Pá, assim não.
Olá,
Acabei de ler a notícia do que os deputados do Chega fizeram. Não gosto de escrever sobre a espuma dos dias mas, desta vez, foi-me impossível guardar isto cá dentro. Estava a entrar para o comboio no regresso a casa, no final de segunda-feira e fiquei a saber que na sexta-feira passada dois deputados do parlamento português leram uma lista de nomes estrangeiros de uma turma de jardim de infância. Revelaram estes nomes criticando uma suposta mudança civilizacional. Deram a entender, direta e indiretamente, que a falta de vagas nas creches é culpa dos filhos de imigrantes. Destilaram ignorância e intolerância para cima de crianças inocentes. Crianças. De um jardim de infância. Defenderam-se dizendo que não revelaram apelidos, apenas nomes próprios. Os sonsos ignoraram, convenientemente, que a natureza diferente dos nomes sobressaí e torna fácil, em determinados círculos, a identificação. Sentei-me num dos bancos da carruagem com um aperto enorme na garganta e nas vísceras. Senti o peso nos olhos de lágrimas em que não discernia se era de raiva, tristeza ou vergonha. Talvez fossem um cocktail de tudo isto. E pá, assim não.
Só uma profunda falta de humanidade poderia politizar desta forma um grupo de crianças. Sujeitar seres humanos em idade pré-escolar ao escárnio e ao ódio humano como argumento político é abjecto. Elencar nomes diferentes dos habituais em Portugal é colocar alvos nessas pessoas, nas suas famílias. É legitimar junto da população a incapacidade de lidar com culturas diferentes. Eu sou pai de duas crianças com nomes bem portugueses e penso no que seria se fosse imigrante noutro país. Se os nomes dos meus filhos fossem declamados em sessão parlamentar e nas redes sociais para sustentar a ideia - estúpida, claro - de que está a acontecer uma “mudança cultural e civilizacional”, como me sentiria? Nem consigo imaginar o medo, o desconforto, a raiva e a impotência. Foram expostos nomes de crianças, facilmente identificáveis pela sua diferença, e o presidente da Assembleia da República diz que é apenas liberdade de expressão. O presidente da República remete-se ao silêncio, o primeiro-ministro também, num conluio terrível com esta propaganda de merda. Pá, assim não.
Onde impomos o limite? Quando pedirmos a essas crianças e respetivas famílias que andem com uma insígnia que as identifique como emigrantes de culturas diferentes no nosso país? Quando grafitarmos “estrangeiro” nos seus negócios precários? Quando os segregarmos dos espaços educacionais, de saúde? Quando os pudermos deportar rápida e eficazmente dos campos concentracionários que vamos edificar para lidar com a invasão inexistente da mão de obra que o país precisa? Nos fornos construídos para uma solução final mais rápida e menos custosa para os cofres do estado? O que é preciso para perdermos, outra vez, a nossa humanidade? Assim não.
Estou indignado. Nunca pensei ter que escrever sobre isto. Nunca pensei ver no meu tempo de vida esta destilação de intolerância a vitimar crianças que, pelos vistos, perderam o seu direito à proteção que lhes é constitucionalmente devida. Decidi juntar-me ao protesto de algumas associações de pais que também se indignaram e redigi um apelo que enviei à associação de pais aqui do burgo. Senti aquele constrangimento de “vou ser aquele pai sindicalista” mas achei que devia seguir em frente porque esta é a altura de agirmos. Já é tarde demais, como podemos perceber. Precisamos entrar nesse desconforto da confrontação das ideias e trazer a lume a discussão destes assuntos. Evidenciar o óbvio e apelar ao humanismo que ainda acredito que exista dentro da maior parte de nós. Partilhei o texto com o grupo de pais da turma do meu filho mais velho. Mesmo que caia em saco roto, serei uma voz que espero que contribua para o burburinho daqueles que acham que isto é inaceitável.
O nosso silêncio é cúmplice. Quando evitamos o desconforto da confrontação estamos a alimentar a máquina da intolerância. Vamos criando tolerância às doses cada vez maiores de discriminação. Habituamo-nos a este “novo normal” onde se permite o à vontade de vociferar racismo e xenofobia. Discursos autoritários e totalitários saem impunes. Encolhi demasiadas vezes os ombros, escudado pelo “não vale a pena” ou “para que chatear-me”. Fui forçado a perceber que o privilégio da minha indiferença contribui diretamente para legitimar estes discursos. O que eram ontem sussurros ignorantes segredados por poucos tornaram-se gritos no parlamento, transmitidos em direto para as mesas de jantar das famílias.
Abraço-vos, que bem precisamos,
João
A propósito desta barbaridade, deixo-vos um artigo muito pertinente do Paulo Querido na Revista Libertária:
Já tinha passado por este filme algumas vezes na minha conta da Netflix. Sempre achei que fosse uma espécie de Rocky do século XXI por isso não lhe tinha prestado muita atenção. Mas há atores que me chamam a atenção. O Tom Hardy é um deles. Um papel fenomenal, emocional e cru sobre o regresso aos combates de dois irmãos profundamente marcados pelo alcoolismo do pai. Os filmes que conseguem uma humanidade deste calibre acabam por ser especiais num altura em que me parece difícil encontrar humanismo.
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Sim, faz-me sentido pensar que atravessamos uma crise de ética. Criada há mais de um século e agudizada nas últimas décadas. Precisamos de fazer valer a nossa ação individual, sempre com respeito e tolerância para com o Outro. Um abraço João!
O Chega é um partido inconstitucional. O artigo 46 da constituição proíbe a formação de partidos racistas; a Lei dos Partidos Políticos prevê também a extinção de partidos racistas.
No entanto, isto não vai lá com formalismos. O poder defende-se.
O próprio capitalismo, enquanto existe neste momento, aponta necessariamente para o fascismo, para uma hierarquia onde quem tem mais acaba por ter mais acesso a mais benesses e serviços do que quem não tem nada. Isso é uma forma de fascismo.
Sinto muito isto enquanto vegano. Ninguém nos quer ouvir, apesar do facto incontornável que a forma como a espécie humana transforma seres sencientes em objetos está na base dos nossos problemas de saúde, ecológicos, económicos e éticos.
Sim, éticos. Hoje vou protestar contra a tourada; uma forma de tortura pública com séculos de existência. Como muitos escritores e filósofos notaram (por exemplo Leo Tolstoy, Milan Kundera, Isaac Bashevis Singer), é o facto de vermos o animal como Outro, como o perpétuo inferior, que podemos explorar e objetivar como bem entendermos, que está na base de vermos também os humanos como Outros. Ensinamos as crianças moral utilizando lindas fábulas com animais, e depois damos-lhes animais a comer pelo menos 3 vezes por dia.
Dito isto, o pessimismo também não leva a nada. Seguiremos lutando.
Até em relação ao capitalismo tenho esperança; talvez tudo o que falte seja ética; talvez não precisemos de sistemas económicos alternativos e arriscados; talvez tudo o que falte neste mundo seja precuparmo-nos com o Outro pelo menos tanto como nos preocupamos connosco, ou mesmo mais; talvez se o fizéssemos o capitalismo funcionasse muito bem.