Gostei muito desta reflexão. Ainda não vi a série Adolescence, mas quero muito ver (mesmo sabendo spoilers), que na verdade já imaginava quando percebi do que se tratava. Deixa-me muito nervosa pensar que a minha filha vai crescer e que eu posso educá-la para não fazer bullying a ninguém e para ser bondosa e que mesmo assim pode haver algum maluco que lhe queira fazer mal 😢
Também fico ansioso a pensar no futuro dos meus dois filhos. Que mundo vão eles encontrar. Mas também tenho fé que cá por casa lhes daremos as melhores bases para enfrentar o mundo. O resto não se controla. Alea jacta est!
PS: Sim!! Leiam o 'Caruncho'. O João tem razão em tudo o que diz sobre ele, e eu, se puder, meto um exemplar nas mãos de toda a gente para que todos experienciem a viagem que é lê-lo. Livro incrível, quem me dera poder lê-lo pela primeira vez. Obrigada por mencionares 🥰
Eu entretanto estou a ler um outro livro, do Francisco Mota Saraiva, cuja escrita também me está a impressionar muito. É diferente, muito única (pelo menos para mim) e o que inicialmente me começou a parecer uma valente estucha, está-me a agarrar como não pensei ser possível.
Este texto está excelente, excelente, João. Eu ainda não vi a série, por isso sinto que não tenho muito a acrescentar nesse sentido, mas a tua reflexão ultrapassa largamente o produto audiovisual e é extremamente relevante para olhar para tudo aquilo que é hoje a sociedade e, sobretudo, os cantos escuros da sociedade que — tal como tu dizes, por desconhecimento, cansaço, por estarmos em piloto automático, por estarmos alienados — nos escapam ao olhar e à crítica.
Tocaste em pontos muitíssimo importantes, e fizeste-o de forma incrível, por isso não tenho nada a acrescentar, mas uma das coisas de que me lembrei enquanto lia (e que tu mencionas, embora com outras palavras), é como tudo isto tudo se relaciona com a desumanização e instrumentalização da vítima/das mulheres. Há uns tempos investiguei e escrevi um artigo sobre o fascínio cultural e o mito criado em torno do corpo feminino morto, que vemos explorado de todos os ângulos possíveis nas séries de true crime. Eu confesso-me parte do problema — também eu as vejo, e também eu me interesso, talvez desmedidamente, em saber como tudo aquilo aconteceu. Mas o que na altura tentei fazer foi, entre outras coisas, perceber não só como se cometem aqueles atos de violência extrema — e, mais do que isso, de formas totalmente automatizadas e despersonalizadas, como se fosse somente mais um gesto do quotidiano — e como, depois, consumimos essas imagens muitas vezes quase da mesma forma. E claro que há imensos argumentos e teorias para isto, mas há uma autora que usa um termo que acho interessante, e que ajuda a justificar o porquê da normalização desta violência contra certos corpos (e não contra outros): é o “discourse of disposability”. Ela advoga que, com a globalização e o poder avassalador do capitalismo, a mulher, agora integrada no mercado de trabalho e com publicamente mais direitos, é no entanto relegada para o fundo, para o espaço de “descartabilidade” e substituição; ainda que colocada, na teoria, no mesmo lugar dos homens, continua a ser encarada como aquela que se poderá sacrificar, se necessário. Há também quem use o termo “necropornografia”; nestas narrativas que expõem, violenta e cruamente, mais do que qualquer outro, o corpo feminino morto, há claramente sintomas sobre questões muito maiores sobre a sociedade, como também sinto que a 'Adolescence' mostra.
Tudo isto é sintoma/resultado/produto de tantas outras dinâmicas e padrões do mundo em que estamos. Por outro lado, há quem também relacione tudo isto — a violência, particularmente na adolescência, o desprezo misógino, o consumo aparentemente normalizado destas imagens (mesmo por quem comete os crimes, que depois, como bem dizes, é uma criança outra vez, quase como se não tivesse noção do que aconteceu) é resultado de uma tendência de dissociação da realidade. Há uma autora que explica que, com tudo a que nós (e os miúdos) somos expostos, tudo aquilo pelo qual somos moldados, a rodinha do hamster em que estamos todos, todos os dias, sem prestar suficiente atenção, favoreceram uma cultura de "falsa-repressão". Isto é, como passámos a ver (quase) tudo através de um ecrã, criou-se uma certa onda de "desejo e ansiedade" em relação à violência. Ela é consumida através dos meios digitais, mas é como se não houvesse ligação com a que acontece na vida real. Há uma dessintonização e alienação que 'nos' levam a acreditar, de forma totalmente sub/inconsciente, que aquilo que se vê não se ancora numa violência real. Quando tanta gente fala sobre como os miúdos confundem realidade com ficção e são extremamente violentos uns com os outros quase como se não "entendessem o que estão a fazer", sinto que isto é algo importante a mencionar. Hoje em dia quase tudo no nosso mundo tem uma 'substituição estética' no mundo virtual — acedemos à substituição irrealista de tudo aquilo que se passa, a sério, cá fora. E com isso bem, claro, a dessensibilização e normalização da violência. Já nada nos choca, nada surpreende, nada é suficientemente cruel.
