O Acordo
Olá,
Para a última crónica, pedi à Raquel Dias da Silva para me rever o texto. Foram poucas as vezes que dei o meu texto a alguém para revisão, ainda para mais alguém cujo olhar crítico para amálgamas de palavras tenho tão em conta. A primeira pergunta que ela me fez: “qual o acordo ortográfico que utilizas?” Lixou-me à grande e fui obrigado a dar a resposta honesta: os dois. Isto porque não passo de um burro velho que não aprende línguas - ou acordos, neste caso - e andei a descurar a minha exigência com uma escrita coerente e defensora dos bons costumes. Enfim, não sei se serão bons, mas foram os que eu aprendi e aos quais reconheço uma grafia atraente e sedutora. “Teto” em vez de tecto? “Veem” em vez de vêem? Sobe-me logo vocabulário vernacular ao lóbulo frontal e sinto que é preciso tomar uma posição.
Mas antes, um pouco de contexto. Porque uso ambos os acordos no mesmo texto? Por uma porrada de razões diferentes. A primeira é que o corrector ortográfico do Google Docs só assume o novo acordo ortográfico quando escolho a opção de linguagem Português (Portugal). E ao invés de ser fiel aos meus princípios, rendo-me à preguiça e ao laxismo e permito-me ser influenciado - coagido? - pelo entendimento do Google. A segunda razão é que algumas das alterações do novo acordo até me fazem sentido. Não me incomoda acção passar a ser “ação”. E também simplifica a palavra coacção. Mas “ótimo”? “Espetáculo”? Poupem-me. Todavia, a principal razão é o combate com a urgência interior que faz com que queira debitar o fluxo de pensamento o mais rápido possível. Depois, aliado ao preguiçoso que me habita, tem pouco brio nas revisões e não se importa de secundarizar a coerência, entorna-se a caldeirada. E isto acontece há anos, pelo que já tenho o cérebro completamente baralhado. Mas nada temam. Vou-me juntar às hostes de guerreiros literários que arrancam os seus textos - ou finalizam - com “este autor escreve de acordo com o antigo acordo ortográfico”. Sendo preciosista, acho que a nossa guilda devia reformular a frase para “...escreve em conformidade com o antigo acordo ortográfico” para evitar a repetição da palavra acordo. Digo eu. Mas concordemos em discordar. A nossa luta é nobre: com sorte e esforço e empenho conseguiremos reverter a dilaceração do que me foi ensinado na escola primária. Ou a morte chegará lentamente - assim espero - a cada um de nós e vingará o novo acordo por falta de tipos e tipas teimosos como nós. A história julgar-nos-á

Estabelecidas algumas bases e clarificando a minha recente picuinhice com a questão, avancemos. Sendo filho de uma professora de português cujas melhores amigas partilhavam a mesmíssima profissão, este tema acabou sempre em celeuma. Havia os menos dignos que achavam que a língua evolui e, como tal, a nova formatação do Português traria uma universalidade aos falantes da língua de Camões de todas as geografias. Do outro lado da barricada, os seres mais iluminados com um ligeiro pico conservador defendiam que a língua é a nossa pátria e devíamos todos ser arautos deste nacionalismo linguístico bacoco. Escrever-se-á o português de Portugal no país à beira mar plantado, portanto. Eu sempre me estive marimbando para isto até ao momento em que percebi que não posso escrever algo que não é carne nem é peixe. Consigo ler ambos os acordos e tirando as embirrações acima referidas, bem como urticárias na grafia, a questiúncula nunca me disse grande respeito. Até ao momento em que decidi publicar crónicas semanalmente e foi aqui que a porca torceu o rabo. Como sou de maturação lenta, a questão só se tornou evidente, e iminente, com a pergunta da Raquel há umas semanas. Até lá, marimbava-me alegremente. Mas, subitamente, tornou-se imperativo tomar um lado. E sou um pragmático: escolhi o lado que conheço melhor e com o trilho de menor resistência. Tenho mais anos de antigo acordo do que do novo, gosto de implicar só porque sim e, com a inteligência artificial e as pontuais revisões da Raquel, estão reunidas as condições para dar certo. Vai ser um processo, mas estou confiante que a coisa com o tempo se entranhe e só tenha que, mais tarde, enfrentar a problemática de lidar com a revisão de composições do meu filho. Conto convosco, censores da gramática, para me ajudarem nesta odisseia que agora começa.
Abraço-vos,
João
Este autor escreve de acordo com o antigo acordo ortográfico mas acha que se devia escrever “...em conformidade com o antigo acordo ortográfico”.
Estas crónicas serão sempre gratuitas. Se gostas de acompanhar o que escrevo e gostavas de me apoiar, podes:
Mandar-me uns trocos para o PayPal
Ajudar-me a vender livros e coisas cá de casa
Fazer uma contribuição única ou recorrente para um café


Mas olha que percebo a tua irritação abacate, permite-me a usurpação da expressão. Porque, realmente, quem lê deveria perceber qual o acordo vigente. O problema é a minha preguicite aguda crónica que me estava a fazer escrever com ambos os acordos. Adjetivo ali, optimismo acolá. Não podia ser, senti falta de integridade estrutural e que estava a perder uma hipótese única de poder ser um fuinha linguístico. E decidi anunciar para que todo o mundo saiba do esforço hercúleo a que me propus e, quiçá, inspirar outros a tomarem posições definidas e não serem uns badamecos que utilizam ambos como eu.
Bom eu tenho um feitiozinho de merda e, para usar um termo que adoptei a ouvir o podcast Mil folhas da Raquel Dias da Silva, isto é para mim uma irritação abacate! Por que raio tenho que avisar alguém sobre que acordo estou a usar? Mas isto é alguma alergia ao glúten ou ao amendoim? Não quero ter que avisar ninguém sobre qual é o acordo cujas regras estou a utilizar. Se estão a ler o meu texto e não estão a perceber qual a versão da língua estou a usar pois então de pouco lhes serve a informação. Se perceberem qual a versão do acordo estou a usar então por que carga de água é que os estou a avisar? E é com este tipo de minudências queimo horas de sono.