10 Comentários
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Avatar de Sónia

Alguém meta este texto a passar em loop na Assembleia, em salas de espera e nos waiting rings. Porque precisa com urgência de chegar a quem de direito (que é, como quem diz, a todos).

Trabalho na área de formação (na Cisco, com as Academias Cisco em Portugal) e por isso tenho contacto próximo com muitas escolas secundárias, vocacionais, universidades e centros de formação. É sofrível a lentidão e a falta de recursos que existe. Se não fosse a boa vontade de alguns professores (sobrecarregados e sem ajudas), as coisas estavam ainda piores.

Obrigada por este testemunho! E pelo teu papel diário, também.

Avatar de João Azevedo

Adorava ver este texto na Assembleia, em mute e a ser redondamente ignorado. Fico feliz que o aches relevante. É uma reflexão que tenho feito e que me apoquenta. Há falta de recursos de quem ensina e dá formação, mas há muita culpa no cartório dos pais, das famílias e da própria organização social. Um abraço!

Avatar de Pagomes

Olá João,

Antes de mais, obrigado por me teres mencionado no teu texto. É um privilégio saber que o meu trabalho tem eco noutros espaços e que ajudaste a levar o meu projeto um pouco mais para a luz.

Queria dizer que concordo com tudo o que escreveste, não só porque partilho da mesma visão, mas porque sinto exatamente o mesmo. A educação é a base de tudo. E neste momento, está ferida. Maltratada. Desvalorizada. Não estamos só a falhar enquanto sistema: estamos a falhar enquanto sociedade.

As crianças hoje não têm tempo para se aborrecerem, e é do aborrecimento que nascem as ideias, os pensamentos e a criatividade. Preenchemos-lhes os dias, os ecrãs, os silêncios. E depois surpreendemo-nos com a falta de espírito crítico ou imaginação.

Também acredito que não podemos continuar a falar dos políticos como se fossem seres de outro planeta. Eles são criados por nós: vêm das nossas famílias, das nossas escolas, das nossas universidades. São parte do mesmo tecido social. Nós também somos responsáveis por aquilo que lá chega. E voltamos ao ponto de partida: a educação é a base de tudo. E, coletivamente, falhámos redondamente.

Claro que este falhanço não é neutro. Há forças e elites que beneficiam desta ignorância estrutural. São os Leões e as Raposas, tal como descrito por Vilfredo Pareto na sua Teoria das Elites, que se vão alternando no poder, sempre com novas promessas, mas os mesmos vícios.

É por isso que vale a pena olhar para exemplos como a Finlândia. Lá, todo o ensino é gratuito e público, o que significa que os filhos das elites estudam nas mesmas escolas que os filhos do resto da sociedade. Isso obriga essas mesmas elites a quererem o melhor para o sistema, porque o sistema também serve os seus. Resultado: ensino de qualidade para os seus, que é, por consequência, ensino de qualidade para todos. Aqui, pelo contrário, quem tem poder foge da escola pública e depois admira-se com o estado em que ela está.

Mas já me alonguei outra vez. Obrigado mais uma vez.

Abraço,

Pagomes

Avatar de Maria Luísa

Concordo e diria que este probelma não se restringe às crianças, jovens ou ao ensino atual. É uma realidade antiga e que inclui os adultos atuais com habilitações de ensino superior. A educação falhou. Temos adultos com mestrado e até MBA ignorantes. Não há uma cultura de incentivo ao pensamento crítico e ao conhecimento e quem procura cultivar-se fá-lo sozinho, independentemente da classe social.

Avatar de João Azevedo

Olá Maria Luísa, obrigado pelo teu contributo. Gosto de acreditar que a educação está a falhar e ainda podemos fazer algo. Chama-me optimista se quiseres. Mas também considero que a ausência de pensamento critico foi idealizada nas últimas décadas. Vemos isso nos conteúdos das televisões, no cinema, nos livros que mais vendem, na ausência de debate, no scroll infinito e conteúdos cada vez mais curtos que viciam a capacidade de concentração. Há muito a mudar, a começar pela educação, mas não só. Um abraço !