Bem, se calhar este comentário foi num caminho completamente aleatório que não tem nada a ver com o que tu, tão bem, expuseste. Espero não ter sido de mais, mas pus-me a pensar e acabei por me lembrar destas coisas. Parabéns pelo teu texto, João. Nem consigo imaginar como deve ser tenebroso ter filhos e ter medo de tudo isto que não conseguimos controlar. No entanto, tenho a certeza que estão, pelo menos dentro de casa, a fazer o melhor trabalho possível, e isso já conta muito. Um abraço!
Obrigado, Carolina. Em primeiro lugar, recomendo-te ver a série. São quatro episódios que valem bem a pena, apesar da dureza do tema. Depois, quero agradecer esta tua mini dissertação (sempre bem-vinda, gosto de boas exposições de ideias). Estas referências do "discourse of disposability" fizeram-me todo o sentido. Quando a ligaste ao culto/fascínio do corpo morto da mulher ainda me fez mais sentido. Porque é um reforço social e cultural do verdadeiro papel da mulher nesta sociedade patriarcal: é um objeto cuja utilidade se resume, demasiadas vezes, ao prazer/olhar/fantasia masculino. Findo esse prazo de validade - porque o há, sejamos honestos - essa "disposability" aumenta exponencialmente. É muito interessante refletir nas causas, que num sistema como o nosso acabam por invariavelmente dar ao mesmo: manutenção do privilégio de classe, género, raça. E não acho que tenhas ido viajar na maionese nesta tua observação. Pelo contrário, acho mesmo, mesmo, que se liga muito bem com a temática e problemática da série, e sobre o que eu escrevi. Infelizmente, sinto que este discurso se fica pelas nossas bolhas e é muito difícil de ter com pessoas com outras sensibilidades ou sentidos críticos.
Vou ver sem dúvida, João! Fiquei ainda mais interessada em ver depois de te ler; confesso que quando a série saiu e toda a gente a comentava um pouco ao desbarato, decidi adiar um pouco. Mas agora que a poeira acalmou e começo a ler reflexões super interessantes como a tua, fico muito curiosa em ver. Ainda bem que não te chateei muito com esta mini-dissertação e que algo do que disse foi útil! Claro na 'Adolescência' haverá muitas outras coisas a considerar, nomeadamente sobre a fase da vida que é, as suas particularidades, etc. Isso deve dar pano para mangas também. Mas acho que no fundo sim, tudo isto, esta desconexão com a violência real e o fascínio e/ou alienação pela transmitida, acho que vêm de muitas dessas causas e que desempenham o seu papel em tragédias como esta.
Excelente texto, muito alinhado com o que penso, com o budismo.
Não vi a série e não planeio especialmente ver, mas também não digo que não. Na realidade os únicos objetos culturais que consumo neste momento são música clássica, livros de qualidade, e conversas interessantes.
Não é bem como digo: também consumo Facebook. E aí vejo algo que é um pouco bizarro. Eu vejo claramente que muita gente tem padrões disfuncionais, mesmo os mais alinhados com a minha visão de compaixão e sabedoria. Até vejo isso nas conversas com o meu pai, que admiro imenso. Eu também devo parecer disfuncional, pelo menos pareço-me assim a mim próprio.
Sinto, que como dizes, a luta é muito desigual. Forças titânicas estão erguidas contra o bom senso natural das pessoas. As crianças vão para a escola para perderem o seu bom senso e para lhes incutirmos, muitas vezes de forma forçada e completamente desinteressante, o que achamos que é o bom senso, que não é mais que as nossas neuroses coletivas.
Para mim a prática budista é algo que me dá muita força mental. Amor próprio e amor aos outros, amor à verdade, à calma, e à sabedoria.
E talvez seja mesmo assim que as pessoas deviam ser: estranhas umas para as outras, mundos paralelos ricos em significados que nos atordoam de tão diversos.
Mas não deixa de ser também evidente que a nossa sociedade é responsável por criar deturpações nefastas nas nossas mentes.
