O Lado Certo da História
Olhar a Besta de Frente
Olá,
Há coisa de um ano, assisti a uma conversa sobre a ocupação sionista na Palestina. Por razões profissionais, imiscuí-me de participar diretamente: o debate de ideias com o patronato é sempre minado pela hierarquia e pelo conflito de classe. Nessa conversa, um lado defendia o direito inalienável da potência colonizadora em permanecer em território Palestiniano e se defender (oprimir?) do povo colonizado. O outro refutava a ideia de defesa e enfatizava o argumento da limpeza étnica, do colonialismo violento, do lado certo da história. Neste momento, alguém pergunta: e qual é o lado certo da história? Nesta interrogação percebi a verdadeira dimensão do que significa viver numa Era da pós-verdade e do hiper-relativismo. Como se pudéssemos ouvir as duas versões de uma história e pôr de parte as nossas intenções, valores e código moral.
Mais recentemente, recordei essa conversa com um dos protagonistas, defensor da Palestina. Ele disse que ainda não sabia qual era o lado certo, mas que tinha a certeza que o genocídio e a limpeza étnica em Gaza não podiam ser. Isto não é uma análise simplista: é interpretar atos e factos à luz das nossas crenças. Não consigo conceber um argumento lógico para rebater que o extermínio, seja de quem for, é aceitável. Escrevi uma carta aos meus filhos, para a posteridade, sobre esta ocupação e limpeza étnica ao vivo e em direto. Pouco mudou desde então. Mas o texto de hoje nasce da necessidade de refletir sobre o tal lado certo da história, sem superioridades morais ou desonestidades intelectuais. Porque, no rescaldo das últimas eleições legislativas, precisei de tempo para digerir o que se passou. Precisei de tempo para olhar a besta de frente e tentar percebê-la. Muni-me do silêncio, da desilusão e evitei conversar muito sobre o assunto. Gosto pouco de falar sobre o que não compreendo e mandar achas para fogueiras precipitadamente.
Qual é o lado certo da história?
A resposta mais simples que consigo elaborar é: no combate da opressão sobre os oprimidos, escolher estar do lado dos oprimidos. É uma definição carregada de viés, eu sei; contém os meus valores, crenças, condicionamentos e moralidade. E está aberta a discussão: o que é um opressor, o que é um oprimido? O que distingue um Judeu na Alemanha Nazi de um Sionista na Palestina?
O lado certo da história é, invariavelmente, uma interpretação subjetiva. Será mesmo? O que acontece tem sempre várias versões, várias leituras dos factos. Nasce aqui a semente do que se pode tornar um relativismo exacerbado, enviesado, cego e ignorante. Mas, na génese, e de acordo com a minha visão do mundo, há múltiplas perspectivas sobre um assunto. A questão da opressão, da injustiça e do ódio são guias que me permitem posicionar. São as lentes que, consciente ou inconscientemente, escolhi para ver o mundo. Permitem, também, perceber que o lado certo da história carrega, demasiadas vezes, um maniqueísmo. O bom e o mau, o nosso lado e o deles. Esta polarização tem sido minada, extraída e lapidada como nunca nas últimas décadas. As várias perspectivas colidem de forma cada vez mais violenta, não permitindo o espaço essencial de reflexão. Desta forma não se conseguem os consensos e compromissos sobre as múltiplas visões do mundo que acabam por construir a ética e moral vigentes. Sim, porque o lado certo da história está umbilicalmente ligado ao momento em que acontece, nas morais que o constroem. E nessa ligação podemos tirar ilações importantes a nível civilizacional. In extremis, as implicações para a nossa espécie.
No caso da Palestina e do seu invasor, vejo o lado certo da história através da minha conceção moral do mundo: todas as pessoas têm o direito a viver uma vida digna. A invasão Sionista nas últimas sete décadas tem feito o oposto: limpeza étnica, segregação racial, bloqueios ao desenvolvimento socioeconómico. Fui educado a considerar inaceitáveis estas ações e condeno este tipo de barbárie. Conheço a narrativa Sionista, a história que levou à ocupação colonial, os argumentos que sustentam essa ocupação. Percebo que, sendo educadas desta forma, as forças opressoras não consigam ver além da doutrina. Assumo uma posição de defesa do povo palestiniano, oprimido, precisamente porque a minha moral não se coaduna com as ações, argumentos e visão Sionistas. Para mim, este é o lado certo da história.
Em Portugal, no passado dia 18 de Maio, ficámos a saber dos resultados eleitorais. A vontade do povo português foi sufragada e temos agora uma nova configuração política no parlamento. Há um novo jogo de forças, de interesses. Como homem progressista e democrático, fiquei desiludido ao ver que um partido de índole racista e autoritária ganhou uma força nunca dantes vista no pós-25 de Abril. Respeito, claro, os resultados, mesmo considerando o método de Hondt pouco adequado e da desproporção de tempo de antena - oficial e oficioso - entre os partidos. Mas há um crescer de uma força que se quer opressora (pela exacerbação capitalista, as guinadas nacionalistas e o apelo ao autoritarismo cada vez maior). Não será este o momento e o espaço para a reflexão da causalidade nem tão pouco das consequências. É tempo para alinhar valores, intenções. Reflito sobre, neste momento da História, que lado é o certo. Mantenho a definição inicial: o lado dos oprimidos. Das vítimas de ódio e da intolerância. As famílias desesperadas, sufocadas por um sistema que as faz trabalhar demais, ganhar pouco e quase não ter tempo para os seus. A sociedade alienada, pelas tecnologias, pelos ciclos noticiosos. Manipulada pelas narrativas impostas, vigentes, construídas para servir quem quer oprimir. O lado certo é sempre o da tolerância, verdade, respeito, amor, liberdade. Não o do medo, dos falsos fantasmas, da mentira, do engano. Assim escrito, parece simples. Talvez seja.
