Olho para os meus dois filhos.
Igual Valor
Olá,
Esta crónica sai no dia a seguir ao 25 de Abril. Cresci numa casa com quadros e livros que aludiam à importância de celebrar o dia da Liberdade. Desde novo aprendi a importância do combate ao fascismo, da luta pela liberdade de expressão e da libertação do povo português dos 48 anos de ditadura. Aprendi que Salazar foi um dos homens responsáveis por vivermos em opressão e cujo nome pode ser adjetivado para caracterizar períodos, pessoas, costumes. Salazarentos, portanto. Descobri que salazar também é um nome alternativo para a espátula, um utensílio de cozinha. Porque rapa tudo. E nunca utilizei outra nomenclatura para tal ferramenta. Sou, então, um antifascista nascido e criado no seio de uma família profundamente antifascista; filho de peixe, sabe nadar.
Cresci com valores enraizados nesta crença, que muitas vezes soa a utopia, de que ainda caminhamos num trilho para cumprir Abril. Cumprir com o sonho de liberdade, autonomia, autodeterminação, transversal a todos os democratas, independentemente da cor partidária. Cresci numa família com quase todas as cores políticas, de opiniões contrastantes, que apoiavam lados diferentes do parlamento. Mas havia uma característica comum: todos, sem exceção, celebravam Abril como a tal manhã inteira que Sohia falava e nos permitiu sonhar, cada um à sua maneira.
Este texto está a ser digitado no ano em que se celebra meio século de liberdade e percebo que, para além de não se ter cumprido Abril, sonhamos cada vez menos com ele. As suas ideias e aspirações para o futuro de um país melhor foram substituídas por outras coisas mais consumíveis. Ficámos, também, sem tempo para sonhar. Vamos vivendo, resignados, com as sobras do que outrora foi e habitamos, meio estranhos, nesta substância do tempo. Continuo a pedir as expressões emprestadas à Sophia porque acho descrevem melhor como estamos. Hoje, olho para o instrumento máximo da nossa democracia, o parlamento, e vejo demasiado saudosismo de outros tempos. Demasiadas ideias anacrónicas e obsoletas que querem que sejam impostas enquanto se grita “Basta!” ou, pior, “Chega!”.
Olho para os meus dois filhos. Eu vivi, ainda, aquele restinho de sonho que fica quando acordamos, ainda estremunhados, e que foi tão agradável que teimamos em ficar a pensar nele até nos esquecermos por completo do que se tratava. Eles, nem isso. Vivem a dura realidade de saber que o sonho foi só isso, um sonho, e que estar acordado é olhar para um mundo que não foi desenhado para ter crianças verdadeiramente livres e acolhidas. Porque são cada vez menos os apoios que permitem os pais ficarem um maior número de horas diárias com os seus rebentos, não temos estruturas profissionais pensadas para o apoio em casa. Trabalhamos para pagar creches e escolas ao invés de passarmos tempo com eles. A humanidade sacrificada em nome do lucro. Vivemos num mundo onde a produtividade é a palavra de ordem, em detrimento de uma vida plena, alegre e verdadeiramente livre.
Olho para os meus dois filhos. Ainda há centelha de esperança quando nos olhamos. Talvez seja eu a projetar as aspirações de outros tempos, talvez sejam eles os próprios quem aspira, inocente e ingenuamente. Mas, cá em casa, vamos todos continuar a celebrar a liberdade enquanto houver vontade - ou utopia? - de cumprir Abril. Uma das minhas intenções como pai é praticar o igual valor. É uma herança dos meus pais. Comigo, com a família, com todas as pessoas. É um dos quatro pilares da parentalidade consciente e o que mais ressoa comigo. Também é o mais difícil, porque me obriga, a ser mais consciente do que penso, faço e falo em todos os momentos. Só assim me posso certificar que estou a por em prática este valor que me é tão importante e, desta forma, estar alinhado com as minhas intenções. E celebrar Abril é trazer para a frente dos nossos pensamentos - e, mais importante, nas ações - o igual valor entre todos. Não confundamos este conceito com princípios de igualdade políticos. Falo de igual valor no reconhecimento e validação das emoções e necessidades de todos os seres. Praticar a aceitação das coisas como elas são, principalmente as manifestações e comportamentos das pessoas, sem julgamentos. Reconhecer que as nossas expressões têm a sua validade e procuram nutrir e atender a necessidades específicas. Podem ser expressadas de formas autodestrutivas ou que coloquem em causa limites pessoais de outras pessoas. Mas têm o mesmo valor. Com esta premissa, agimos de forma igual e congruente com todas as pessoas. É um exercício duro, em que falho muitas vezes. Julgo facilmente. E rapidamente deixo de praticar o igual valor ao considerar certos juízos como mais importantes numa hierarquia que é somente produto da minha imaginação.
Já teremos descido a Avenida da Liberdade os quatro quando este texto puder ser lido por quem me segue. Teremos gritado as palavras de ordem alinhadas com as nossas intenções que refletem os nossos valores enquanto família. Teremos saído à rua num momento onde ficar em casa pode vir a ter custos elevados num futuro não muito distante. Teremos sido quatro no meio de milhares, mas olhando quem está à nossa volta com igual valor. O sonho, esse, é ver o olhar retribuído por todas as pessoas, mesmo as que não nos cercam.
25 de Abril sempre, fascismo nunca mais.
Até para a semana,
João
P.S. Gosto muito da Esther Perel e foi-me recomendado este episódio do Diary of a CEO de Dezembro passado. Fala muito sobre a questão da comunidade e de precisarmos de uma aldeia para todos crescermos, entre outras coisas.



Como disse Saramago, agora é que estamos a viver a "Caverna de Platão", com a multiplicidade de pseudo-informação que nos cerca e oprime. Admiro-te por quereres viver autenticamente o sonho da liberdade.