O Paradoxo da Gratidão e da Dívida.
Olá,
Tenho o enorme privilégio de ter na minha vida inúmeras pessoas a quem agradecer por uma porrada de coisas diferentes. Mas a minha gratidão extende-se às pessoas que nalgum momento atravessaram a minha vida e me ajudaram, de forma altruísta. Definamos, pois, o que é apoiar com a ajuda da Infopédia:
apoio
nome masculino
ato ou efeito de apoiar
tudo o que serve para amparar ou sustentar; suporte; base
ajuda moral ou material; proteção; auxílio
aprovação
Desde as acções mais pequenas, aos pilares que me permitiram suportar sofrimentos enormes em determinados pontos no tempo, tenho tendência a recordar-me de cada uma dessas pessoas. De quem deu a mão a um miúdo de vinte anos enquanto a sua mãe definhava com um cancro nos pulmões: amigos em cujo ombro chorei, professores que alargaram prazos de entrega e todos os que perceberam que era melhor afastar-me do abismo que fitei nessa época. Também a quem me ajudou a sentir a estrelinha que sempre senti que me guiava: o estágio no momento certo, a paciência nas explicações de Português que me tornaram no escritor de hoje, o convite para o projeto certo na altura certa, pelo arcaboiço numas mudanças e pinturas da casa nova e pelos jeitinhos gentilmente cedidos - que sempre me faltaram - nos arranjos das múltiplas casa onde vivi. Guardo na memória esses momentos e nutro uma enorme gratidão por cada uma destas pessoas, mesmo que a vida se tenha encarregado de nos afastar ou que tenhamos tido divergências antagonizantes. São os tais gradientes que tornam as relações humanas nesse manancial complexo e emaranhado de emoções.
A minha concepção de apoio pressupõe altruísmo. Está enraizada na ética e moral judaico-cristãs, bem como na cultura católica, que apregoam o amor pelo próximo. Cresci numa família com estes valores: ajudamos e fomos ajudados, sem pedir nada em troca, sem nos ser cobrado nada. Novamente, a Infopédia parece sustentar esta minha crença:
altruísmo
nome masculino
Sentimento de interesse e dedicação por outrem
orientação de quem procura garantir o bem de outro(s), mesmo se à custa dos próprios interesses
doutrina moral segundo a qual o bem consiste no interesse pelos nossos semelhantes; filantropia
FILOSOFIA doutrina que considera a dedicação aos outros como norma suprema de moralidade
abnegação
Não consigo formular o apoio a alguém sem o sustentar nesta definição. Nesta forma abnegada de ajudarmos alguém e, mais importante, não esperar nada em troca. Só posso sentir gratidão se não me for cobrado absolutamente nada. Porque a cobrança torna o apoio em algo transacional e cria um sentimento de dívida. É precisamente aqui que as palavras assumem uma enorme importância e ajudam a clarificar o que nos rodeia. Foi numa conversa com a Sofia que acabámos por perceber que gratidão e sentimento de dívida são coisas que a epistemologia nos garante serem diferentes. A acção de apoiar é esvaziada de sentido e propósito quando é cobrada. Aliás, a própria cobrança invalida o apoio inicial: redefine o propósito original e reformula para algo que é o contrário do altruísmo e que é transacional. Mais, revela que um suposto apoio teria uma agenda por trás. Um interesse e uma inferência de que se espera algo em troca. Refaz a construção do real e expõe uma falsidade na textura relacional até então vigente. É com estes pormenores que as pessoas se revelam. Mas, como em tudo na vida, nada disto pode ser olhado como preto no branco; há nuances quando, por exemplo, ajudamos alguém e criamos a expectativa de, se algum dia precisarmos, sermos ajudados. Podemos ficar desiludidos com essa pessoa em questão pela incapacidade de devolver um favor. Contudo, ultrapassamos uma fronteira da decência quando exigimos e tornamos o que antes fora um acto de abnegação numa moeda de troca
É a cobrança que transforma tudo, portanto. Amigos ou família que gostam de elencar o que já fizeram, como se isso lhes conferisse uma espécie de poder sobre nós. Como um amigo descreve, nasce aqui uma mão invisível que corrói relações e elos emocionais porque almeja condicionar, de alguma forma, a nossa acção. Há a intenção que as nossas escolhas e acções tenham em conta o apoio prestado; assim, esse imperativo da ajuda mútua é conspurcado pela manipulação, seja ela velada ou assumida, consciente ou inconsciente. Quando esvaziamos o gesto do seu significado original, ele sofre uma mutação: continua a ter o impacto devido nas nossas vidas, mas ganha a usura de um agiota. Repesco uma reflexão de Abril de 2024: o amor não pode ter condições. Não amamos, gostamos ou nos preocupamos com alguém em troca de algo. Só podemos amar de forma incondicional, porque sim. Amamos porque sentimos algo dentro de nós inefável. E por isso tendemos a apoiar quem amamos, desejamos-lhe o melhor possível e damos todo o valor a essas pessoas pelo simples facto de existirem. Não se pede absolutamente nada em troca porque não é assim que se formam e nutrem os elos que nos unem. Cobrar é toda uma outra coisa, o mais longe possível do que pode significar amor. Por mais que estejamos convencidos do contrário, não amamos verdadeiramente quando o nosso amor tem um preço. As palavras e os seus significados importam para que sejamos lembrados, sempre que possível, que as nossas ilusões e construções do mundo esbarram na simplicidade de um conceito tão humano como o apoio e a ajuda.