Contra mim falo: as pessoas deixam-se ir. Somos absorvidos pelas rotinas. Tudo à nossa volta é desenhado para alimentar o isolamento; vivemos para os nossos núcleos familiares, cada vez mais pequenos, as pessoas do nosso emprego. As mesmas caras, conversas, ideias. E vamos ficando, como aquelas relações demasiado confortáveis para terminar, onde sabemos que as coisas não estão bem mas o que temos é melhor do que nada. É neste conformismo induzido que coexistimos uns com os outros. Faço o mesmo. É um exercício complicado mudar as nossas rotinas e hábitos para, de alguma forma, ir contra o sistema. Dá trabalho organizar as nossas comunidades, ouvir outras pessoas. Dá trabalho procurar contraditórios, refletir sobre o que nos é dado e conversar com outras perspetivas. Dá trabalho procurar formas de ação que beneficiem os outros a nível local, regional e nacional. Tudo isto precisa de tempo, de ação, de sacrifício e não vivemos num mundo que facilite nenhuma destas práticas.
Aperta-se-me o peito porque, com tudo isto, são os meus filhos em quem penso primeiro. Que mundo vão eles herdar e qual é o meu papel na construção da realidade deles? Plantamos as sementes - valores - e esperamos que cresçam da melhor forma. Mas não controlamos o solo, o clima, as doenças, nem todas as variáveis que podem afetar o seu crescimento. A intolerância é gritada nas redes, nas conversas, nas campanhas, no parlamento, nas autarquias, nas escolas, nas casas. A informação é manipulada para construir o nosso consentimento em demasiadas coisas e acaba por substituir o pensamento crítico. O ódio, que em tempos teve vergonha de se mostrar, agora está a céu aberto, como um esgoto, a crescer de forma exponencial. O lado certo da história, então, não é uma discussão filosófica ou uma interpretação de factos. O lado certo da história está de mãos dadas com o que de melhor a humanidade tem: a capacidade lutar contra as injustiças. A partilha, o diálogo, o amor. Talvez seja ingenuidade minha. Talvez seja a minha recusa em aceitar que somos apenas uma amálgama de genes egoístas. Ou então é apenas o somatório dos meus valores, crenças e intenções que me faz acreditar que o lado certo da história não é uma opinião: é o rio que flui independentemente dos tempos e onde navega o que há de melhor no ser humano.
Abraço-vos,
João
Acabei o novo livro do Francisco Mota Saraiva. Não conhecia o autor, mas sendo o mais recente prémio Saramago, estava curioso. Também gostei do título - apesar de não revelar absolutamente nada do contém entre a capa e a contracapa. Estive para o comprar algumas vezes desde o lancamento, mas encontrei-o nas novidades da biblioteca aqui do burgo. “Morramos ao Menos no Porto” é um livro difícil de descrever. Tem um escrita própria - à semelhança do nosso Nobel, por exemplo. A construção frásica é, no mínimo, interessante: encadeamento de frases e orações que às vezes parecem um fluxo de consciência do narrador, dos personagens. A história vai aparecendo por dentro dessas construções de palavras: há um peso nos personagens, nas suas vidas. Há asco e incómodo. Há amor, ódio, perversão. Há a vida como ela é, numa forma literária pouco vista nos livros de hoje em dia. Pelo menos os que me têm passado nas mãos. Sinto que estou a hiberbolizar esta experiência de leitura; mas há muito que não tinha uma experiência destas. Ao ponto de, neste momento em que vos escrevo, ainda não ter percebido se gostei do livro. Porque a leitura não é fácil, apesar de fluir. Porque a narrativa é de difícil digestão. Porque é totalmente diferente do que tenho lido. Se alguém que me esteja a ler já o leu, digam-me coisas, vamos processar esta obra juntos
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O consentimento é manufaturado pelos media, como diz o Chomsky.
Vou dar um exemplo pessoal.
Quando era adolescente fiz mal a animais que tinha. Mais ou menos sem culpa, apenas brinquei de forma mais violenta. Mas o que interessa é que ficaram magoados. Fiquei triste.
Depois meti isso debaixo do tapete do subconsciente até que vi um filme sobre o que se passa em matadouros e na própria pecuária.
E aí vi que ao longo da minha vida tinha sido responsável pela tortura e morte de centenas de animais, ao pagar pelos seus cadáveres para os comer.
Mas, ao contrário dos meus animais de estimação, eu não tinha qualquer ligação emocional a essas centenas de animais de pecuária.
Porque nunca me tinham exposto ao que se passava com esses animais. Porque as televisões têm medo de ir contra os seus anunciantes.
E então tornei-me um lutador contra a opressão, e tornei-me vegano, que de longe foi a decisão mais profícua e acertada que já tomei.
Ainda hoje, apesar de os animais de pecuária serem as criaturas mais exploradas, abatidas aos biliões por ano, pouca gente parece desperta para o problema.
Quando se fala disto, parece que é sempre na óptica da espécie humana: deixar de comer animais diminui o risco de muitas doenças crônicas. E as pessoas estão interessadas nisso. Mas é tabu falar das vítimas.
O consentimento manufatura-se, talvez, com o sentimento de identidade e de ganância das pessoas. O Buda avisou que a identidade separada é uma ilusão e a fonte dos nossos sofrimentos.
https://omeuproprioolhar.substack.com/p/o-lado-certo-da-historia