Primeiras Viagens
Trilhar os caminhos da paternidade.
Olá,
No encontro do Paternidades deste mês, tivemos um quase-pai. Mas senti-o tão consciente e no direito de ser quem é que nunca o olhei a não ser como um pai de pleno direito. Tive inveja. Gostava de ter tido a capacidade de perceber, em 2017, que ter sido tio muito cedo - sem qualquer responsabilidade de cuidador - não me munia das ferramentas necessárias para enfrentar a paternidade. Que o que eu achava que era a paternidade não era mais que um reflexo daquilo que foi feito comigo, com base na autoridade e receio de consequências. Que não iria conseguir aceitar os padrões da minha família e iria querer fazer diferente. Olhei para este pai - que entretanto já recebeu a sua filha nos braços e só posso imaginar o deleite - e gostava de ter tido a humildade de querer saber junto de outros pais como eles fazem. De refletir sobre que tipo de pai quereria ser, que intenções levo para o meu paternar. E beber da experiência partilhada que uma roda de homens - pais - contém.
Ainda não sei ser pai. Acho que não há uma lista de objetivos pedagógicos a atingir e, por isso, aprenderei a ser pai todos os dias da minha vida. A paternidade também é muito isto: um compromisso indelével com uma constante aprendizagem. Penso que muitos pais ausentes - de todas as gerações - talvez sintam que não têm muito a aprender e se deixem calcificar por essa arrogância. Tive que sair da bolha da minha ignorância para perceber que nada sabia, de quase nada. Que escolhi, grande parte da vida, anestesiar e ignorar o que sinto e evitar pensar naquilo que sentia e porque sentia. Encontrei conforto em ter percebido que nos vamos transformando em pais, numa construção diária, que muda connosco e com o que nos rodeia. Muda, também, com os nossos filhos. Vamos dançando com as metamorfoses uns dos outros, numa valsa que só termina quando a música da vida acaba. Ainda não sei ser pai mas cada vez gosto mais de aprender a sê-lo.
Também neste mês nasceu o filho de alguém que conheço há muito tempo. Uns dias antes do parto calhou falarmos; entre as típicas congratulações, falámos um pouco de paternidade e ouvi, novamente, a tal maturidade que lamento não ter tido. Maneiras de olhar para um filho ainda por vir que revelam enorme consciência sobre o processo que ainda não chegara. Ser pai também é isto, ter consciência em cada momento, sobre as nossas intenções e qual a forma de estarmos alinhados com aquilo que somos. Uns dias depois do nascimento, quiseram falar com a Sofia, para poderem expressar as suas dúvidas, livres de julgamentos. No fundo, há conversas que apenas precisam de colo e, no pós-parto, quem melhor que uma doula para o dar?
Revi-me nas dúvidas, nas ansiedades e inseguranças de pais de primeira viagem. Aquela tendência hiper-masculina de criar planos de ação para solucionar os desafios, o terrível medo do desconhecido, o não saber lidar com a enorme responsabilidade que é ter um filho nos braços, de um momento para o outro. É um processo, lá está. E todos temos os nossos compassos de espera, de aprendizagem e integração. Dançamos, lá está, de formas diferentes. Olho com orgulho para os primeiros anos da minha paternidade. No meio de tanta insuficiência, descobri um caminho que me permitiu crescer. Podia ter escolhido replicar certas receitas geracionais, ou ignorar os meus instintos ou, simplesmente, ter estabelecido outro tipo de intenções. Apesar de me ter sido difícil descobrir quem sou, foi-me fácil sentir que tipo de pai queria ser. Primeiro, por antítese ao que não gostei que fosse feito comigo e, mais tarde, pelo que intuí que seria o correto.
É bom saber que há futuros pais que abraçam a incerteza de uma outra forma. Cujo ego não os cega para o processo de aprendizagem. Gostava, lá está, de ter feito diferente e, se calhar, ter tido uma outra abordagem no início da minha jornada de paternidade. Ao mesmo tempo, sei que não seria quem sou hoje senão tivesse passado por tudo o que passei até chegar aqui. Vamos aprendendo, um dia de cada vez. E que neste caminho possa sempre ser colo e amor para os meus filhos, independentemente de tudo.
Abraço-vos,
João


Que bonito texto de humildade e com tantos ensinamentos. Eu, mãe de segunda viagem há 2 meses (com um primeiro filho de 2 anos), estou muito curiosa com todas as aprendizagens que vou ter ao longo desta vida com este papel de mãe. Já de si tão transformador, que nos mantém num lugar de estudante eterno, curioso e atento. De respeito pelas diferenças, abraçando-as, conectados por amor.
Que bom estar sempre a aprender, não é? Na escola quase que me formataram para detestar aprendizagem, mas hoje gosto de ir questionando e aprendendo um pouco mais sempre que posso.