Avatar de Maria Luísa

É bom que haja pessoas otimistas! :) Tens razão quando dizes que esta forma de pensar dominante foi idealizada. É mais uma forma de controlo social que beneficia quem controla. A ideia é manter-nos mansos, convencidos de que temos liberdades e direitos e sempre a consumir. Já li vários artigos que dizem que as elites tecno feudais têm os filhos em escolas onde ensinam filosofia, ética, história, política, etc., e que os mantêm longe dos ecrãs. Este assunto dava pano para mangas, mas fico por aqui. Um abraço e boa sorte nesse papel de educador. :)

Avatar de João Madureira - Nutricionista

Há problemas epistemológicos básicos na sociedade ocidental que, na minha opinião, só podem ser resolvidos com teorias como o budismo, que defende que todos os conceitos que nos passam pela cabeça não correspondem à realidade dos factos, e que devem ser questionados. Nessa capacidade de refletir sobre nós mesmos reside o nosso poder de cultivar estados mentais mais adequados.

Como exemplo, a moralidade esquizofrénica ocidental revela-se no seu tratamento dos animais. O Papa diz que "maltratar um animal sem necessidade vai contra a dignidade humana", mas depois não consegue demarcar-se das touradas que são realizadas em nome dos santos católicos. Isto cria na população a noção de que não há moralidade real. E de que se pode oprimir quem não se consegue defender.

Aliás, ao nível do desenvolvimento mental, não pode haver verdadeira intuição ou facilidade de pensamento sem previamente avaliar sistematicamente os nossos pressupostos. Os teus alunos, como a maioria das pessoas, desenvolveram intuições erradas sobre o que é importante na vida. O teu e o nosso trabalho é de estimulá-los a terem percepções corretas e equipá-los com ferramentas de autocrítica.

Da mesma forma, grande parte dos nossos problemas deriva da nossa obcessão com a propriedade privada, com "ganhar", com promover o ego. Coisas que aparentemente não dão lucro imediato, como gastar tempo a ler, como investir numa dieta mais simples e saudável, são menosprezadas, inclusive ao nível da academia.

Ao mesmo tempo, plataformas como a inteligência artificial ou a própria estupidez do sistema educativo levam a "licenciamento moral". Os jovens sentem que tudo podem fazer, incluindo fazer batota em exames, e que as regras que lhe são impostas são arbitrárias. Por isso sentem-se à vontade em executar comportamentos antiéticos porque isso não traz consequências reais.

E termino com o que disse o nosso professor de Economia da Saúde no meu mestrado em Saúde Pública, quando discutíamos os problemas da sustentabilidade do SNS: é fundamental levar essa e outras discussões para fora da sala de aula, é fundamental que a sociedade debata os problemas que a afetam, é fundamental ser ativista.

Avatar de João Azevedo

Gosto muito dessa perspetiva do teu professor: é mesmo preciso ser-se activista. E nos dias que correm pareceu que é cada vez mais difícil sê-lo. Também partilho contigo a ideia de que temos muito a aprender com o Budismo que, de muitas formas, é antitético ao mundo de hoje. Obrigado pelas palavras, João, um abraço.

Avatar de João Azevedo

Obrigado pelas palavras e é um prazer contribuir para quem quer construir um mundo melhor. Não te alongas nada. Aliás, acredito que também no falta a conversa mais profunda, mais longa, mais ponderada. Há um problema na forma como estamos a educar as crianças e é preciso olhar para os bons exemplos que referes. Efetivamente desconfio da vontade política dos nossos eleitos, mas isso são outros quinhentos. Um abraço!

Avatar de O que Faz Falta

Obrigado João pela referência, mais uma vez. Usas no texto uma palavra que creio ter muita importância, comunidade. A minha forma de atuar até o momento tem sido muito online, devido à distância que me separa do país, mas creio que fazer algo presencialmente junto das comunidades em que nos inserimos faz muita diferença. As minhas atividades aqui estão mais relacionadas com apoio a refugiados, e coisas básicas que se calhar não acrescentam muito aqui. No entanto, também já dei aulas em diferentes contextos, desde crianças de 8 anos até a universidade. Acredito que nem sempre conseguimos, mas devemos estar abertos às sugestões que eles nos fazem, e que nos trazem. Por vezes andamos nós a procurar soluções quando são eles que as têm na ponta da língua sem sequer se darem conta. Não é que as coisas estejam bem, mas se calhar podemos ser mais orientadores e facilitadores de soluções.

Dito isto, sei que não é nada fácil e não tenho bem ideia de como está o ensino, mas acredito em tudo que escreveste. Na realidade tenho andado bem desanimado com o mundo. Gostava de trazer ânimo, mas apenas te posso trazer mais inquietações eheh