13 Comentários
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Avatar de Raquel Dias da Silva

Gostei muito desta reflexão. Ainda não vi a série Adolescence, mas quero muito ver (mesmo sabendo spoilers), que na verdade já imaginava quando percebi do que se tratava. Deixa-me muito nervosa pensar que a minha filha vai crescer e que eu posso educá-la para não fazer bullying a ninguém e para ser bondosa e que mesmo assim pode haver algum maluco que lhe queira fazer mal 😢

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Também fico ansioso a pensar no futuro dos meus dois filhos. Que mundo vão eles encontrar. Mas também tenho fé que cá por casa lhes daremos as melhores bases para enfrentar o mundo. O resto não se controla. Alea jacta est!

Avatar de carolina novo

PS: Sim!! Leiam o 'Caruncho'. O João tem razão em tudo o que diz sobre ele, e eu, se puder, meto um exemplar nas mãos de toda a gente para que todos experienciem a viagem que é lê-lo. Livro incrível, quem me dera poder lê-lo pela primeira vez. Obrigada por mencionares 🥰

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Eu entretanto estou a ler um outro livro, do Francisco Mota Saraiva, cuja escrita também me está a impressionar muito. É diferente, muito única (pelo menos para mim) e o que inicialmente me começou a parecer uma valente estucha, está-me a agarrar como não pensei ser possível.

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Ah, que incrível!! Qual é o título? Agora fiquei curiosa ☺️

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Morramos ao Menos no Porto, do Francisco Mota Saraiva. Entretanto terminei e ainda o estou a digerir. Mas gostei. É muito fora da caixa.

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Pelo nome já estou curiosa! E pela tua descrição, também. Vou apontar, obrigada!

Avatar de carolina novo

Este texto está excelente, excelente, João. Eu ainda não vi a série, por isso sinto que não tenho muito a acrescentar nesse sentido, mas a tua reflexão ultrapassa largamente o produto audiovisual e é extremamente relevante para olhar para tudo aquilo que é hoje a sociedade e, sobretudo, os cantos escuros da sociedade que — tal como tu dizes, por desconhecimento, cansaço, por estarmos em piloto automático, por estarmos alienados — nos escapam ao olhar e à crítica.

Tocaste em pontos muitíssimo importantes, e fizeste-o de forma incrível, por isso não tenho nada a acrescentar, mas uma das coisas de que me lembrei enquanto lia (e que tu mencionas, embora com outras palavras), é como tudo isto tudo se relaciona com a desumanização e instrumentalização da vítima/das mulheres. Há uns tempos investiguei e escrevi um artigo sobre o fascínio cultural e o mito criado em torno do corpo feminino morto, que vemos explorado de todos os ângulos possíveis nas séries de true crime. Eu confesso-me parte do problema — também eu as vejo, e também eu me interesso, talvez desmedidamente, em saber como tudo aquilo aconteceu. Mas o que na altura tentei fazer foi, entre outras coisas, perceber não só como se cometem aqueles atos de violência extrema — e, mais do que isso, de formas totalmente automatizadas e despersonalizadas, como se fosse somente mais um gesto do quotidiano — e como, depois, consumimos essas imagens muitas vezes quase da mesma forma. E claro que há imensos argumentos e teorias para isto, mas há uma autora que usa um termo que acho interessante, e que ajuda a justificar o porquê da normalização desta violência contra certos corpos (e não contra outros): é o “discourse of disposability”. Ela advoga que, com a globalização e o poder avassalador do capitalismo, a mulher, agora integrada no mercado de trabalho e com publicamente mais direitos, é no entanto relegada para o fundo, para o espaço de “descartabilidade” e substituição; ainda que colocada, na teoria, no mesmo lugar dos homens, continua a ser encarada como aquela que se poderá sacrificar, se necessário. Há também quem use o termo “necropornografia”; nestas narrativas que expõem, violenta e cruamente, mais do que qualquer outro, o corpo feminino morto, há claramente sintomas sobre questões muito maiores sobre a sociedade, como também sinto que a 'Adolescence' mostra.

Tudo isto é sintoma/resultado/produto de tantas outras dinâmicas e padrões do mundo em que estamos. Por outro lado, há quem também relacione tudo isto — a violência, particularmente na adolescência, o desprezo misógino, o consumo aparentemente normalizado destas imagens (mesmo por quem comete os crimes, que depois, como bem dizes, é uma criança outra vez, quase como se não tivesse noção do que aconteceu) é resultado de uma tendência de dissociação da realidade. Há uma autora que explica que, com tudo a que nós (e os miúdos) somos expostos, tudo aquilo pelo qual somos moldados, a rodinha do hamster em que estamos todos, todos os dias, sem prestar suficiente atenção, favoreceram uma cultura de "falsa-repressão". Isto é, como passámos a ver (quase) tudo através de um ecrã, criou-se uma certa onda de "desejo e ansiedade" em relação à violência. Ela é consumida através dos meios digitais, mas é como se não houvesse ligação com a que acontece na vida real. Há uma dessintonização e alienação que 'nos' levam a acreditar, de forma totalmente sub/inconsciente, que aquilo que se vê não se ancora numa violência real. Quando tanta gente fala sobre como os miúdos confundem realidade com ficção e são extremamente violentos uns com os outros quase como se não "entendessem o que estão a fazer", sinto que isto é algo importante a mencionar. Hoje em dia quase tudo no nosso mundo tem uma 'substituição estética' no mundo virtual — acedemos à substituição irrealista de tudo aquilo que se passa, a sério, cá fora. E com isso bem, claro, a dessensibilização e normalização da violência. Já nada nos choca, nada surpreende, nada é suficientemente cruel.

