Percalços
A arte subtil de lidar com imprevistos.
Olá,
Parte de ser pai é aprender a lidar com os precalços que o cuidado de uma criança proporciona. Lá em casa temos feito questão de tentar aproveitar ao máximo os cinquenta e dois dias de visitas a museus que o estado oferece a todos os portugueses e residentes em Portugal. No passado fim de semana fomos a Mafra, visitar o palácio nacional, a majestosa biblioteca e os jardins reais.
Preparámos tudo com antecedência: fizemos uma marmita que levámos na mochila térmica, água, material logístico necessário para uma criança de um ano e meio e lá fomos. A viagem fez-se muito bem e em trinta minutos estávamos estacionados. Foi então que me apercebi que nos tínhamos esquecido do carrinho de bebé e da mochila de babywearing. Imaginar calcorrear os infindáveis corredores e escadarias ao palácio com um miúdo ao colo não foi a melhor das imagens, nesse momento. Mas em vez de desesperar, resolvemos aceitar e continuar como se nada fosse. Porque, efetivamente, não havia nada que pudéssemos ter feito; não íamos voltar atrás para buscar nada e, já que lá estávamos, mais valia aproveitar. A visita correu muito bem. A maior parte do tempo levei o M às cavalitas, que ele adorou, noutros momentos andou a pé - sem destruir nenhuma parte do património nacional e da humanidade. Pontualmente, o clássico colo que esforça bastante a costas e braços, mas que ia aliviando com as cavalitas. Tudo se fez, sem problemas, com direito a uma mudança de fralda à porta do WC por falta de fraldário. O palácio é, de facto, muito bonito e este tipo de experiências acaba por enriquecer o vocabulário cultural e visual do mais velho e ser uma experiência diferente em família.
Nem sempre consigo encarar estes imprevistos desta forma. Muitas vezes enervo-me e desespero com a frustração de não ter as coisas a correr como planeado. É um traço de personalidade adquirido ao longo da vida. Consequência de estar sempre a tentar prever - e controlar - o humor volátil das pessoas à minha volta enquanto crescia. É normal que tenha uma certa relutância ao imprevisto, ao que não posso controlar. Mas é importante saber aproveitar o que de bom temos na vida; se tivesse ficado chateado teria contaminado com o meu mau humor todo um dia em família que acabou por ser muito bom, para todos. Tirámos fotografias, brincámos, o sol deu ar de sua graça para comermos todos juntos no parque de merendas dos jardins circundantes do palácio. Falámos de reis, de hábitos antigos, de corte, de privilégio, de república. E vimos outras vidas, de outras classes que ilustram muito bem a desigualdade que existia - e ainda existe - no mundo.
Foi um bom dia. Quando estava a deitar o mais velho, na nossa sequência de perguntas de rotina, o momento preferido dele foi a ida ao palácio. Gostou mesmo muito, dava para ver. O momento que menos gostou foi ter passado na sala de caça, que lhe fez impressão. Compreendo-o perfeitamente: apesar de tolerar, não é uma imagem que me deixe confortável, a expressão de um animal empalhado. Às vezes, a felicidade está mesmo nas coisas simples e nas pessoas com quem a partilhamos.
Até para a semana,
João



Que bom teres levado os miúdos a esse local, mesmo com percalços. O maestro Leonard Bernstein dizia que vivemos num mundo onde o belo já não é tão oferecido às crianças e adolescentes, e eles precisam mesmo de acesso ao belo para se desenvolverem.
Que bom também terem percebido um pouco dos dois lados da história: que se por um lado os monarcas erigiam belos edifícios, por outro lado barbaramente assassinavam animais.
Qualquer dia os teus miúdos vão querer ser vegetarianos como eu! Ou pelo menos semi-vegetarianos? Conta com a minha ajuda se precisares de conselhos nesse sentido.