Gostei muito desta reflexão. Ainda não vi a série Adolescence, mas quero muito ver (mesmo sabendo spoilers), que na verdade já imaginava quando percebi do que se tratava. Deixa-me muito nervosa pensar que a minha filha vai crescer e que eu posso educá-la para não fazer bullying a ninguém e para ser bondosa e que mesmo assim pode haver algum maluco que lhe queira fazer mal 😢
Também fico ansioso a pensar no futuro dos meus dois filhos. Que mundo vão eles encontrar. Mas também tenho fé que cá por casa lhes daremos as melhores bases para enfrentar o mundo. O resto não se controla. Alea jacta est!
PS: Sim!! Leiam o 'Caruncho'. O João tem razão em tudo o que diz sobre ele, e eu, se puder, meto um exemplar nas mãos de toda a gente para que todos experienciem a viagem que é lê-lo. Livro incrível, quem me dera poder lê-lo pela primeira vez. Obrigada por mencionares 🥰
Eu entretanto estou a ler um outro livro, do Francisco Mota Saraiva, cuja escrita também me está a impressionar muito. É diferente, muito única (pelo menos para mim) e o que inicialmente me começou a parecer uma valente estucha, está-me a agarrar como não pensei ser possível.
Ah, que incrível!! Qual é o título? Agora fiquei curiosa ☺️
Morramos ao Menos no Porto, do Francisco Mota Saraiva. Entretanto terminei e ainda o estou a digerir. Mas gostei. É muito fora da caixa.
Pelo nome já estou curiosa! E pela tua descrição, também. Vou apontar, obrigada!
Este texto está excelente, excelente, João. Eu ainda não vi a série, por isso sinto que não tenho muito a acrescentar nesse sentido, mas a tua reflexão ultrapassa largamente o produto audiovisual e é extremamente relevante para olhar para tudo aquilo que é hoje a sociedade e, sobretudo, os cantos escuros da sociedade que — tal como tu dizes, por desconhecimento, cansaço, por estarmos em piloto automático, por estarmos alienados — nos escapam ao olhar e à crítica.
Tocaste em pontos muitíssimo importantes, e fizeste-o de forma incrível, por isso não tenho nada a acrescentar, mas uma das coisas de que me lembrei enquanto lia (e que tu mencionas, embora com outras palavras), é como tudo isto tudo se relaciona com a desumanização e instrumentalização da vítima/das mulheres. Há uns tempos investiguei e escrevi um artigo sobre o fascínio cultural e o mito criado em torno do corpo feminino morto, que vemos explorado de todos os ângulos possíveis nas séries de true crime. Eu confesso-me parte do problema — também eu as vejo, e também eu me interesso, talvez desmedidamente, em saber como tudo aquilo aconteceu. Mas o que na altura tentei fazer foi, entre outras coisas, perceber não só como se cometem aqueles atos de violência extrema — e, mais do que isso, de formas totalmente automatizadas e despersonalizadas, como se fosse somente mais um gesto do quotidiano — e como, depois, consumimos essas imagens muitas vezes quase da mesma forma. E claro que há imensos argumentos e teorias para isto, mas há uma autora que usa um termo que acho interessante, e que ajuda a justificar o porquê da normalização desta violência contra certos corpos (e não contra outros): é o “discourse of disposability”. Ela advoga que, com a globalização e o poder avassalador do capitalismo, a mulher, agora integrada no mercado de trabalho e com publicamente mais direitos, é no entanto relegada para o fundo, para o espaço de “descartabilidade” e substituição; ainda que colocada, na teoria, no mesmo lugar dos homens, continua a ser encarada como aquela que se poderá sacrificar, se necessário. Há também quem use o termo “necropornografia”; nestas narrativas que expõem, violenta e cruamente, mais do que qualquer outro, o corpo feminino morto, há claramente sintomas sobre questões muito maiores sobre a sociedade, como também sinto que a 'Adolescence' mostra.
Tudo isto é sintoma/resultado/produto de tantas outras dinâmicas e padrões do mundo em que estamos. Por outro lado, há quem também relacione tudo isto — a violência, particularmente na adolescência, o desprezo misógino, o consumo aparentemente normalizado destas imagens (mesmo por quem comete os crimes, que depois, como bem dizes, é uma criança outra vez, quase como se não tivesse noção do que aconteceu) é resultado de uma tendência de dissociação da realidade. Há uma autora que explica que, com tudo a que nós (e os miúdos) somos expostos, tudo aquilo pelo qual somos moldados, a rodinha do hamster em que estamos todos, todos os dias, sem prestar suficiente atenção, favoreceram uma cultura de "falsa-repressão". Isto é, como passámos a ver (quase) tudo através de um ecrã, criou-se uma certa onda de "desejo e ansiedade" em relação à violência. Ela é consumida através dos meios digitais, mas é como se não houvesse ligação com a que acontece na vida real. Há uma dessintonização e alienação que 'nos' levam a acreditar, de forma totalmente sub/inconsciente, que aquilo que se vê não se ancora numa violência real. Quando tanta gente fala sobre como os miúdos confundem realidade com ficção e são extremamente violentos uns com os outros quase como se não "entendessem o que estão a fazer", sinto que isto é algo importante a mencionar. Hoje em dia quase tudo no nosso mundo tem uma 'substituição estética' no mundo virtual — acedemos à substituição irrealista de tudo aquilo que se passa, a sério, cá fora. E com isso bem, claro, a dessensibilização e normalização da violência. Já nada nos choca, nada surpreende, nada é suficientemente cruel.