A primeira versão deste texto terminava no parágrafo anterior. A sensação que ficou colada no corpo era a de que tinha acabado de escrever uma coisa óbvia. Como se discorrer sobre o fosso que existe entre gratidão e dívida fosse uma redundância. Afinal, escrevo para ser lido e perguntei-me senão estaria a fazer chover no molhado. Porque cada linha, reflexão e conclusão que apresentei são, para mim, óbvias. Por exemplo, como pai, a minha abnegação é imperativa na felicidade dos meus filhos. Eles não pediram para nascer, nada me devem; pelo contrário, eu é que lhes devo muito. Sou incapaz de conceber a cobrança que lhes poderia fazer por algo. Faço o que posso por eles com o maior dos prazeres, outras vezes com custo, e nunca esperarei nada em troca. A vida é feita de sincronicidades bonitas. Uma das últimas com que me deparei foi um texto maravilhoso escrito pelo Zé Pinho. Lá pelo meio, saltou-me à vista um parágrafo que resume aquilo que penso que se deve ouvir de um pai e que, em certa medida, até tive: o direito a ser aceite por quem sou, o direito a mudar quem quero ser e sentir que o que é mais importante é levar uma vida realizada e feliz na busca dos meus sonhos.
Uma das minhas filhas teve, desde sempre, um percurso profissional de enorme sucesso. Quem avaliasse esse percurso pelos lugares onde trabalhou, as funções que desempenhou, as pessoas que conheceu e os projetos em que se envolveu - e mesmo o dinheiro que ganhou - não hesitaria em o classificar como o sonho de qualquer jovem advogado. E tudo à custa de muito compromisso, muito trabalho, muita competência, de muita seriedade, de um profissionalismo à prova de fogo. E infelicidade. Quando nos comunicou, com enorme custo, a sua coragem de parar e escolher outra coisa para fazer - a cozinha, que a apaixona - um dos seus lamentos era ter de abandonar uma série de investimentos de formação na carreira porque agora não lhe serviriam para nada. Louvamos todos a coragem dela - unimo-nos todos à coragem dela - porque, apesar desse investimento financeiro, formativo, afetivo, de vida vivida, ela estava a escolher não viver em função do passado, das tais ferramentas que, com muito custo, conseguira conquistar, mas da sua felicidade, do que fará com que sinta e viva a sua vida de maneira, para si, significativa. E isso é o que verdadeiramente importa. - esbardalhar, Zé Pinho
Acabei de ler este parágrafo e emocionei-me. Primeiro, porque tive sorte com a lotaria genética e social: tive dois pais que sabiam que o importante era apoiar a escolha da minha felicidade, mesmo que isso implicasse mudanças de rumo. Eles perceberam que “estava a escolher não viver em função do passado (...) mas da felicidade, do que fará com que sinta e viva a vida de maneira, para mim, significativa”. Depois, porque conheci demasiados pais que cobraram esses passados tentando agrilhoar filhos e filhas às suas concepções do mundo. Às visões que eles tinham da sociedade. Às métricas de sucesso e felicidade assentes em carreiras, em progressões, e promoções. Sem espaço para mudanças, essas peças essenciais no caminho para a felicidade. Foram, e são, pais que nalgum momento se esqueceram de que o amor é incondicional e que a felicidade dos nossos filhos não tem que ser necessariamente a nossa. Que viveram, e vivem, agarrados à imagem que tentam projectar para os outros e a percepção que tentam gerir às custas de algo que devia ser essencial: o desejo genuíno de ver os nossos filhos realizados e felizes.
Abraço-vos,
João
Este autor escreve com o antigo acordo ortográfico.
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