Bem, se calhar este comentário foi num caminho completamente aleatório que não tem nada a ver com o que tu, tão bem, expuseste. Espero não ter sido de mais, mas pus-me a pensar e acabei por me lembrar destas coisas. Parabéns pelo teu texto, João. Nem consigo imaginar como deve ser tenebroso ter filhos e ter medo de tudo isto que não conseguimos controlar. No entanto, tenho a certeza que estão, pelo menos dentro de casa, a fazer o melhor trabalho possível, e isso já conta muito. Um abraço!

Avatar de João Azevedo

Obrigado, Carolina. Em primeiro lugar, recomendo-te ver a série. São quatro episódios que valem bem a pena, apesar da dureza do tema. Depois, quero agradecer esta tua mini dissertação (sempre bem-vinda, gosto de boas exposições de ideias). Estas referências do "discourse of disposability" fizeram-me todo o sentido. Quando a ligaste ao culto/fascínio do corpo morto da mulher ainda me fez mais sentido. Porque é um reforço social e cultural do verdadeiro papel da mulher nesta sociedade patriarcal: é um objeto cuja utilidade se resume, demasiadas vezes, ao prazer/olhar/fantasia masculino. Findo esse prazo de validade - porque o há, sejamos honestos - essa "disposability" aumenta exponencialmente. É muito interessante refletir nas causas, que num sistema como o nosso acabam por invariavelmente dar ao mesmo: manutenção do privilégio de classe, género, raça. E não acho que tenhas ido viajar na maionese nesta tua observação. Pelo contrário, acho mesmo, mesmo, que se liga muito bem com a temática e problemática da série, e sobre o que eu escrevi. Infelizmente, sinto que este discurso se fica pelas nossas bolhas e é muito difícil de ter com pessoas com outras sensibilidades ou sentidos críticos.

Avatar de carolina novo

Vou ver sem dúvida, João! Fiquei ainda mais interessada em ver depois de te ler; confesso que quando a série saiu e toda a gente a comentava um pouco ao desbarato, decidi adiar um pouco. Mas agora que a poeira acalmou e começo a ler reflexões super interessantes como a tua, fico muito curiosa em ver. Ainda bem que não te chateei muito com esta mini-dissertação e que algo do que disse foi útil! Claro na 'Adolescência' haverá muitas outras coisas a considerar, nomeadamente sobre a fase da vida que é, as suas particularidades, etc. Isso deve dar pano para mangas também. Mas acho que no fundo sim, tudo isto, esta desconexão com a violência real e o fascínio e/ou alienação pela transmitida, acho que vêm de muitas dessas causas e que desempenham o seu papel em tragédias como esta.

Avatar de João Madureira - Nutricionista

Excelente texto, muito alinhado com o que penso, com o budismo.

Não vi a série e não planeio especialmente ver, mas também não digo que não. Na realidade os únicos objetos culturais que consumo neste momento são música clássica, livros de qualidade, e conversas interessantes.

Não é bem como digo: também consumo Facebook. E aí vejo algo que é um pouco bizarro. Eu vejo claramente que muita gente tem padrões disfuncionais, mesmo os mais alinhados com a minha visão de compaixão e sabedoria. Até vejo isso nas conversas com o meu pai, que admiro imenso. Eu também devo parecer disfuncional, pelo menos pareço-me assim a mim próprio.

Sinto, que como dizes, a luta é muito desigual. Forças titânicas estão erguidas contra o bom senso natural das pessoas. As crianças vão para a escola para perderem o seu bom senso e para lhes incutirmos, muitas vezes de forma forçada e completamente desinteressante, o que achamos que é o bom senso, que não é mais que as nossas neuroses coletivas.

Para mim a prática budista é algo que me dá muita força mental. Amor próprio e amor aos outros, amor à verdade, à calma, e à sabedoria.

Avatar de João Azevedo

Sem dúvida que somos o produto da sociedade. Para o bem e para o mal. Mas também podemos ser a mudança que queremos ver no mundo. Um abraço!

Avatar de João Madureira - Nutricionista

E talvez seja mesmo assim que as pessoas deviam ser: estranhas umas para as outras, mundos paralelos ricos em significados que nos atordoam de tão diversos.

Mas não deixa de ser também evidente que a nossa sociedade é responsável por criar deturpações nefastas nas nossas mentes.