Bem, se calhar este comentário foi num caminho completamente aleatório que não tem nada a ver com o que tu, tão bem, expuseste. Espero não ter sido de mais, mas pus-me a pensar e acabei por me lembrar destas coisas. Parabéns pelo teu texto, João. Nem consigo imaginar como deve ser tenebroso ter filhos e ter medo de tudo isto que não conseguimos controlar. No entanto, tenho a certeza que estão, pelo menos dentro de casa, a fazer o melhor trabalho possível, e isso já conta muito. Um abraço!
Obrigado, Carolina. Em primeiro lugar, recomendo-te ver a série. São quatro episódios que valem bem a pena, apesar da dureza do tema. Depois, quero agradecer esta tua mini dissertação (sempre bem-vinda, gosto de boas exposições de ideias). Estas referências do "discourse of disposability" fizeram-me todo o sentido. Quando a ligaste ao culto/fascínio do corpo morto da mulher ainda me fez mais sentido. Porque é um reforço social e cultural do verdadeiro papel da mulher nesta sociedade patriarcal: é um objeto cuja utilidade se resume, demasiadas vezes, ao prazer/olhar/fantasia masculino. Findo esse prazo de validade - porque o há, sejamos honestos - essa "disposability" aumenta exponencialmente. É muito interessante refletir nas causas, que num sistema como o nosso acabam por invariavelmente dar ao mesmo: manutenção do privilégio de classe, género, raça. E não acho que tenhas ido viajar na maionese nesta tua observação. Pelo contrário, acho mesmo, mesmo, que se liga muito bem com a temática e problemática da série, e sobre o que eu escrevi. Infelizmente, sinto que este discurso se fica pelas nossas bolhas e é muito difícil de ter com pessoas com outras sensibilidades ou sentidos críticos.
Vou ver sem dúvida, João! Fiquei ainda mais interessada em ver depois de te ler; confesso que quando a série saiu e toda a gente a comentava um pouco ao desbarato, decidi adiar um pouco. Mas agora que a poeira acalmou e começo a ler reflexões super interessantes como a tua, fico muito curiosa em ver. Ainda bem que não te chateei muito com esta mini-dissertação e que algo do que disse foi útil! Claro na 'Adolescência' haverá muitas outras coisas a considerar, nomeadamente sobre a fase da vida que é, as suas particularidades, etc. Isso deve dar pano para mangas também. Mas acho que no fundo sim, tudo isto, esta desconexão com a violência real e o fascínio e/ou alienação pela transmitida, acho que vêm de muitas dessas causas e que desempenham o seu papel em tragédias como esta.
Excelente texto, muito alinhado com o que penso, com o budismo.
Não vi a série e não planeio especialmente ver, mas também não digo que não. Na realidade os únicos objetos culturais que consumo neste momento são música clássica, livros de qualidade, e conversas interessantes.
Não é bem como digo: também consumo Facebook. E aí vejo algo que é um pouco bizarro. Eu vejo claramente que muita gente tem padrões disfuncionais, mesmo os mais alinhados com a minha visão de compaixão e sabedoria. Até vejo isso nas conversas com o meu pai, que admiro imenso. Eu também devo parecer disfuncional, pelo menos pareço-me assim a mim próprio.
Sinto, que como dizes, a luta é muito desigual. Forças titânicas estão erguidas contra o bom senso natural das pessoas. As crianças vão para a escola para perderem o seu bom senso e para lhes incutirmos, muitas vezes de forma forçada e completamente desinteressante, o que achamos que é o bom senso, que não é mais que as nossas neuroses coletivas.
Para mim a prática budista é algo que me dá muita força mental. Amor próprio e amor aos outros, amor à verdade, à calma, e à sabedoria.
Sem dúvida que somos o produto da sociedade. Para o bem e para o mal. Mas também podemos ser a mudança que queremos ver no mundo. Um abraço!
E talvez seja mesmo assim que as pessoas deviam ser: estranhas umas para as outras, mundos paralelos ricos em significados que nos atordoam de tão diversos.
Mas não deixa de ser também evidente que a nossa sociedade é responsável por criar deturpações nefastas nas nossas mentes.