O Desacordo: ou a capitulação.
Olá,
Há momentos na vida em que a capitulação se pode apresentar como uma inevitabilidade. Passaram poucas semanas desde que aqui escrevi sobre o compromisso em tomar uma posição literária e assumir um dos acordos ortográficos. Julguei eu que a minha vasta experiência em facilitismo funcional me tinha orientado para a escolha óbvia: do antigo acordo, aquele com que aprendi a escrever. Achei, ingenuamente, que iria ter a vida facilitada e que as minhas revisões – focadíssimas – trariam consigo a bagagem ortográfica solidamente conseguida desde tenra idade. Estava redondamente enganado.
São poucos os autores que ainda se mantêm fiéis ao antigo acordo. Fico sempre embevecido e gabo-lhes a coragem de remarem contra o acordo em vigor, instituído forçosamente a 13 de Maio de 2015. Outros eruditos e doutos entendedores da matéria argumentam que foi só a 22 de Setembro de 2016, mas eu até acho que fazer coincidir a data com a aparição da Nossa Senhora aos três pastorinhos, 98 anos depois, faz algum sentido. Tanto quanto a argumentação usada para a criação do acordo. Tirando esses defensores do património literário português, bravos guerreiros da ortografia, o resto de Portugal adotou o novo acordo. Tecto agora é teto e far-me-á rir todas as vezes que encontrar a palavra. As escolas abraçaram as palavras desprovidas de consoantes mudas, novas regras ortográficas e de acentuação. A instituições públicas também. E a infeção espalhou-se rapidamente para o mercado editorial, jornalístico e outros recantos onde se podem encontrar amálgamas de palavras. Quando dei por mim, estava cercado: em todo o lado a nova grafia vingava e começava, lentamente, o seu processo de colonização da minha mente.

No último texto que escrevi e que a Raquel reviu, reparei que havia um constante acrescento de “c” e “p” a várias palavras. Até aqui tudo bem, foi precisamente o que combinei com ela nas revisões: o assumir do antigo acordo ortográfico e combater a ignomínia da aceitação cega do acordo imposto. O problema é que eu revi o mesmíssimo texto duas vezes antes de o enviar porque queria que o foco da revisora fosse mais no prosa em si do que na ortografia. Repito: por duas vezes li o meu texto à caça de palavras em discordância do antigo acordo e por duas vezes me passaram o lado. Não vos falo de uma leitura leve em simultâneo com um jogo de futebol na televisão. Pelo contrário, foram leituras atentas, concentradas. O meu coração caiu por terra, desolado. Afinal, a infeção estava espalhada, dos ossos à massa cerebral, e o meu discernimento já não conseguia distinguir uma perceção de percepção. O adotar de adoptar. Senti que morri por dentro, incapaz de assumir, dignamente, o simples compromisso de escrever em acordo com um acordo ortográfico. Ou, pior, que o novo acordo estava já demasiado embrenhado em mim, assente em milhares de páginas de jornais, livros e revistas lidos, cimentando uma aceitação inconsciente da barbárie ortográfica. No preciso momento desta constatação, soube que morreu um golfinho.
Não posso admitir a morte de um delfinídeo em vão. Como honrar este sacrifício que as vontades divinas da literatura infligiram no habitante do Rio Sado? Talvez capitulando, pensei eu. Como um alcoólico numa reunião de anónimos, pedir a serenidade para aceitar o que não posso mudar e a coragem para mudar o que posso. E por fim, a sabedoria para conhecer a diferença. O caminho mais fácil não é, afinal, o antigo acordo. É o novo. Porque é o do corretor ortográfico nativo do Google Docs onde escrevo. Porque é o que é automaticamente corrigido à medida que digito palavras e, acima de tudo, é o que me sai mais naturalmente. É preciso assumir: escrevo mais vezes em concordância com o novo acordo do que com o antigo. Não me está a ser perguntado se gosto mais da mãe ou do pai. A escolha é entre qual deles me facilita mais a vida. E neste caso, por mais que me custe, é de facto o novo acordo. É também o acordo com que o meu filho mais velho está a aprender a escrever. Por isso, vou simplificar a minha vida e deixar de tentar parar a corrente do rio com a mão. Não sou um conhecedor profundo das argumentações a favor e contra a entrada do novo acordo ortográfico, mas o antigo soa-me sempre mais natural: foi o que eu aprendi. Mas “todo o mundo é composto de mudança” já nos dizia o José Mário Branco nos ombros do Camões. Quem sou eu para me armar em velho do Restelo?
Abraço-vos,
João


Eu continuo a escrever com o antigo (profissionalmente também, uma vez que quando estava no Público ainda se escrevia e na Time Out Lisboa continua a escrever-se com o antigo). Mas percebo a capitulação e um dia, quando tiver de ajudar a minha filha nos trabalhos de casa, provavelmente também terei de atirar a toalha ao chão. É o que é. Como dizes, não é possível parar o rio com a mão