Precisamos de Empatia
Os últimos meses têm sido intensos. Pessoal e profissionalmente, têm sido muitos os desafios que foram (e são) necessários conjugar. Tenho tido em mãos projetos profissionais de grande dimensão com prazos ridiculamente apertados que me fazem ter de despender horas a mais fora de casa. A ginástica organizacional necessária para isto é complicada. Temos usado e abusado da nossa rede de apoio - que muito nos tem safado e é um privilégio pelo qual só posso estar grato. Acumulo as aulas à noite, que muito gozo me dão e que complementam o orçamento da família. Também tenho as minhas quezílias pessoais e a carga emocional que tudo isto acarreta. Sinto-me assoberbado pela vida com a plena consciência que estamos todos neste barco, em maior ou menor escala, na sociedade onde vivo.
Talvez por tudo isto, também nos últimos meses, tenha optado por enterrar a cabeça na areia em relação ao que se passa no mundo, principalmente na Palestina. Assumo que a luta do povo Palestiniano contra o seu ocupador é do meu interesse há já muitos anos e talvez tenha um grande viés. Consciente que o ciclo noticioso serve propósitos e agendas nem sempre claras, há já uns anos que não sigo as notícias no dia a dia. Vou sabendo o que se passa de relevante através de conversas com as pessoas e do Instagram. Mas desde o dia 07 de Outubro deste ano que fui bombardeado pelo horror em imagens. Primeiro pelas atrocidades perpetuadas pelo Hamas, que condeno - mesmo consciente do contexto histórico que os fez chegar a este ponto. Nada justifica a barbárie. Depois pela resposta desproporcional, racista e genocida do estado ocupante do território Palestiniano. Repito: nada justifica a barbárie.
Sou demasiado sensível à exposição de imagens em alta definição de uma limpeza étnica. E por isso, fugi à exposição mediática do que se está a passar na Palestina. Deixei de seguir certas contas, bloqueei outras. No Instagram, sempre que via alguma coisa relacionada com o tema, desviava o olhar. Na azáfama do meu dia, na carga mental que carrego, senti que não tinha espaço para este horror. Aperta-me o estômago, a garganta e fico com lágrimas nos olhos sempre que penso que existo, com a minha família, com o nosso privilégio, enquanto o povo Palestiniano está a ser aniquilado.
Há uns dias falava com uma amiga que conheço há muitos anos. Agradeceu-me a partilha de um post de uma ativista Palestiniana, em Gaza. No texto, havia uma pesada aceitação de que a morte está iminente, palavras vazias de esperança de viver. E a frustração de um povo por ter a cor de pele errada, a religião errada, que os condena ao holocausto. Desabafei com a minha amiga que sinto que tenho fugido de tudo isto, que me sinto impotente, que vejo que a estrutura social em que vivemos está desenhada para que não possamos fazer nada. Temos voz, bem sei, mas se é ignorada, de que nos vale?
Ela lembrou-me que temos a nossa vida, com as nossas dificuldades. Eu percebo, eu compreendo. Mas há algo nesta resignação que me incomoda. Há algo no meu silêncio, no meu mecanismo de sobrevivência, que entra em choque com os valores que defendo. Perscrutei muito quem sou para olhar de frente para a verdade incómoda: não consigo conceber um mundo onde se matam milhares de inocentes por semana, metade dos quais crianças. Há algo sagrado na vida de uma criança. O potencial infinito que, esperamos nós, possa desabrochar em algo palpável é o que a simples existência de uma criança contém. E nesta escuridão que me amarra a garganta e as vísceras, onde olho para quem sou e como me posiciono no mundo, percebi que olhar para o lado durante um extermínio de inocentes é afirmar que não há valor nestas vidas. E que as dos meus filhos e das pessoas que amo então também não têm.
Só a empatia nos poderá salvar. Sim, estamos soterrados com as nossas vidas e as nossas questões mas precisamos perceber que se trata de um momento único. Em que precisamos valorizar a vida, com o todo o respeito que ela merece. É necessário largar a visão simplista e maniqueísta das coisas e começar pelos princípios básicos: matar inocentes não é aceitável. Matar crianças não é aceitável. Temos que nos instruir e intuir que os processos de desumanização de povos e etnias não são aceitáveis, seja para defender que ideologia for. Não há razão numa limpeza étnica. Não há retórica que possa disfarçar os milhares de inocentes mortos em nome de uma causa. Mais do que nunca, devemos voltar a Marco Aurélio. Parafraseando: a melhor vingança é não fazer o mesmo. Precisamos definir a humanidade numa base empática e humanista, com todo o respeito pelo valor da vida humana. Precisamos não perpetuar ciclos de ódio e sofrimento geracionais, que com o tempo se canibalizam. E se assim é, resta-nos a empatia. Resta-nos olhar o próximo com a compreensão e consciência das suas falhas. Com o desejo, genuíno e altruísta, que a sua vida seja melhor, livre de sofrimento. Porque nos é tão difícil desejar que todos sejam felizes? Talvez porque nessa totalidade estão também as pessoas que nos fizeram mal e é tremendamente difícil seguir o conselho do antigo imperador romano.
Ainda preciso sentar-me com a sensação de impotência. De não estar ao meu alcance, pelo menos no imediato, um mundo sem o horror da guerra. Mas estar com a sensação dá-me alento para pensar nos valores - e ações que os materializam - pelos quais gostava que toda a humanidade se pautasse. Que nos pudéssemos imbuir do verdadeiro espírito comunitário e, comunidade a comunidade, fossemos construindo um mundo melhor. Pelo exemplo e sem precisar de nada em troca. E aqui, neste momento da crónica, vou roubar uma lista de ideias de um texto da Vanja, uma sobrevivente da guerra na ex-Jugoslávia: fazer trocas, partilhar refeições, cozinhar juntos, ouvir com empatia, descolonizar as nossas mentes e forma de pensar, organizando eventos gratuitos nas nossas salas de estar, fazendo arte, marchando e manifestando, distribuir apoio e ajuda, defendendo causas, dar a mão a quem precisa, boicotando, participando em diálogos interculturais, garantir proteção física e segurança e criar espaços honestos e vulneráveis onde podemos discordar e, mesmo assim, pertencer. Todos os dias aparecermos, para todos, de uma forma que seja acolhedora, radical e com significado.

