muito privilégio na escalada para uma classe mais dominante do que aquela onde no inserimos. Haja crédito, juros e especulação.
“Como diabos um homem pode gostar de ser acordado às 6h30 da manhã por um despertador, saltar da cama, vestir-se, comer à força, cagar, mijar, escovar os dentes e o cabelo, e lutar no trânsito para chegar a um lugar onde, essencialmente, faz muito dinheiro para outra pessoa e lhe é pedido para ser grato por isso?” - Charles Bukowski, tradução livre do inglês feita por mim, perdoem-me as imprecisões.
Os nossos enfants terribles têm-nos alertado para este problema. Volto ao meu lugar de fala: apesar de vivermos em cidades com milhões de pessoas, somos isolados dos outros através da ilusão da competição. De nós, as nossas famílias, os nossos núcleos, contra os outros. Mas, porra, viver como se o mundo fosse uma tarte onde uns recebem fatias maiores ou menores, outros migalhas e a maioria absolutamente nada, acaba com o animal social que somos por natureza. Vivemos na pós-escassez: produzimos o suficiente para uma existência confortável de toda a humanidade. Bastaria um espírito de partilha, de apoio mútuo e entreajuda e teríamos assegurados as necessidades básicas de todos os seres humanos, abrandaríamos a produção exploradora e extrativista e poderíamos co-existir numa maior harmonia. Mas esta visão - esta utopia - é antitética ao modo de operação do mundo globalizado. A solidariedade bate de frente na miopia do privilégio de classe e, claro, na necessidade de manter o status quo em detrimento dos outros. Somos vítimas de um darwinismo social fabricado, artificial.
Don’t hate the player, hate the game. Se não jogar este jogo, não consigo o sustento e conforto que considero básicos para a minha família. Mesmo não querendo, acabo por ter que chafurdar no lamaçal da civilização para conseguir manter os meus privilégios, ciente que estou a igualmente distante de quem concentra a grande parte do capital do globo como das pessoas cuja necessidades básicas não estão asseguradas. O espaço que existe para praticar a solidariedade é nas brechas que surgem entre a pressa de pôr os filhos na escola, o horário de trabalho, a deslocação nos transportes públicos, garantir que há o suficiente na dispensa e frigorífico, o trabalho doméstico, pagar a renda da casa, as contas da luz, água e gás. Cuidar da minha saúde física e mental, dos meus filhos, da minha companheira, do meu pai e família mais próxima. É no tempo que sobra desse malabarismo existencial que está a solução para os tempos conturbados que vivemos. Onde se tem mascarado a luta de classes com uma interseccionalidade que nos vai atirando migalhas que tomamos por direitos e conquistas, mas onde a nossa condição material se mantém inalterada ou, na maior parte do casos, piora de geração para geração. O elevador social está avariado, as portas abrem na mesma e vamos caindo no fosso. E não é por acidente, é consequência da forma como nos organizamos enquanto civilização. Não podia estar mais longe do pensamento marxista-leninista - autoritário e igualmente permeável às estruturas de corrupção e privilégio do capitalismo. Mas percebo a importância de trazer para o debate a questão de classe. Evidenciar o privilégio de uns e a difícil luta de outros e pensar como podemos agir nos buracos deste muro social que erguemos nos últimos séculos.
Queremos todos viver uma vida digna, com conforto. Ter as necessidades básicas asseguradas e poder usufruir da vida: tempo para nós, para a família e tempo para podermos estar aborrecidos. Só assim podemos permitir que a humanidade que habita em nós solte a sua criatividade, se sinta preenchida e com um propósito para além da mera sobrevivência. A vida é mais do que um esforço diário para a subsistência - pelo menos, no meu entendimento, deveria ser mais que isso. A luta de classes mudou radicalmente nos últimos cinquenta anos. Está mais entretecida com outras dimensões da vida sócio-económica e tem sido alvo de uma higienização que serve - surpresa! - as classes dominantes. Não sinto que haja espaço para revoluções do proletariado moderno e acho que essa ambição - a da mudança radical, drástica e súbita - é contraproducente para os interesses da esmagadora maioria da humanidade. Precisamos, sim, de mecanismos para supervisionar e fiscalizar a aplicação diária dos direitos fundamentais à vida digna, saúde, habitação e educação. Para isso, há que sair das trincheiras que escavamos na vida adulta, onde nos enfiamos com as pessoas que são mais chegadas e criamos nesses buracos o nosso ecossistema. Existimos desligados e desconectados dos outros, mesmo num mundo onde estamos permanentemente ligados. Falta-nos a presença que vai abrir a porta à solidariedade. Começa, como sempre, em nós. Pelo exemplo.
Abraço-vos,
João
O Cory escreveu um artigo muito interessante sobre a crise da habitação do Reino Unido e como ela está umbilicalmente ligada à associação de habitação com comodidade, ao invés de ser uma necessidade básica. Senti que haviam muitos paralelismos interessantes com a realidade portuguesa no pós Lei Cristas. A habitação, sendo um direito, não pode estar à mercê da especulação imobiliária. Os direitos fundamentais têm que se sobrepor aos imperativos do mercado.
Solidariedade é, também, criar iniciativas que sirvam a comunidade e fomentem uma melhor humanidade. Foi sobre isso que o Pagomes escreveu neste artigo. Uma Oficina de Vozes onde se mistura leitura, pensamento crítico, tertúlia, expressão e reflexão. É uma ideia, mas temos tido um défice enorme de boas ideias nos últimos tempos e ainda bem que há quem lute contra essa tendência. Estou com falta de tempo para o ajudar a arrancar com isto, mas quem puder e se estiver interessado, não se acanhem.
Tenho lido menos. A culpa é do Zelda - Breath Of The Wild, para a Nintendo Switch. Um mundo aberto onde a aventura se mistura com uma narrativa cativante que se desenrola em paisagens maravilhosas. Mas tem-me sabido bem, não jogava há mais de oito anos e é bom ser surpreendido por mecânicas de jogo que, realmente, entretém. A quem não jogou ainda (apesar do jogo ter saído em 2017), recomendo vivamente. É um belíssimo exemplo de como podemos criar narrativas não lineares - apesar do pendor maniqueísta e simplificado do bem contra o mal - que são cativantes e até educativas.


Gostei muito do texto. Sinto-me revista nas tuas palavras.
Obrigado. É bom saber quando as nossas palavras ressoam noutras pessoas. Imagino que haja mais pessoas neste nosso clube que ainda está a digerir tudo isto que tem acontecido.