Prendas
“Não somos ricos pelo que temos, e sim pelo que não precisamos ter.” — Immanuel Kant
Lembro-me de receber inúmeras prendas em criança. Lembro-me da excitação que era desembrulhar o papel e ver o que me aguardava. Uma figura de ação, uma miniatura de um carro, soldadinhos verdes do exército. Fui muito privilegiado enquanto crescia mas, não obstante, fui também uma vítima da sociedade de consumo rápido. Abria os presentes, ficava maravilhado por alguns segundos, e rapidamente passava para o próximo. No final, com o espólio diante dos meus olhos, acabava por brincar apenas com um ou dois dos brinquedos mais sonantes e/ou desejados. Os outros, eventualmente, também seriam companheiros de brincadeira, mas sem o mesmo entusiasmo e dedicação. Já adulto, demorei algum tempo a desconstruir este comportamento e, ainda hoje, sinto o impulso de consumo imediato que refreio com muito custo.
As crianças não têm capacidade de processar, muito menos usufruir, de tanta novidade de uma vez. Ficarão sempre mais focadas no brinquedo mais interessante e dar-lhe-ão a maior atenção. Vemos isto em inúmeras outras situações no quotidiano delas. Na escolha das plataformas de streaming. Nas brincadeiras com os seus pares.
Como pais, acho que podemos mitigar um pouco este consumo desenfreado e torná-lo um pouco mais consciente, sem sermos limitadores. O A teve a sua festa de anos no fim de semana passado. E recebeu inúmeras prendas dos seus amigos e familiares. Poderemos vir a discutir que esta tradição, por si só, também alimenta um ciclo vicioso de consumo inconsciente mas falarei disto noutra crónica. À medida que ele recebia cada prenda, maravilhado, comentava com quem estava à sua volta o quão fixe era. No meu tempo, eu abriria logo e brincaria uns segundos até receber a próxima. Mas desde novo que ensinámos o A a guardar as prendas todas num saco para, depois, já em casa, podermos abrir uma de cada vez.
Não criámos esta pausa com uma intenção altamente pedagógica. Ela foi criada para evitar perder brinquedos e criar atritos nas suas festas. Com o passar dos anos vimos que a separação entre o receber a prenda e o abrir permitia um espaço de apreciação maior. Com calma. E mais, permitia que a celebração do aniversário se prolongasse: depois do jantar, abrimos uma prenda por dia. Admito que isto possa não funcionar com todas as crianças e dinâmicas familiares, mas connosco funciona.
Este tempo e espaço acaba por criar um usufruto maior - e consciente - de cada brinquedo. Permite-lhe ter o tempo para montar cada lego e brincar, para ouvir uma história por noite de cada livro novo. Para desembrulhar umas figuras de ação ou um jogo e, nesse momento, estar apenas com esse brinquedo.
Por isso, ao longo desta semana, fomos abrindo as prendas. E ainda faltam algumas! Fomos montando os Lego, lendo algumas histórias dos livros novos. E ficamos todos com a sensação, principalmente o A, que estamos plenos em cada prenda que lhe foi oferecida. Que saboreamos e damos a atenção devida.
Fico com a ideia de que é com esta calma e consciência que vamos construindo alternativas ao consumo rápido e diário. Não pretendo aqui sinalizar virtudes e vangloriar-me de nada. Mas acho mesmo importante refrear o que nos é socialmente imposto, pelo menos enquanto ainda temos a ilusão da escolha. Proponho um momento de reflexão e uma prática alternativa à abertura imediata das prendas. Porque, olhando para trás, fico com a sensação de que não apreciei verdadeiramente o que me era dado - era tudo demasiado rápido e, como qualquer criança, estava ansioso pelas prendas que mais queria naquela época.
E acho que ser Pai também é mostrar alternativas e modelos diferentes de fazermos as coisas. Só assim poderemos desconstruir vícios sociais que poderão não ser os melhores para nós e para os nossos filhos. Façamos, sempre que possível, esta reflexão.


Adorei esta reflexão e acho que vou implementar essa ideia de não abrir prendas nas festas mas sim depois, uma por dia.